Continuam a aparecer nos noticiários telegráficos,
com certa insistência, informações referentes a um possível desmembramento da
França, que implicaria na
constituição de um Estado bretão autônomo. Preparando a opinião pública para
receber sem demasiada surpresa uma transformação tão inesperada do mapa
político europeu, certas agências telegráficas tem trazido notícias
pormenorizadas sobre o movimento separatista que, de há alguns anos ao menos
para cá, lavra na Bretanha, e por este processo tem gerado a impressão de que
realmente a Bretanha era uma “minoria” - sempre as minorias, como na Checoslováquia,
na Polônia, etc. - sedenta de independência.
A tática nazista consiste em acumular questões
desta ordem, no mundo inteiro. Se delas precisar utilizar-se em dado momento a
diplomacia do III Reich, os agentes da 5a coluna saberão envenenar a
opinião pública, e explorar habilmente os vários aspectos que elas
apresentarem. Se, pelo contrário, o curso dos acontecimentos tornar supérfluo
ou embaraçoso o prosseguimento de qualquer destas questões, ela morrerá por si.
Está nesta ordem de coisas o problema bretão.
Poderá ter, de um momento para outro, a maior atualidade, como poderá morrer
insensivelmente, caso o retirem do cartaz os agentes da 5a coluna.
* * *
Isto posto, o “Legionário” não pode deixar de fazer
a este respeito algumas considerações.
Seria impossível analisar a fundo neste artigo, o
problema, mostrando o grave erro cometido pela Revolução Francesa ao impor às
varias regiões de que se compunha o reino francês, uma unidade exagerada, que
em lugar de reunir em uma ligação harmoniosa e admirável variedade das muitas
províncias francesas, todas elas dotadas de tanta e tão bela “couleur locale”,
pretendeu abolir as províncias, substituindo-se por mil pequenos departamentos
rigidamente subordinados ao governo de Paris.
Entre as várias províncias que foram assim como que
dissolvidas e substituídas por uma verdadeira via-láctea de pequenos
departamentos, figurava a Bretanha, precisamente uma das que, por mil razões
etnológicas e históricas, bem como pela mentalidade e pelo gênio artístico
típico de seus filhos, mais fortemente se delineava dentro do conjunto da velha
monarquia francesa anterior à Revolução.
Monarquista e católica, a Bretanha muito tardou a
se adaptar à república leiga que os dirigentes de Paris lhe queriam impor.
Dotada de feitio de espírito muito próprio e muito regional, a Bretanha relutou
por tempo não pequeno à centralização espiritual e política que o governo
francês queria lhe impor. Mas tão vigoroso e tão profundo era o apego dos bretões à pátria comum francesa, que a Bretanha jamais
tentou, quer durante a “chouannerie”,
quer durante as guerras de Napoleão I e de Napoleão III qualquer movimento de separação da França. Pelo
contrário, seus filhos foram sempre magníficos soldados do exercito francês,
que mostraram de que valor era para a França o heroísmo incomparável do soldado
bretão.
Bastará dizer tanto para que se compreenda que, se
a Bretanha conheceu algum dia um movimento ideológico separatista, foi de
proporções tão exíguas, que não constituiu força ponderável na vida política da
França. E a prova disto está em que certamente 99% dos leitores brasileiros do
“Legionário” jamais ouviram falar de separatismo bretão.
Se o movimento separatista tivesse tido, na
Bretanha, qualquer repercussão digna de nota, como explicar uma tão universal
ignorância a seu respeito?
Assim, pois, ao menos aos nossos olhos de
brasileiros, o separatismo bretão jamais existiu, e se nos parece admissível
que ele tenha chamado a atenção de algum minucioso sociólogo francês capaz de
perscrutar os mais leves e subtis veios de opinião pública.
* * *
Quererá o “Legionário” significar com isto que é
impossível que as manobras políticas atuais venham a redundar na separação da
Bretanha?
Não. Até aqui, tratamos do problema sob seu
exclusivo aspecto temporal. Mas ele também oferece um aspecto espiritual de
relevante importância que é, em última análise, o móvel que nos leva a lhe
consagrar tanta atenção.
Qualquer observador político que não seja absolutamente
superficial, compreenderá facilmente o interesse da Igreja em que os povos
católicos constituam, no momento atual, blocos coesos e poderosos, capazes de
oferecer aos vagalhões da impiedade moderna uma resistência eficaz. O
desmembramento da França, da Espanha, da Bélgica, da Polônia, etc.,
representaria para o Catolicismo um golpe quase tão cruel quanto a anexação da
Áustria à Alemanha. Não é só conveniente que os povos católicos conservem sua
independência política em relação a governos anticatólicos - seria este o caso da Áustria
perante o nazismo - mas ainda se tornar altamente desejável que os povos
católicos independentes evitem, tanto quanto possível, de se esfarelar.
Sem nenhum prurido de sentimentalismo, seria
oportuno lembrar a este propósito a grande missão unificadora de Joana d'Arc, que teve, ao menos em parte, este sentido profundo. Se a
Inglaterra não tivesse sido confinada às Ilhas pela coragem aguerrida da Santa,
que risco teria constituído para as almas a ação do protestantismo em
território francês?
* * *
Ora, hoje mais do que nunca a integridade
territorial da França convém à Igreja - “convém”, acentuamos, porém não é
condição essencial de existência para a Igreja, que, ainda que perca a França
ou a Europa inteira, não deixará por isto de existir, graças à indefectível
promessa de Nosso Senhor.
Seria fácil imaginar a influência do protestantismo
e do neo-paganismo na Europa latina, com a França
desmembrada! E esta influência os católicos a devem evitar absolutamente.
