É tal a confusão de espíritos que reina hoje no
mundo que não falta entre os leitores do “Legionário” quem julgue que somos
inimigos dos Aliados, pelo exclusivo fato de termos apontado os inumeráveis e
pesadíssimos erros diplomáticos dos políticos da França e filiados ao que a
imprensa já chama o “grupo de Munique”. De um representante nosso do interior -
dos mais ativos e diligentes que temos - recebemos até uma carta em que informa
que elementos do importante município onde ele trabalha estão organizando uma
campanha contra o “Legionário”, sob a alegação de desejar ele a derrota dos Aliados.
O fato, sem me causar pasmo, causa-me tristeza. Não
posso receber de sangue-frio a notícia de que o “Legionário” seja tido como
simpatizante das hostes neo-pagãs que se atiram sobre
a Europa hoje em dia, e que se suponha que estamos tão esquecidos de nosso
dever, que chegamos ao extremo de considerar com olhos malévolos os esforços
expedidos pela Primogênita da Igreja, em campo de batalha, para preservar a
civilização do tremendo flagelo do totalitarismo. Entretanto, como já disse, o
fato não me causa surpresa. Os fariseus acusaram Nosso Senhor de ter feito com
o demônio um pacto em virtude do qual se operavam seus milagres. O discípulo
não pode ser maior que o Mestre. Se Aquele que por sua Paixão e Morte venceu o
príncipe das trevas, foi acusado de aliado de satanás, não espanta que seus
discípulos sofram a mesma acusação. Por isto, atados ao mesmo pelourinho que o
Mestre, devem eles receber com satisfação estes insultos, que provam claramente
sua fidelidade à doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo. Se o espírito do mundo
lança contra eles, hoje em dia, os mesmos ultrajes com que perseguiu Nosso
Senhor, é porque sente com nitidez que eles continuam fiéis ao Redentor.
* * *
O “Legionário” jamais manifestou o menor desejo de
que os Aliados perdessem a guerra. E se algum cego quisesse disso certificar-se
bastaria um ligeiro estágio em nosso arquivo, onde, sendo-lhe [franqueadas]
todas as cartas que recebemos quer de italianos, quer de alemães, este ponto
ficasse inteiramente elucidado.
Na realidade, o “Legionário” fez aos governos
francês e inglês as mais graves e pesadas censuras. Com longa antecedência,
denunciou ele os erros diplomáticos que desde a capitulação da Áustria até nossos dias,
passando por Munique, fizeram da diplomacia aliada a maior fábrica de
catástrofes de que haja memória: imediatismo,
confiança cega, ausência absoluta de uniformidade de conduta, tudo isto acabou
por custar tão caro à França e a Inglaterra, que a realidade é esta que temos
hoje diante dos olhos. Seria amargo demais recapitular o vexame sem nome de
Munique, o esfacelamento impune da Polônia, o abandono dramático da Noruega e tantos outros
fatos. Um só fato nos basta: é que os alemães infelizmente estão em pleno
coração da França.
Em outros termos, um exército indizivelmente
valente e aguerrido como o francês foi vencido até aqui, e se continuarmos a
esperar que o curso dos acontecimentos se altere em seu favor, força é
confessar que nenhum francês esperava que tão rapidamente os alemães
ingressassem em seu território.
Mostrou o “Legionário”, exuberantemente, que estes
erros se originavam exatamente de uma “clique”
de políticos que no além Mancha se haviam apossado do governo e imprimiam às
suas atividades uma orientação que não poderia ter sido mais benéfica para
Hitler nem mais catastrófica para a França e a Inglaterra, do que se Chamberlain e Daladier fossem da
quinta coluna. Em outros termos, elementos da quinta coluna não poderiam ter
agido de outro modo. Para cúmulo da infelicidade, à testa das tropas francesas
também se encontrou um general como Gamelin, que por suas “distrações”, “infelizes coincidências”,
etc., proporcionou a Hitler vantagens maiores do que este jamais recebeu das
atividades de Goering ou de Goebbels.
E, mais uma vez repetimos, o resultado aí está.
* * *
Seria infantil imaginar-se que, fazendo tal
afirmação, estamos ultrajando os franceses e ingleses. Sem falar na Inglaterra,
basta-me afirmar que um indivíduo que pusesse em dúvida o patriotismo e a
coragem do povo francês, longe de ultrajar a França, estaria fazendo um ultraje
a si próprio, pois que demonstraria com isso ou uma suprema insinceridade, ou a
mais vexatória das ignorâncias em relação à História.
O povo francês, tanto quanto o povo inglês, não tem
a menor culpa pelos inomináveis erros dos que estavam à sua testa. Denunciar
tais erros não era injuriar o povo, mas concorrer eficazmente para esclarecer
os espíritos e conseguir finalmente a vitória.
