Já me referi, em artigo anterior, à solidariedade
sobrenatural inquebrantável que deve reinar em todos os católicos filiados a
organizações religiosas. O artigo de hoje se destina não a esta porção de escol,
já arregimentada no exército de Cristo-Rei, mas à
massa geral dos fiéis.
O assunto é complexo. Facilmente, tratando dele, as
pessoas incidem em exageros ou atitudes unilaterais que prejudicam uma visão
objetiva dos fatos.
Principalmente entre os católicos militantes se
notam às vezes, a este respeito, generalizações perigosas. Alguns entendem que
essa grande massa de católicos, que por aí existem, vivendo divorciadas, ao
menos em parte, do pensamento e da orientação moral da Igreja, nem sequer
merecem o nome glorioso de católicos. Rugindo tragicamente - e um tanto desequilibradamente - à moda de certos escritores
franceses, contra a indiferença, o imediatismo, o
egocentrismo, a tepidez crônica que caracteriza inegavelmente certas pessoas
entretanto muito vistosas na prática exterior do culto, chegam a afirmar que
tais católicos absolutamente não pertencem mais à Igreja, são piores do que os
próprios pagãos, e, em última análise, responsáveis por todo o mal existente no
mundo. Outros, com uma inocência que causa dó, tomam ao pé da letra todas as
manifestações de piedade desses católicos tépidos e lhes dão um significado
psicológico que está muito longe de ser real. Comungou? Então é um católico
100%. Reza o terço de quando em vez? Então uma certeza de 500% de que se trata
de uma alma plenamente reta, transbordante de boas
intenções e de boa vontade, que está a um milímetro da conversão integral. É
curioso dizê-lo, mas certa gente confere tais atestados de catolicidade até a
índices muito menos significativos. É irmão do Dr. que é muito católico? Então
deve ser católico também, ou ao menos será muito boa pessoa. É sobrinho do
Padre X, ou marido de D. Z, que é Presidente da Confraria Y? Então está tudo
resolvido: a pessoa é excelente.
Evidentemente, nem uma nem outra posição há um
equilíbrio perfeito, se bem que em ambas haja uma certa parcela de verdade.
Vejamos como a nosso ver este assunto deve ser considerado.
* * *
É plenamente verdade, em primeiro lugar, que em
nossa época as infiltrações do espírito pagão conquistaram na massa dos fiéis
uma zona de influência importante, e que um número apreciável deles - não vem
ao caso discutir em que proporções - merece, realmente, todas as censuras que
Nosso Senhor reservou aos tíbios, aos indiferentes, aos tépidos, aos que dormem
com uma negligência sumamente condenável, no próprio momento em que os mais
argutos já percebem que se aproxima o tropel dos passos dos algozes que
supliciarão Nosso Senhor no século XX, e a voz infame dos Judas que lhes
apontam o caminho mais direto e o sinal mais seguro para encontrar e reconhecer
o Salvador. Penso que o “Legionário” se carateriza por um espírito tão
diametralmente oposto a esta tepidez criminosa, que pode, insuspeito como é,
apontar algumas notas atenuantes no quadro, nota esta cuja omissão nos
conduziria a graves erros.
Em primeiro lugar, é uma injustiça. A injustiça
seria pretender que o mundo está assim por causa de tais católicos. Se lhes
cabe muitas vezes a culpa repugnante de cúmplices por inação, é preciso notar
que esta inação, por mais grave e profunda que seja, não é completa. Imagine-se
simplesmente que seria da sociedade se esta gente se paganizasse inteiramente.
Esta hipótese mostra como, apesar de defeitos numerosos e deploráveis, ainda
não se pode afirmar que tal gente faltou completamente o seu dever.
Em segundo lugar, cumpre ainda reconhecer que,
enquanto uma alma conserva ainda a Fé, ainda está franqueada para ela a porta
da contrição. Arbusto partido, ela o é certamente. Mecha que ainda fumega, mas
que perdeu toda a sua luz, ela o será inegavelmente. Mas nesse arbusto ainda há
alguma coisa que vive, naquela mecha ainda há um pouco de calor. Esse calor e
essa vida, Cristo que é a Vida pode reacendê-los de um momento para outro, e
nós devemos ser, para esta tarefa, os auxiliares devotados do Mestre.
