Na Europa, como já temos dito mil vezes, a “quinta
coluna” se compõe de elementos perfeitamente distintos. Em primeiro lugar, os
espiões nazistas, os agentes de propaganda alemã, os alemães residentes no
exterior, etc., etc. Em Segundo lugar, os nacionais de tendências totalitárias,
de coloração esquerdista ou direitista pouco importa, filiados à III
Internacional ou à Internacional das direitas, que já temos insistentemente
denunciado através deste hebdomadário.
Entre estes elementos, a fusão é íntima, e a
cooperação fraternal. Houve noruegueses que muito tempo antes da invasão já
preparavam a defecção, desarticulando o serviço de convocação de reservistas,
apoderando-se sub-repticiamente dos meios de
comunicação a fim de os paralisar no momento oportuno, introduzindo-se
insidiosamente nos postos de vigia e fiscalização a fim de evitar que a
aproximação do inimigo fosse anunciada a tempo, etc., etc. Ao par disto, havia
espiões alemães que traziam o governo do III Reich perfeitamente informado de
todos os recursos defensivos da Noruega, e que provavelmente chegavam a se insinuar nos meios
governamentais, onde produziam artificialmente uma atmosfera de falso otimismo
evidentemente propício às manobras da Alemanha. Não foi outra a natureza da penetração teuta na Holanda. Contaram os telegramas que os pára-quedistas já desciam
munidos de endereços dos membros da quinta coluna, aos quais se dirigiam
incontinente. Assim, comunistas, totalitários da direita, espiões, etc., tudo
isto fazia um único exército de conspiração e de fraude, que foi sem dúvida um
importantíssimo fator de êxito na ação invasora das forças nazistas.
Seria evidentemente ingrato procurar discernir, no
Brasil, os elementos capazes
de prestar, no momento oportuno, um igual serviço ao estrangeiro. Entretanto,
esta tarefa, por ser ingrata, não é impossível. O “Legionário” a entrega à
argúcia de cada um. As manobras da quinta coluna são fáceis de discernir. Basta
um pouco de tato. É o que, por exemplo, se depreendeu de uma conversa que
tiveram há dias um católico, um bobo e um “quinta coluna”. Ela mostra bem o que
os bobos e a quinta coluna podem fazer contra o Brasil.
* * *
Quem estava com a palavra era o católico, que
produzia uma longa dissertação.
É um erro grave, dizia ele, presumir que, no
momento atual, podem os brasileiros estar inteiramente desprevenidos quanto à
integridade territorial de sua Pátria. Quando outros motivos não existissem
para nos persuadir do contrário, bastariam as verbas cada vez maiores que o
Governo tem o propósito de consagrar à defesa nacional. Em uma época em que os
impostos não são poucos nem leves, seria realmente um crime aumentar
dispendiosamente a eficiência de nossa marinha de guerra e projetar a aplicação
de importantes quantias na ampliação de nossos recursos defensivos em terra,
pelo exclusivo gosto de atender aos caprichos da classe militar.
O “quinta coluna” teve um sorriso céptico. O
católico, então, insistiu: por outro lado se os Estados Unidos, cujos meios de defesa estão incomparavelmente mais
desenvolvidos do que os nossos, se sentem seriamente alarmados pela situação
internacional e cogitam de reforçar sua defesa, porque não admitir que o
litoral brasileiro, ainda tão desguarnecido, possa ser objeto de um golpe de
mão audacioso?
Um outro exemplo ainda pode ser tirado da conduta
do Canadá. Julgou esta próspera
e potente unidade da “Commonwealth” britânica dever
entrar em entendimento com os Estados Unidos a respeito de uma recíproca
colaboração em caso de ataque aéreo proveniente de outro continente, porque as
autoridades canadenses não se sentem suficientemente protegidas. Ora, os
recursos bélicos e pecuniários do Canadá não suportam comparação com os nossos.
* * *
Foi aí que mansamente, jeitosamente, o “quinta
coluna” retrucou: o fato de ser o ataque possível sob o ponto de vista
estratégico não se torna por isto provável. Para que tal ataque se verificasse
seria preciso que ocorressem circunstâncias diplomáticas determinadas, que a
ninguém é lícito prever.
Não concordo, disse o católico. Todo o mundo sente
a fragilidade do argumento. Aceitemo-lo, porém, para discutir. Na época de
surpresas fulminantes em que vivemos, nosso desejo deve ser de nos premunir
contra todos os ataques possíveis, e não apenas contra prováveis. De fato, o mais
provável dos ataques não é hoje em dia o do inimigo mais declarado, mas daquele
em relação ao qual se tem fronteiras mais desguarnecidas. É esta a dura e
brutal realidade em que nos lançou a política de força.
E ninguém ignora que é principalmente do lado do
litoral que nossa defesa preocupa os técnicos. Por que? Evidentemente porque este
ponto está desguarnecido. Basta tanto para considerar possível e bem possível
qualquer ataque por lá.
O “quinta coluna” aproximou-se então do católico e
lhe disse: E não seria interessante que alguma grande potência se atirasse
sobre os Estados Unidos e lhe atrapalhasse o poderio militar e econômico?
