Os Católicos não podem deixar de ver com a mais
séria apreensão o movimento que, em certas democracias hispano-americanas, se
delineia em favor de um reatamento de relações comerciais com a Rússia. O objetivo desta campanha está tão em desacordo com os
princípios católicos que constituem o substrato de nossa civilização, que não
pode deixar de desagradar todos os corações bem formados.
Examinemos detidamente o assunto.
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As relações internacionais podem ter duas razões
distintas: a necessidade e a cordialidade. A História tem registrado, mais de
uma vez, o caso de povos que, odiando-se profundamente e divergindo entre si
pelos princípios fundamentais de sua civilização, pela estrutura da sua
organização política ou social, por sua índole artística e feitio intelectual,
se vem, entretanto, coagidos em manter recíprocas relações diplomáticas. Era
este por exemplo o caso da Polônia e do governo soviético. A Polônia era católica e os
sovietes ateus. A Polônia era um país liberal, de economia baseada na
propriedade privada, e o regime soviético é totalitário e comunista. A Polônia
tinha tradições históricas próprias, e a Rússia também, e o que
figurava na tradição de ambos este países era um ódio inveterado,
multissecular, persistente e meticuloso, de um país contra o outro. Isto tudo
não obstante, a Polônia e os sovietes mantiveram, até a guerra, relações
diplomáticas. Não é preciso ser muito perspicaz para perceber que estas
relações correspondiam a um imperativo de circunstâncias irremovíveis.
Vizinhos, os dois países tinham, constantemente, incidentes de fronteira e
atritos diplomáticos que ou seriam tratados por legações respectivamente acreditadas
em Varsóvia e em Moscou, ou fariam irromper a cada passo uma guerra que se
tornaria quiçá mundial.
Quando uma razão tão evidentemente forte obriga um
país a manter relações diplomáticas com os sovietes, de nenhuma crítica é ele
passível: estas relações não resultam evidentemente de qualquer condescendência
para o regime supremamente abominável imposto à desditosa Rússia.
O mesmo fato se observa na história da Igreja.
Quantas e quantas vezes, estando a Santa Sé em luta declarada
com o governo de determinado país não retira dele sua legação diplomática! O
motivo se explica. O Santo Padre tem súbditos espirituais em todos os países do
mundo, e, por isto, seus deveres de Pai lhe impõem que mantenha junto a todos
os países representantes diplomáticos que sejam, para o Episcopado e para os
fiéis, um luzeiro, uma proteção, um ponto de união indefectível. Cortar as
relações diplomáticas seria para Santa Sé, em certos casos (evidentemente não
em todos), um ato de abandono incompatível com a índole maternal da Igreja.
Evidentemente, esta continuidade de relações não pode ser atribuída senão a
este fortíssimo motivo, e nunca a qualquer complacência da Cátedra infalível da
Verdade, que é o trono de São Pedro, para com as heresias ou erros deste ou
daquele governo.
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Como se vê, nossa posição nesse assunto nada tem de
estremado, e, pelo contrário, reconhecendo com objetividade o caracter
imperioso de certas circunstâncias, proclama implicitamente que há certos
ressentimentos que se devem abafar e conter para a conservação de bens de ordem
superior, quando se trata de relações internacionais.
Esta afirmação outra coisa não é senão o
reconhecimento, na esfera internacional, de princípios admitidos pelo bom senso
na esfera das relações individuais. Quantas e quantas vezes o dever nos impõe
que silenciemos ressentimentos dos mais justos, em atenção a razões de ordem
superior! É este o caso do esposo e da esposa que, tendo embora mil razões
legítimas para se separar de um cônjuge culpado, prolonga a convivência com
este em benefício dos filhos. É este, ainda, o caso de um amigo que, tendo
embora mil motivos legítimos para romper algumas relações antigas, não o faz em
atenção a um motivo de gratidão ou de caridade. Quantos e quantos exemplos
disto se poderiam registrar! Em todos eles, a nobreza do ato decorre do
sacrifício de uma consideração justa, a um princípio de ordem superior.
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Nada disto vemos no
caso das relações hispano-americanas com o governo soviético.
Assaltada por um grupo
de bandidos que em seu território proclamaram o regime bolchevista, a desditosa
Rússia, na mão de seus algozes, outra coisa não tem sido senão uma infeliz
vítima que, sob o olhar mais ou menos indiferente da humanidade inteira, vem
sendo depauperada, sugada, oprimida e corrompida metodicamente por uma malta de
celerados que, segundo a mais elementar justiça, já deviam ter sofrido pena
capital de caráter infamante.
