A invasão da Bélgica, da Holanda e do Luxemburgo não poderia passar
sem um protesto vigoroso da consciência católica. A ausência absoluta de
qualquer circunstância que pudessem servir, ao menos, de pretexto para tal ato,
deu à agressão um caráter despudorado e brutal que tem de encontrar,
necessariamente, uma repercussão dolorosa em todas as consciências nas quais
ainda brilhe algum vago lampejo de Fé.
Nos cursos em que se estuda moral, costumam os
professores apresentar casos concretos em que são respeitados ou transgredidos
os preceitos morais, a fim de que os alunos compreendam exatamente a natureza e
o alcance da lei estudada. E, quanto mais incipiente o curso, tanto mais
berrantes os exemplos. Só os alunos mais adiantados são expostos a situações
complexas em que uma consciência, mesmo reta, pode com relativa facilidade
enganar-se. Aos principiantes, os exemplos fornecidos são de cores
necessariamente vivas, a fim de exigir deles um esforço intelectual menos
intenso. Ora, a invasão das três pequeninas e simpáticas monarquias é um desses
casos aberrantes que um professor daria a alguma turma de principiantes que se
encontrasse no início do curso. Não hesito em afirmar que nem sequer é
necessário ser católico para compreender o que de profundamente injusto a
agressão nazista encerra. Basta ser homem, ter inteligência e coração, para
repudiar com energia o gesto audacioso do governo hitlerista.
* * *
Há um pretexto que certamente o governo nazista
alegará. Através dos famosos comunicados do “Deustche
Nachrischten Bureau”, fará
ele constar que a França e a Inglaterra se preparavam para
invadir os três pequenos Estados a fim de colher de modo imprevisto as tropas
alemãs. E, se os arquivos oficiais de Haya, Bruxelas
e Luxemburgo caírem em suas mãos, forjará a propaganda do Reich novos “livros
brancos” em que procurará persuadir ao mundo de que branco é preto e preto é
branco.
Entretanto, é simplesmente ridículo imaginar que um
governo chefiado por um homem como o Sr. Chamberlain seria capaz de
desferir uma investida preventiva contra a Bélgica e a Holanda. O Sr. Chamberlain é a mais prosaica, a mais fraca das figuras
que tem aparecido no cenário político inglês. Desde que as tropas romanas
invadiram o território inglês, até nossos dias, não tem a história daquele país
memória de homem mais indeciso, mais tímido, mais vacilante do que esse verdadeiro
semeador de fracassos que se chama Neville Chamberlain. Os ingleses sorriam-se antigamente à
vista da cena famosa do João-sem-terra jogando xadrez
em seu palácio no momento exato em que os representantes da população
descontentes batiam às suas portas a fim de lhe arrebatar grande parte do
poder, limitando o poderio real. O que é a ingenuidade imprevidente de João-sem-terra em comparação com a cegueira do homem que
melhor do que ninguém personifica o fracasso de Munich,
o esmagamento da Polônia e a retirada da Noruega?
E é a este homem vacilante, tímido, a esse
indivíduo tão bem simbolizado pelo guarda-chuva que usa, que se atribuiria o
propósito sinistro de esmagar povos, trucidar nações, calcar aos pés leis
morais a fim de atingir com golpe mais certeiro e mais profundo o III Reich.
Ocupar a Holanda e a Bélgica para que? Para servirem de base mais segura para
jogarem boletins sobre o território adversário? Quem sabe se o Sr. Chamberlain pensava em criar um tática nova e, em lugar de
jogar boletins, pensava atualmente em bombardear a Alemanha com tulipas
holandesas? É a única explicação plausível que encontro para um possível
intento franco-inglês no sentido de atacar a Holanda
e a Bélgica. Todos conhecem as façanhas cênicas dos prestidigitadores que armam
um revólver com balas e depois, dando um tiro, fazem sair do cano um
passarinho. Quem sabe se dos canhões ingleses o Sr. Chamberlain
faria sair, agora, não mais bombas como todos esperavam, mas canários belgas e tulipas
sentimentais, colhidas às margens dos tranqüilos canais neerlandezes?
* * *
Uma consideração final não pode deixar de ser feita
por nós. É ela referente à Guiana Holandesa. Já temos tratado reiteradamente do assunto, em nosso
jornal. A Guiana Holandesa constitui, de per si, uma violação da doutrina de Monroe, pois que representa um trecho do solo americano
entregue ao domínio da potência não americana. Entretanto, as próprias
circunstâncias da Holanda não nos faria recear, de nenhum modo, que ela viesse
a se tornar um fator de perturbação na vida continental. Pelo contrário, se
essa colônia cair em mão nazistas, o que não se poderá recear?
Todos os brasileiros devem acompanhar o assunto com
interesse, e com entusiasmo patriótico, pois que provavelmente nossas autoridades
tratarão do caso. Se a Guiana se tornar alemã, a hora do pan-americanismo terá
soado.
Ao encerrar este artigo, não quero deixar de fazer
mais uma vez a distinção imprescindível entre nazistas e alemães.
Evidentemente, os nazistas não deixam de ser alemães. Entretanto, o que o
nazismo faz de mau deve-se atribuí-lo à ideologia e não ao povo alemão, que é
apto para o bem, como todos os povos, que são filhos de Deus. Todas as nossas
censuras aos desmandos do nazismo devem reverter sempre em atos de cordial
fraternidade em Nosso Senhor Jesus Cristo para que os alemães católicos saibam
reprovar energicamente tais horrores.