Não pensaram de outra forma Weygand e Pétain inexplicavelmente
relegados para postos onde não poderiam prestar a plenitude de seu concurso,
esses dois grandes generais, vendo a Pátria em perigo, acorreram
pressurosamente, e começaram por remover Gamelin do
supremo comando. Já anteriormente, Daladier fora excluído, pelo
Parlamento, da direção do governo. E hoje o telégrafo noticiou que o mesmo Daladier acaba de ser eliminado da pasta do Exterior. Na
Inglaterra, Chamberlain foi “varrido” pela
desconfiança parlamentar e no momento em que escrevo os telegramas procedentes
de Londres informam que se cogita de depurar o Governo inglês de todos os
“homens de Munique”.
Quando o parlamento francês, dando implicitamente
razão aos que pensavam como o “Legionário”, demitiu Daladier
da Presidência do Conselho, quando, dentro da mesma ordem de idéias, Gamelin foi expurgado pelos bravos generais Pétain e Weygand, quando
finalmente o Sr. Reynaud se libertou da perigosíssima colaboração dos Srs. Daladier
e De Monzie, últimos homens de Munique que restavam no Gabinete,
porventura mostraram-se eles com isto germanófilos?
Porventura injuriaram com isto a França? Ou, pelo contrário, libertando a
França da sinistra “troupe”
responsável pelo fracasso de Munique, eles prestaram à sua pátria o mais
insigne dos benefícios? E, neste caso, por que criticar o “Legionário” como germanófilo?
* * *
Se o “Legionário” é ardentemente anti-nazista, se deseja com todas as suas forças a vitória
dos aliados, há uma coisa, entretanto, que ele se recusa obstinadamente a ser: germanófobo. Somos, se nos permitirem o neologismo, “nazistófobos”. E entendemos que Hitler é o inimigo n.º 1
da Alemanha, porque o país inimigo de um povo não é quem lhe ataca as fronteiras,
mas quem lhe rouba a Fé. Não podemos, pois, desejar a vitória de Hitler. Mas
daí a odiar o povo alemão como tal, há um verdadeiro abismo. E este abismo, nós
não o queremos de nenhum modo transpor. Nos alemães católicos, vemos irmãos dilectíssimos em Nosso Senhor Jesus Cristo. Nos não
católicos, vemos almas a serem convertidas. Não podemos imaginar nem admitir
que, do desejo do fracasso do nazismo, se deduza o desejo de eliminar o povo
alemão, ou de lhe infringir os mais cruéis sofrimentos. Lembrem-se todos de que
o próprio Lloyd George confessou há dias
atrás que se Hitler subiu ao poder na Alemanha, deve-se o fato à intransigência
com que os Aliados trataram seu antecessor imediato, o Sr. Bruning, chefe do Partido Católico. Não resta dúvida de que o
nazismo deve cair. Mas seria um erro gravíssimo imaginar que só a Alemanha é
responsável pelo nazismo.
* * *
Outro erro seria imaginar que não vemos também
falhas e defeitos do lado francês. Mas estas falhas e estes defeitos não são
graves nem tão irremediáveis - qual o povo, hoje em dia, que não esteja cheio
de umas e outros - que nos esqueçamos da missão providencial da França. Em
plena perseguição religiosa na França, eis o que aos Bispos Franceses escreveu
Pio X, são palavras que o
virtuoso Pontífice julgou não dever omitir quando a França estava em plena
perseguição religiosa. Não há motivo para que a omitamos hoje, quando tão
consideravelmente melhoraram as relações entre a Igreja e o Governo francês:
“A França foi chamada por nosso Venerável
Predecessor, como vós o lembrastes, a nobilíssima nação missionária, generosa e
cavalheiresca. Para sua maior glória, acrescentarei o que escrevia ao Rei São
Luiz o Papa Gregório IX: ‘Deus, ao qual obedecem as legiões celestes, estabeleceu
neste mundo diversos reinos, segundo a diversidade dos idiomas e dos climas, e
conferiu a grande número de governos missões especiais para a realização de
seus desígnios. E assim como outrora ele preferiu a tribo de Judá à de todos os outros filhos de Jacob,
assim também ele gratificou com bênçãos especiais a França, de preferência a
todas as outras nações, para a defesa da liberdade religiosa. Por este motivo,
continua o Pontífice, a França é o reino de Deus e os inimigos da França o são
de Jesus Cristo. Por este motivo, Deus ama a França porque ama a sua Igreja,
que transpõe os séculos e recruta legiões para a eternidade. Deus ama a França
que nenhum esforço pode jamais destacar inteiramente da causa de Deus. Deus ama
a França, na qual em tempo algum a Fé perdeu o vigor, e onde reis e soldados
jamais hesitaram em enfrentar perigos e derramar seu sangue pela conservação da
Fé e da liberdade religiosa”.