Não contentes com sugar e corromper um povo tão
numeroso, tão rico de qualidades intelectuais e morais, tão cheio de promessas
e de esperanças para a civilização, os bandidos bolchevistas ainda
transformaram Moscou no foco das conspiratas, dos motins, dos crimes e dos levantes
comunistas que se urdem pelo mundo inteiro. Não há antro de apaches nem foco de
gangsters
onde o banditismo tenha assumido uma forma mais perigosa do que na Rússia. O Brasil pode dar disto um
testemunho. Em 1935, tivemos aqui um motim comunista, simultaneamente irrompido
em vários pontos do território nacional. Derramado o sangue dos defensores da
lei, e recolhidos à disposição da justiça os culpados pelo crime, não se
restabeleceu, segundo declarou a própria autoridade, a ordem do País, e o Sr.
Getúlio Vargas, em 1937, descrevia como tão agudo este perigo, que
julgou encontrar na alteração radical de toda a organização nacional o único
remédio para fazer face ao inimigo. Mas a que inimigo? As declarações oficiais
foram peremptórias a este respeito: a bandidos vindos do estrangeiro com a
missão expressa de dissolver a unidade nacional, de desagregar as famílias,
pilhar e saquear as propriedades, incendiar os palácios e entregar o País ao
domínio de Moscou. O que é, perto disto, a traição de um Calabar senão um inofensivo
passatempo.
Felizmente, o governo tem feito contra o comunismo
declarações tais e as razões apontadas como justificativa do golpe de 37 são
tão peremptoriamente anticomunistas, que as próprias autoridades nos deram, no
Brasil, os mais fortes motivos para afirmar que nossas relações com a Rússia
soviética jamais serão estabelecidas: à inteligência indiscutivelmente sagaz do
Chefe do país não passaria desapercebido que o Estado forte, assim, se
desmentiria a si próprio.
Mas não foi só o Brasil que foi atingido pela ação
criminosa dos bandidos de Moscou. Também a Argentina, o Uruguai, o Chile, e muitos outros estados latino-americanos podem atestar
o que é a manobra subversiva da IIIª Internacional em nosso
Continente. Aliás, bastaria voltar os olhos para o desgraçado México e ouvir o clamor de
vingança que o sangue dos mártires, como de Abel, eleva para o Céu contra os próceres bolchevistas de Moscou, para compreender o que é aquilo a que, enfaticamente, e
por força do uso, se costuma chamar “governo soviético”. A expressão “governo”
se aplica aos comunistas no sentido de que quem dirige os sovietes é aquele
punhado de malfeitores. Assim também uma sociedade de apaches tem seu governo,
isto é um punhado de bandidos que, mais refinados e mais corrompidos que os
outros, dirigem a atividade coletiva. E até no inferno há um governo. Mas que o
governo dos sovietes tenha, de governo, a legitimidade, a respeitabilidade, a
autoridade moral, é um verdadeiro absurdo. Os dirigentes russos estão para os
governos legítimos assim como Lúcifer está para São
Miguel Arcanjo, ou o chefe de um bando de gatunos está para o chefe do
destacamento policial que os persegue.
A este respeito, não há a menor diferença.
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Isto posto, só se compreende que um governo
autêntico tenha para com o “governo” soviético aquela repulsa, aquela aversão,
aquele desdém higiênico, que um homem de bem deve ter por um facínora. É
legítimo que se trate com o fascínora quando se quer
discutir com ele a razão de uma pessoa que ele raptou. Mas não é igualmente
legítima, por simples interesse pecuniário, convidar um facínora para casa, jantar
com ele, cumulá-lo de toda sorte de atenções e, finalmente, lhe declarar uma
amizade pública e oficial.
Assim também é incompreensível que um país, como a
Polônia, trate com um vizinho como os sovietes. Mas não é igualmente
compreensível que a simples consideração de interesses econômicos leve um país
a reatar as relações com a URSS. O lucro não é um bem superior àquele que o
reatamento de tais relações sacrifica. Este reatamento não significa a
subordinação de um objetivo nobre a outro mais nobre, e não pode, pois, ser
aprovada.
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Favorecido por comentários simpáticos da imprensa
fascista, um esforço neste sentido se vem desenvolvendo, entretanto, em duas
Repúblicas dignas de toda a nossa fraternal amizade, isto é, na Argentina e no
Chile. Na Argentina, o Governo sofre forte pressão neste sentido, por parte
de grupos interessados. E um jornal chileno chegou a sugerir que agissem assim
todos os países sul-americanos.
Por que? Um telegrama publicado na semana passada
parece fornecer-nos a chave do enigma. A exportação argentina à Rússia, feita
provavelmente pelo Pacífico, em um grande comboio de navios, destinar-se-ia a
aumentar o comércio da Rússia com “outras potências”.
Por maiores que sejam e, entretanto, as vantagens
comerciais daí decorrentes, esperamos que a Argentina e seus ilustres
governantes, fiéis a suas nobres tradições, saibam rejeitar estas sugestões.