Como é doloroso para um jornalista católico
verificar que suas previsões mesmo as mais sombrias tiveram nos fatos uma completa
e inexorável confirmação! É essa dor que sente de modo amargo o “Legionário” ao
registar as notícias publicadas esta semana na imprensa diária acerca da nazificação da França.
A nazificação da França! Estas palavras “hurlent de se trouver ensemble” [urram de
se encontrarem juntas], e nossa pena treme de terror ante a enormidade da
expressão que escreveu. Nazificação significa paganização, e a nazificação da
França será, pois, a paganização da primogênita da
igreja. Nazificação significa proletarização,
e a nazificação da França significa, pois, a proletarização do país em que as belas maneiras, a
distinção, o “air de cour”,
atingiram a expressão mais alta e mais genuína. É a pátria do minueto que se
pretende d’ora em
diante fazer marchar com o “passo de ganso”. É a literatura francesa,
fina, leve, cristalina, nobre, que se pretende aviltar com a introdução do
calor nazista, pesado, insolente, gotejando barbárie. Não há um só espírito bem
formado que não considere esse empreendimento uma abominação. E é esta
abominação que se pretende perpetrar!
* * *
Nesse últimos anos, o “Legionário” tem sustentado
uma luta ingrata e intensa no sentido de desmascarar a política dos “homens de Munich”. Daladier na França e Chamberlain na Inglaterra,
cercados ambos de uma camarilha de políticos docilmente postos às suas ordens
outra coisa não fizeram senão prejudicar os respectivos países em benefício dos
nazistas. A propaganda nazista sempre apontou os governos francês e inglês como
agentes do judaísmo e da maçonaria, e por isso mesmo como forças bolchevisantes
irredutivelmente adversárias do nazismo. O pacto Ribbentrop-Molotoff provou, entretanto, que a hostilidade teuto-russa não passava de um “bluff”. Isto posto, como definir
a posição dos governos da França e Inglaterra? Se obedeciam à III Internacional
e esta era ligada ao eixo Roma-Berlim, forçosamente teriam eles de ser simpáticos à Alemanha.
Infelizmente provou-o de modo
exuberante o próprio curso dos fatos. A inominável vergonha de Munich; o colapso polonês verificado sem que a França e a
Inglaterra agredissem a Alemanha; o desabamento da Noruega e Dinamarca que os
aliados “não puderam” prever, a oprobriosa
imobilidade a que reduziram por ordem superior as heróicas forças francesas da Maginot; as “curiosas coincidências” que determinaram a
invasão da França, e a tragédia desse armistício tão duramente vergastado pelos
franceses do mundo inteiro, que telegrafaram a Pétain lançando-lhe em
face o ato que praticara, tudo isso prova que ou os homens de Munich são as criaturas as mais ineptas do mundo, ou
obedeceram a um plano diabólico que visa a implantação do paganismo no mundo
inteiro.
* * *
Quando o “Legionário” afirmava estas coisas, os
franceses e ingleses que o liam acusavam de inimigo dos aliados. Aos franceses,
se necessário fosse, responderíamos hoje que neste caso também são inimigos de
seu país as colunas francesas que tão severamente telegrafaram a Pétain dos mais variados pontos do mundo, desde Tóquio até
o Cairo, Canadá e Manilha.
Aos ingleses, perguntamos hoje se são inimigos de
seu país os cidadãos britânicos cujo descontentamento o telegrama abaixo
descreve:
“LONDRES, 2 (United Press) O descontentamento popular latente contra os membros
do governo e demais funcionários partidários da política de apaziguamento
ganhou hoje um novo impulso com a resolução aprovada por unanimidade pela
conferencia anual da União Nacional dos ferroviários, na qual se solicita a
remoção dos elementos governamentais conhecidos por sua tendência
contemporizadora.
A resolução referida, que foi proposta pelo
delegado de Edimburgo, Sr. A. H. Paton, será entregue ao rei Jorge VI, ao primeiro ministro, Sr. Churchill, e ao titular da pasta da Guerra, major Anthony Eden, tendo-se, além disso, decidido destacar uma delegação
para que visite o chefe do governo, com o fim de “obter-se uma resposta
direta”.
TEXTO DA RESOLUÇÃO
O texto da resolução proposta e aprovada diz o
seguinte:
“Solicitamos respeitosa, porém imperativamente e
como questão de confiança pública e de moralidade nacional, que os membros do
gabinete e outras pessoas que desempenham altas funções e que estiverem ligadas
à política de apaziguamento do governo anterior, sejam removidos imediatamente
de seus cargos, e que se preencham suas vagas com homens, nos quais, por seus
antecedentes, se possa depositar confiança”.
O ALCANCE DA RESOLUÇÃO
Ao explicar o alcance da resolução, o Sr. Paton declara:
“O que receio hoje mais do que nunca não é o
poderio da força aérea alemã e nem o do seu exército mecanizado, mas sim dos
elementos suspeitos que continuam ocupando posições de relevo no poder.
Não desejo mencionar nomes, nem quero que os integrantes
dessa camarilha sejam submetidos a nenhuma classe de torturas; o que entretanto
desejo é que os coloquemos em uma posição na qual não possam atraiçoar o país”.
