Escrevo na sexta-feira, ainda sob a impressão da
queda de Paris, de que há pouco me chegou notícia.
É cedo ainda para prognosticar o futuro da grande
luta que continua a ser travada por detrás da capital. Mas o espírito se volta
insensivelmente para este problema que está no âmago de todas as questões do
momento. É, pois, sobre ele que preciso escrever. Talvez, no domingo, quando
estiver em circulação o “Legionário”, a realidade já tenha dado respostas a
minhas conjecturas. Pouco importa. Publicá-las-ei do mesmo modo.
* * *
Evidentemente, o ambiente é trágico. Três notas
agudas dão aspectos de catástrofe ao quadro que contemplamos. Em primeiro
lugar, o segundo apelo de Reynaud aos Estados Unidos. Talvez fosse melhor para a França que este apelo não
fosse dado à publicidade antes de vir a resposta da Casa Branca. Esta resposta
veio, dizendo que, no momento, os Estados Unidos não podem fazer mais do que já
estão fazendo, e como foi publicado o apelo, também foi necessário publicar a
declaração yankee. A decepção nos
arraiais é fácil de se imaginar.
Em segundo lugar, Paris caiu. Preferiu se entregar
sem combate a fim de não sacrificar a cidade maravilhosa.
Todos terão sentido um verdadeiro alivio ao pensar
que as inestimáveis obras de arte ali localizadas não serão destruídas, e que
foi poupada a existência de inumeráveis criaturas residentes na imensa
metrópole. Mas para que este sacrifício produza tal resultado é preciso que os
aliados renunciassem a contra-atacar as tropas alemãs ali aquarteladas.
Militarmente será isto possível?
Caso, de futuro, fosse possível pensar em expulsar dali os alemães, entregariam
eles também a cidade sem combater? E se resistissem dentro de Paris, como
poupar a capital francesa?
Finalmente, o General Franco declarou a não-beligerância da Espanha. Não se confunda não-beligerância com neutralidade. A este respeito um
jornal espanhol - nota-se que na Espanha toda a imprensa é oficiosa - já deu
esclarecimentos, iniludivelmente precisos: a não-beligerância foi decretada em favor da Itália para que
a Espanha pague o auxílio por esta prestado na debelação do comunismo; não-beligerância é uma neutralidade apenas militar, que
significa que todos os recursos econômicos e diplomáticos do país serão
mobilizados em favor da Itália fascista e implicitamente da
Alemanha nazista. E caso a guerra se aproxime de Gibraltar, acrescenta o jornal, a Espanha poderá entrar na guerra
do lado da Itália. Assim, pois, o horizonte dificilmente poderia ser mais
sombrio.
A isto acresce que os “homens de Munich” não desanimaram. Um pequeno telegrama publicado
pela “Folha da Noite” de ontem anuncia que Daladier se está esforçando
por uma “paz em separado”, que venha colocar a França em estado de
neutralidade, enquanto a ofensiva alemã prosseguiria contra a Inglaterra. Nada
vi nos jornais desta manhã que confirme a notícia. Mas estou muito longe de
considerar improvável que o Sr. Hitler ofereça logo uma
nova paz que venha a abranger somente a França. Se tal se der, será necessariamente uma paz muito vantajosa aos franceses sob o ponto de vista
imediato. O futuro dirá então que o Sr. Hitler realiza implacavelmente seus
planos, e que o seu projeto de separar a França da Inglaterra, anunciado em “Mein Kampf”, não
terá sido em vão. Mas o Sr. Hitler acrescenta, em seu livro, que seu real
inimigo é a França e não Albion...
* * *
No entanto seria uma loucura esquecer que a França
ainda resiste, neste momento, e que é
grande a confiança em sua
vitória. Com uma coragem digna das melhores tradições francesas, o exército
luta palmo a palmo, manifestando tanto desprendimento da vida, tanto amor à
Pátria, um tal vigor de ânimo, que o mundo inteiro está pasmo e que se pode
afirmar que a França está se excedendo a si própria.
À testa deste exército, em que cada homem tem sido
um herói, estão dois chefes que sintetizam todo o espírito francês: Pétain e Weygand. Difícil será que qualquer destes dê ao mundo uma
surpresa de gênero “quisllinguiano”. Resistir é a
palavra de ordem. E impossível não é que, enquanto haja um só oficial e um só
soldado, a ordem continue a ser dada por um e obedecida pelo outro.
Assim, pois, neste quadro, que seria suficiente
para fazer desanimar os mais fortes e para desarmar os mais corajosos, a França
continua até os dias de hoje. Resistir atrás de Paris, resistir na província,
resistir nas colônias, resistir até nas pequenas nesgas de território francês
existentes na América, mas incontestavelmente resistir é a palavra de ordem dada ontem por Reynaud.
Diante deste quadro tremendo, qual será o desfecho?
Para nós católicos brasileiros, a palavra de ordem
é simplesmente rezar. Rezar, rezar humildemente, confiantemente,
insistentemente, para que Deus Nosso Senhor faça prosseguir de tal modo os acontecimentos
que daí resulte a exaltação da Santa Igreja triunfante sobre a heresia pagã, a
integridade do território brasileiro e o bem do mundo inteiro.