Evidentemente, a linha de conduta a seguir, para
com as tais pessoas não é simples de traçar. Quem lhes mostra a abjeção de seu
estado corre o risco de as desanimar. Quem lhes mostra apenas a beleza da
virtude corre o risco de perder inteiramente seu tempo. Não é na prudência
meramente humana, que se encontra solução para o problema. Dom Chautard aponta o único
caminho real: quando o apóstolo tem verdadeira vida interior, e Nosso Senhor se
faz por assim dizer tangível através daquela alma sobrenaturalizada,
tanto as palavras ardentes de uma condenação fulminante quanto as palavras
amorosas de compaixão podem surtir efeito. O essencial é que Nosso Senhor viva
realmente dentro de quem faz apostolado. Ele saberá inspirar acertadamente seu servidor, conforme a situação, a palavra
meiga que lembrará o perdão dado à Madalena contrita, ou a condenação
inexorável vibrada contra os fariseus impenitentes. Para cada alma, Nosso
Senhor tem seu caminho. Para cada pessoa realmente imbuída de vida
sobrenatural, Nosso Senhor tem seus dons. A uns, dá Ele o dom de infundir um
salutar temor. A outros, de infundir um ardente amor. Uns e outros são úteis.
Vivam de Deus e em Deus. Sirvam a Deus só por amor de Deus. E Nosso Senhor fará
o resto.
* * *
Não hesito em afirmar que também é grave o erro dos
que se iludem facilmente com certas manifestações de Fé.
Estamos em uma época de profundo confusionismo, em que os próprios limites entre o bem e o
mal, a verdade e o erro, o sobrenatural e a natureza, já não são percebidos em
toda a sua nitidez por certas almas embotadas na ignorância ou no mal. Conheço
objetivamente, e com a maior segurança, gente que apresenta, entre sua vida
profissional e suas práticas de piedade, uma contradição berrante. Quem for
orientar sua conduta para com tais pessoas tendo em exclusiva consideração a
aparência de piedade, erra lamentavelmente. Porque já se foi infelizmente o
tempo em que um pacto de Fé trazia em si mesmo a garantia não apenas de sua
sinceridade, mas da lógica e da coerência com que foi pronunciado.
A verdade é que vivemos em um tempo difícil, em que
o católico comum, simplesmente para não perder o estado de graça, é forçado não
raras vezes a atos de verdadeiro heroísmo. Os rapazes que me lerem
compreender-me-ão melhor do que ninguém. Ora, é muito e muito difícil que tal
heroísmo seja alimentado exclusivamente por uma ou outra comunhão, ou, o que é
incomensuravelmente mais tênue, com o simples parentesco com o piedosíssimo Sr.
X ou com a devotíssima Sra. Y. Deus tem filhos, não
tem genros nem noras. Ninguém é filho de Deus por afinidade. O heroísmo, que
várias vezes a prática simplesmente correta dos mandamentos impõe, deve ao
menos habitualmente alimentar-se em uma vida sobrenatural intensa, esclarecida,
baseada em uma instrução religiosa suficiente, e comprovada por todo um teor de
vida impecável. É, pois, dar provas de muita precipitação quem julga
sumariamente as coisas por suas aparências. Não é preciso, para tanto,
suspeitar os outros de má fé. Basta conhecer as dificuldades da vida de hoje em
dia para compreender claramente como é verdade o que estou dizendo.
* * *
Os otimistas devem compreender, pois, que é nociva
à Igreja sua posição de falsa tranqüilidade e de temerária confiança. As
aparências iludem. E se é verdade que há hoje muitas e muitas almas fervorosas,
muitas outras há que, sob a aparência de um fervor vivo, estão a pedir
ardentemente um apostolado sério e metódico. Quem julgar que a tarefa da Ação
Católica é supérflua, porque o povo brasileiro já é católico, erra
redondamente. Em primeiro lugar, porque se os 40 milhões de brasileiros
vivessem em estado de graça, ainda assim a Ação Católica seria de capital
importância. E em segundo lugar porque, sendo embora nosso povo realmente
católico, há uma tarefa de interiorização religiosa
profunda a ser levada a cabo.
Os pessimistas devem compreender que o Evangelho
não manda partir de uma vez o arbusto ainda vivo, nem extinguir a mecha que
ainda fumega. É preciso, antes de tudo, que o apostolado católico atinja a
massa dos fiéis, e os integre profundamente no espírito e na vida sobrenatural
da Santa Igreja. Não há apostolado mais meritório nem mais urgente do que este.
Se Nosso Senhor teve pena das multidões, porque esteve no deserto padecendo de
fome, que pena não devemos ter nós desta multidão que não padece fome
espiritual no deserto, mas em plena casa paterna, isto é, dentro do próprio
grêmio da Igreja!
Para uns como para outros, a conclusão deste artigo
deve ser um incitamento veementíssimo ao apostolado.
Um apostolado autêntico, dotado de todos os recursos sugeridos pela prudência
comum, mas sobretudo, antes de tudo, acima de tudo, estribado na oração, na
penitência, e na meditação e caracterizado pela disciplina e pela renúncia a
quaisquer veleidades e interesses mundanos.