É sem dúvida uma notável realização a grande
campanha missionária que se realizará em toda a Arquidiocese a título de
exercício quaresmal e preparação pascal, por determinação do Ex.mo Rev.mo Sr.
Arcebispo Metropolitano.
O “Legionário” dará ulteriormente, a seus leitores,
informações pormenorizadas acerca do grande plano elaborado para conseguir o
êxito do notável empreendimento. Por hoje, bastem-nos algumas considerações
gerais sobre o assunto.
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Quando ouvimos falar em missão, vem-nos
imediatamente ao espírito a idéia de alguma longínqua obra de apostolado entre
os selvagens do Alasca, do Solimões ou de Uganda.
Realmente, no uso comum, este sentido do vocábulo “missão”, sentido sem dúvida
exato, mais restrito, como que monopolizou a palavra. E, assim, não serão
talvez muito numerosos os paulistas que, ao ouvir dizer que a Arquidiocese será
missionada, pensarão que a Igreja julga que retornamos às condições precárias
dos zulus ou dos tupiniquins.
Entretanto, a palavra “missão” tem um sentido muito mais amplo, que neste
artigo procuraremos esclarecer.
O verbo latino “mittere” significa “enviar”. Dele
deriva a palavra “missionário”, que significa “enviado”. Dele também deriva a
palavra “missão”, que é o ato pelo qual se envia alguém a alguma pessoa ou a
algum lugar.
Um Sacerdote que desenvolve na Nigéria ou entre os
esquimós sua ação apostólica, pode ser chamado “missionário” com toda a
propriedade de expressão, pois que foi o próprio Deus que o enviou. Ele é um
enviado, e quem o enviou foi a Igreja. Quem o enviou foi Deus.
A grande missionária por excelência é a Hierarquia
Eclesiástica. Recebeu ela de Nosso Senhor Jesus Cristo a incumbência de pregar a todos os povos,
batizando-os em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo, e assim fraqueando-lhes as portas da vida eterna. A Hierarquia
Eclesiástica, sendo enviada por Jesus Cristo a todos os povos, é, pois, no
sentido mais exato e mais literal da palavra, uma missionária, ou antes, a
grande missionária por antonomásia. Ela não foi enviada apenas aos povos que os
Apóstolos visitaram, nem aos homens que viveram na época em que os Apóstolos
viviam. Sua missão abrange, geograficamente, toda a Terra, e, cronologicamente,
todos os séculos. De sorte que, pregando em Paris tanto quanto em Madagascar ou
na mais miserável tribo malgache, falando a sábios ou
a analfabetos, a ricos ou a pobres, a habitantes dos pólos ou dos trópicos, a
nórdicos louros como heróis de lenda, ou a africanos negros como a ébano, ela
outra coisa não faz senão desenvolver sua ação de grande missionária.
Assim, pois, a Igreja é sempre missionária, e onde
quer que ela desenvolva seu labor apostólico, ela está realizando uma atividade
que, com toda a propriedade de expressão, pode ser chamada de missionária.
Isto posto, é obvio que também em São Paulo podem se realizar
missões, pois que, existindo a Igreja em São Paulo, aí existe uma atividade
missionária ininterrupta. E ai de nós, se para nossa suprema desgraça, essa
missão algum dia deixasse de levedar as almas para a vida eterna.
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Em sentido mais estrito costuma se chamar “missão” às expedições apostólicas que demandam lugares
inteiramente alheios à vida da Igreja, ou que, começando apenas a se converter,
ficam por isto mesmo em situação anormal. Assim, por exemplo, é obra
missionária, no sentido mais estrito da palavra, enviar Sacerdotes a uma região
inteiramente pagã, onde a Igreja de Cristo seja inteiramente desconhecida.
Assim também, é obra missionária, no sentido mais estrito da palavra, enviar
Sacerdotes, ou simples Religiosos, a lugares onde, sendo ainda incipiente a
vida da Igreja, não há uma Hierarquia Eclesiástica organizada. Os Vicariatos Apostólicos, as Prelazias, etc., são terras de missão, exatamente porque, sendo em
tais lugares muito incipiente a vida da Igreja, não há propriamente Dioceses
organizadas, mas apenas embriões de Dioceses, correspondendo ao estado
embrionário das cristandades aí existentes.