Assim, pois, um poderoso interesse da Igreja existe em que o desmembramento
francês não se opere. Dito isto, está demonstrado que este desmembramento
convém implicitamente aos inimigos da Igreja, por uma razão igualmente
poderosa. E, assim, esses inimigos, que estão no momento com um extensíssimo poder político nas mãos, poderão se sentir
interessados em fomentar esta questão que, como dissemos, é aliás inteiramente
artificial.
* * *
Existirá outra razão? Sem dúvida. Lembro-me ter
lido, há muitos anos atrás em 1930, uma
revista, “Le Franc-Catolique”,
publicada em 1914 ou 1915, que, analisando a situação alemã, fazia esta
pergunta que me pareceu perfeitamente estulta: “Ainda haverá no povo alemão
quem acredite nos velhos deuses germânicos? Não haverá na Alemanha forças
subterrâneas que trabalhem por uma ressurreição dos velhos cultos idolátricos?”.
Confesso, para minha maior confusão, que o simples
enunciado do problema me desagradou profundamente. Pareceu-me ele tão estúpido,
quanto este outro: “Não haverá no mundo contemporâneo forças ocultas
trabalhando para que a humanidade comece a crer no chapelinho
vermelho, e em outros contos de fadas?” Em suma, duvidei do equilíbrio mental
do autor do artigo.
Como, porém, não tinha o que ler no momento, li o
artigo. E confesso que a análise que seu autor fez da realidade objetiva estava
tão bem traçada, que, apesar de minha péssima impressão inicial, considerei
menos imbecil o autor. É preciso insistir mais uma vez em que o artigo foi
escrito em 1914 ou 1915, tempo em que Hitler era um simples
soldado raso do exército alemão, e de nazismo ninguém falava. Veio depois do
artigo a derrota alemã, e ainda depois desta surgiu o nazismo. Pois o que fez o nazismo?
Confirmando a argumentação do já tão longínquo
artigo da revista “Le Franc-Catolique”,
ergueu-se como um chacal contra a Santa Igreja de Deus, e empenhou seus
melhores esforços em restaurar os velhos cultos pagãos da Alemanha anterior ao
apostolado de São Bonifácio. Em suma, o artigo do “Franc-Catolique”
tinha razão.
* * *
Houve, pois, um tempo em que foi ridículo falar-se
na “ressurreição” dos deuses alemães. E, entretanto, eles “ressurgiram”. Ora, é
inegável que os velhos deuses celtas e bretões jamais
morreram na imaginação popular de certas zonas da Bretanha, da Escócia e do País de Gales. Este fato é de domínio público. Penso que muitos dos
leitores do “Legionário” já viram, em revistas brasileiras ou estrangeiras,
fotografias de cerimônias célticas druídicas realizadas em qualquer daquelas regiões. Trata-se
de coisas tão supremamente obsoletas, que se julgaria não haver ali senão uma
mera cerimônia tradicional despida de qualquer conteúdo ideológico. É possível
que em muitos casos isso se dê. Não, porém, em todos. Lembro-me perfeitamente
de ter lido, em uma biografia de Augustin Cochin, a transcrição de uma carta em que este contava haver
observado que os druidas, em certas regiões por ele percorridas, iam durante a
noite fazer cerimônias pagãs com crianças recém-nascidas, e isto muito às ocultas.
Os camponeses, em seguida levavam a criança de manhã ao Pároco, para ser
batizada. O Pároco, evidentemente, não era pelos pais informado dos manejos
druidas.
Muito curioso é notar que os druidas eram quase
sempre socialistas militantes.
* * *
Assim, pois, há uma ou outra brasa do antigo
paganismo ainda viva nas populações célticas.
Soprando sobre ela a propaganda totalitária, não veremos amanhã uma
“ressurreição” druídica, de inspiração totalitária,
tentar levar a cabo, na Bretanha, na Irlanda, na Escócia e no País de Gales uma campanha à moda do
paganismo do Sr. Rosemberg? Não seria isto para o nazismo uma maravilha?
Dirão muitos leitores que é tão estúpido pensar
nisto, que a hipótese nem sequer merece análise. Não concordo. Também seria
enormemente estúpido pensar, há 15 anos atrás, na restauração do velho
paganismo alemão. Entretanto a realidade não está aí? O que prova isto senão
que o mundo contemporâneo, rompendo com a Santa Igreja, chegou a um tal estado
de aviltamento moral e intelectual, que se mostra apto a dar crédito a ídolos,
tal e qual as populações do interior da África, ou os pobres índios de nosso
sertão? Aliás, uma nota publicada pelo “Diário de São Paulo” ultimamente dá-nos
a informação de que existe um movimento organizado em sentido do pan-céltico, e que visa fundar uma federação céltica abrangendo os povos bretães existentes na Bretanha
francesa, no Pais de Gales, no Cornwal, na Escócia e
na Irlanda. Esta federação não seria o caldo de cultura ideal para uma
propaganda neo-pagã?
* * *
Não se trata aqui de uma previsão certa. É uma
hipótese. Mas uma hipótese que, caso aos nazistas convenha convertê-la em
realidade, nada tem de absurdo.
Muitos dos leitores do “Legionário” pensarão talvez
desta folha o que, em meu primeiro momento de espanto, pensei do artigo do “Franc-Catolique” a que me referi. Sorrirão. Tratarão,
talvez, de sonhador o autor destas linhas. Mas assim como houve um articulista
francês de 1914 que teve a coragem de escrever a verdade, e abrir os olhos, não
só meus, mas ainda de muitos outros, assim também aqui ficam registradas
corajosamente estas informações.
Queira Deus que, redundando isto em maior glória
para a Santa Igreja, esta hipótese não se realize...