Inúmeros livros já têm sido escritos a respeito da
influência norte-americana no Brasil. Basta compulsar tais livros, e as dezenas
ou centenas de provas que eles compilam, para se ter a persuasão de que a intervenção
mais ou menos constante dos Estados Unidos na economia
brasileira constitui uma tirania insuportável para quem tenha verdadeiro brio
nacionalista. Não seria, pois, interessante assistir o desmoronamento do
colosso yankee e a conseqüente ruptura de fio que ele acionava até há pouco,
nos bastidores da política brasileira?
Durante todo este tempo, o bobo parecia absorto em
uma profunda e nervosa meditação. Só o “quinta coluna” falava, sorridente e
animado, fitando o católico bem dentro dos olhos a ver se surpreendia as
mínimas reações que suas palavras causariam. Pacientemente, fleugmaticamente,
continuou a argumentar nosso católico. De suas palavras, disse-lhe, retenho
sobretudo a primeira parte. Foi necessário escrever livros inteiros para
demonstrar a existência da influência norte-americana. Caso um determinado país
adquirisse, em lugar dos Estados Unidos, hegemonia na América, seria realmente
necessário escrever um livro para demonstrar que ele estendia seus cordéis
pelas duas Américas? Ou estes cordéis, tornados grossos como cordas de forca,
seriam ostensivamente mostrados à população como ameaça para quem quer que não
julgasse “providencial”, “sobre-humana”, “magnífica”, “incomparável”, a
generosidade com que se pretenderia estender até estas plagas os benefícios civilizadores e as maravilhosas formas de governo de outras
bandas?
O “quinta coluna”, sem se agastar, sem se
embaraçar, sem se mostrar fatigado, sorriu uma vez, quando o amigo bobo puxou
um destes suspiros, destes que chegam até os pés e, no dizer de Saint Simon, movem até os
calcanhares. Vocês estão discutindo asneiras, disse ele. A sorte do Brasil está
jogada. Qualquer das partes contendoras que ganhe a guerra assumirá a direção
do mundo inteiro. E, neste momento, ai dos fracos. E nós somos tão fracos...
acrescentou ele em voz de falsete, que foi morrendo desafinada e molemente nas
suas últimas sílabas. Depois de mais outro suspiro, este continuou: não há
resistência que adiante. Imagine uma esquadra possante, acompanhada de uma
legião de aviões trazendo pára-quedistas (quando falou em pára-quedistas, o
bobo tornou-se lívido!). O que poderemos fazer? Eu, por exemplo, o que farei?
Confesso que me entregarei para salvar a vida desta imensa população em que se
encontram crianças, velhos, doentes que, evidentemente, não convirá expor a
perigos inúteis.
O católico que durante o tempo inteiro conseguira
não se exacerbar com o “quinta coluna”, irritou-se com o bobo. Em primeiro
lugar, disse-lhe vivamente: não é verdade que nossa “sorte” esteja jogada. O
destino de um país não se resolve de modo inteiramente estúpido e arbitrário,
por uma “sorte” supersticiosa que não existe. Acima dos homens está a
Providência. E a História mostra que Deus já tem, mais de uma vez, ajudado as
nações mal defendidas que empenham em sua defesa todos os seus recursos, e
depositam n'Ele toda a sua confiança. David enfrentou o gigante Golias
armado apenas de uma pedra. Deus, depois disto, não deixou de ser Deus. Eterno,
imutável, Ele ainda tem para com os homens a mesma misericórdia. Mais ainda. Na
vigência do Novo Testamento, ao contrário do que acontecia no Antigo, está
inteiramente franqueado para os homens o manancial da graça. Por que não
teremos confiança ainda maior do que a de David? Finalmente, é possível que
você fuja e se esconda... para melhor salvar a vida dos doentes, dos pobres,
das velhas e das crianças. Graças a Deus, pertenço a outra escola, e considero
que é de armas na mão que estes devem ser defendidos, e não no fundo dos porões.
Finalmente, se no campo raso os soldados expõem a vida, por que não o farão
também os que ficam na retaguarda?
Não, meu amigo. Você é um bobo, mas desses bobos
malandros e sem vergonha, que sabe ter bastante malícia para esconder seu pavor
atrás de pretextos ardilosos.
O amigo bobo estava estarrecido. Uma descompostura?
E como reagir? Brigar? Doe, não é verdade? Ficar quieto? É melhor.
Enquanto isto, o “quinta coluna” sorria, de um
sorriso que queria dizer: ele tem toda a razão, todas as resistências são inúteis.
A esta altura, o bobo disse: não se zangue comigo,
quem me disse isto é fulano, e apontou para o “quinta coluna”. É com ele que
você deve brigar.
Sentindo-se em contradição consigo mesmo, o “quinta
coluna” deu uma gargalhada cínica. O católico o fitou com olhos penetrantes
como espadas, e o “quinta coluna” girou sobre os calcanhares, sem dizer uma
palavra. O bobo seguiu-o. A despeito do buliço da
rua, ouviu que dizia ao bobo: estes católicos são mesmo uns loucos. Que conto
da carochinha, esta história da Providência. E ainda pude surpreender o bobo,
que, embuçado em um longo capote, molemente, em voz desafinada, disse de modo
muito sonolento, muito inexpressivo, muito comprido: é meeeesmo!