Assim, a Igreja considera igualmente missionário
enviar Sacerdotes a Noruega e Suécia, onde é pequeníssimo o número de católicos, e não há
propriamente Dioceses, ou à Finlândia, ou mandá-los ao Solimões, ao Rio Negro, ou ao Oiapoque.
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Mas, ainda em sentido estrito, a palavra “missão”
tem, na Igreja, outro grande e glorioso significado.
Viveu, no século XVII, um grande e santo Bispo,
hoje inscrito no rol dos Doutores da Igreja. Impressionado com a crassa
ignorância religiosa dos habitantes do campo em seu tempo, ignorância esta que
os levava a ser, muitas vezes, quase tão alheios às coisas da Igreja quanto as
populações mais longínquas do centro da Cristandade, comoveu seu coração
apostólico, e, em seu espírito nasceu a idéia de fundar uma Congregação
Religiosa que se incumbisse especialmente de evangelizar tais populações. Deste
projeto, alimentado por Santo Afonso de Ligório - era este seu nome
- e abençoado pela Igreja, nasceu a Congregação do Santíssimo Redentor, correntemente chamada dos Redentoristas.
A evidência dos fatos levou os gloriosos filhos de
Santo Afonso de Ligório a não evangelizar apenas os
habitantes dos campos. Estes, com efeito, se eram de diminutíssima
instrução religiosa, ao menos eram protegidos, na austeridade de seus costumes,
pelas próprias condições da vida dos campos. Pelo contrário, nos grandes
aglomerados urbanos, que no tempo do grande Doutor já apresentava grande vulto,
e tem crescido de lá para cá de modo cada vez mais assustador, há também
camadas inteiras da população que não se limitam a apresentar a ignorância da
gente do campo, mas que, a essa ignorância somam preconceitos de toda a ordem,
habilmente disseminados pelos fautores de heresias, pelos subversores da ordem
social, pelos anticlericais de todo o bordo, que
envenenam em ação pertinaz e constante a alma popular.
A essa ação doutrinária dissolvente, deve-se somar
ainda a ação corruptora dos divertimentos ilícitos, dos jogos, dos antros os
mais variados, e ter-se-á uma idéia
nítida de todo o esforço desenvolvido pelos adversários da Igreja junto
às grandes massas urbanas. Nesse terreno, tão duramente flagelado pelos
inimigos de Cristo, a Igreja não poderia estar ausente. E um dos meios de ação
mais fecundos, mais poderosos, mais ricos em graças de que ela dispõe, são
exatamente as chamadas “Santas missões”.
Os Sacerdotes Redentoristas, especialmente afeitos a este duro mister, procuram os
grandes aglomerados urbanos, e instalados na Paróquia ou quiçá fora dela,
dirigem a palavra ao povo, pregando as verdades eternas.
A História registra os frutos imensos desse
trabalho, para o qual os Filhos de Santo Afonso tem graças especiais. Não só
Paróquias mas vilas, cidades e Províncias inteiras tem sido regeneradas pela
ação denodadamente apostólica dos Padres Redentoristas.
Essa ação não tem sido apenas reconhecida pelos amigos da Igreja. Tem ela ainda
outra consagração, por certo muito significativa: é o rancor dos inimigos da
Igreja. Quantos e quantos dentre eles tem escrito contra as missões! E quantos
tem proposto sua supressão! E quantos tem apontado como motivo de todo esse
furor as conversões inumeráveis que as missões tem alcançado.
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Assim, pois, a iniciativa do Ex.mo Rev.mo Sr.
Arcebispo Metropolitano, firmada nos mais seguros antecedentes da tradição
eclesiástica, vai proporcionar a todos os seus filhos espirituais os benefícios
de um excelente costume da Igreja.
Ora, o que ninguém poderá contestar é que nesses
prédios de apartamento, nesses cortiços, nesses quartéis, hospitais, fábricas,
escolas, clubes, etc., há realmente almas infelizes, privadas da luz de Cristo,
e que se encontram a distância muito maior da Igreja do que muita alma que,
embrenhada pelas selvas da África ou perdida nas
imensidões gélidas do Alasca, começam apenas a ser atingidas pelos esforços
missionários!
Assim, pois, é com grande oportunidade que as
missões se farão em São Paulo e é de uma urgência absoluta que todos rezem por
seu êxito, concorram financeiramente ou com seu trabalho para sua grandeza, e
enfim se dediquem de corpo e alma à grande ofensiva missionária que S. Ex.a
Rev.ma desferirá agora em São Paulo.