Simultaneamente, observam-se novos sistemas de
apoio do trabalhismo oficial contra as tendências
apaziguadoras que o Sr. Chamberlain orientara,
figurando nesse movimento popular importantes órgãos da imprensa diária e
parlamentares, militares e outras pessoas que, anteriormente, militaram na oposição.
NOVA MOÇÃO APROVADA
A noite passada, a conferência da União Nacional de
Operários Mineiros Escoceses, de Glasgow, aprovou, por 61 votos contra 45, outra moção, pela qual
se pleiteia também o afastamento de todos os elementos vinculados à política
seguida pelo Sr. Chamberlain quando estava à frente
do governo.
A conferência solicitou que o Congresso das Uniões
Operárias da Escócia celebrasse uma reunião especial de emergência a fim de
discutir a situação bélica, o que inevitavelmente provocará uma análise da conduta
observada no passado pelos poderes públicos dos preparativos feitos para
campanha e da situação ligada à guerra em si.
Não é preciso dizer mais. No momento em que a
Inglaterra se apressa a enfrentar a maior crise de sua História, é um crime
manter no governo elementos “moderados” em relação ao inimigo. Tem toda a razão
os autores da moção: é “uma questão de confiança pública e de moralidade
nacional” expulsar do poder tais figuras. Infelizmente, porém, tal expulsão não
se dará.
* * *
Penetremos, porém, mais a fundo neste oceano de
brumas, de opróbrios e de desgraças.
Os telegramas desta semana informam que a “França”
(esta palavra vai entre aspas porque não é esta a verdadeira França) remodelou
suas instituições, segundo um projeto de lei elaborado no dia imediato ao do
armistício. Assim, enquanto todas as atenções do governo francês deveriam estar
concentradas nos múltiplos e complexos problemas relacionados com o armistício,
era outro o seu centro de atração: o ajuste das instituições francesas segundo
a moda de Berlim.
Infelizmente, o Parlamento aprovou esta reforma. E
teremos para a França uma constituição,
ao mesmo tempo autoritária e proletária, baseada em um partido único de feitio
totalmente nazista, que nazificará a França, e terá à
testa do governo todos os “homens de Munich”,
inclusive Laval e Flandin e De La Roque.
É possível que, de início, este governo, seguindo
as pegadas do fascismo, se mostre simpático à Igreja. O futuro dirá o valor da
sinceridade desse gesto.
Finalmente, cumpre acrescentar que, se os franceses
aceitarem tal forma de governo, as condições de paz serão extraordinariamente
benignas.
Mas em compensação a França não passará de uma
Boêmia em ponto grande, governada por detrás (?) das cortinas por um “gauleiter” nazista.
* * *
Ao mesmo tempo que se processa um trabalho jurídico
como seja a criação de novas instituições, elabora-se de modo mais ou menos
disfarçado um trabalho de desbastamento do campo
político. Por isto, o Parlamento francês já discutiu uma moção que
provavelmente será aprovada, e habilitará o Sr. Pétain
a perseguir todos os políticos que lançaram a França na guerra. Em outros
termos os “homens de Munich”, ou seja a quinta
coluna, procurarão eliminar todos os que, na França, se opuseram a suas
manobras. E, para tanto, chegarão ao extremo verdadeiramente inconcebível de os
responsabilizar pela derrota.
Assim, pois, os autores da derrota condenarão os
que a ela se opuseram, como se fossem estes os verdadeiros culpados!
Evidentemente, o trabalho será feito com
inteligência, e é possível que “pour épater les bourgeois” se
procure processar também os Srs. Daladier, Reynaud e Gamelin. Mas como estes
fazem parte do grupo de Munich, ou fugirão a tempo
iludindo a vigilância das autoridades policiais, ou serão absolvidos. É muito
difícil - se bem que possível - que algum
deles seja efetivamente condenado e encarcerado.
Não podemos
concluir esta tristíssima e longuíssima série de comentários, sem uma observação
referente à remilitarização da França.
Como o público não ignora, verificado o ataque
militar à base de Oran, a Itália tomou a iniciativa
de permitir aos franceses de Pétain que se rearmassem
para mais eficientemente lutar contra a Inglaterra. Em outros termos, o governo italiano confia tão
absolutamente em Pétain, que não lhe passa pela cabeça que os totalitários
franceses poderão algum dia voltar estas armas contra outrem que não sua aliada
da véspera, a Grã-Bretanha. Para que comentar este fato?
* * *
Mas as coisas não
pararão aí, e a nazificação da França não se consumará plenamente. Dia virá em
que Deus levantará sobre os adversários de sua Igreja na França e na Alemanha o
peso de seu braço vingador.
Nesse dia, uma era nova
raiará sobre o mundo, finalmente apaziguado no aprisco de um só Pastor. Nesse
dia, os povos exultarão e o mundo inteiro ouvirá a repetição da promessa
evangélica: paz na terra aos homens de boa vontade. E não adianta a nossos
adversários que se riam destas previsões.
O riso da coruja não
consegue retardar a aurora que se levanta.