Teve a Juventude Universitária Católica uma feliz
iniciativa ao fundar um instituto especialmente destinado a formar assistentes
sociais autenticamente católicos.
Infelizmente ainda não são muito numerosos entre
nós os elementos que, embora com excelente intenção, colocam em artificial
antítese a cabeça e o coração, quando se trata de obras de assistência e
caridade. Para muitas pessoas, é realmente um problema saber o que deve
preponderar, se a inteligência ou se o coração, na execução das obras
destinadas a aliviar a miséria do próximo. E consoante o feitio brasileiro, em
geral a partida é ganha pelo coração em detrimento da cabeça.
Na realidade, o simples fato de se propor uma
questão destas já é um perigo. O problema não existe. A inteligência bem
esclarecida não pode entrar em choque com a sensibilidade realmente
equilibrada. Quando os choques entre a razão e o coração se pronunciam, ou a
razão ou a sensibilidade se extraviou. E o problema não consiste, aí, nem em
dar o predomínio a um, nem a outro, mas em conservar um e outro dentro da ordem
a que os destinou a Providência do Criador.
Na ordem concreta dos fatos, estes choques são
freqüentes, não o negamos. E a razão é óbvia. O pecado original estabeleceu no
homem um desregramento da sensibilidade e da inteligência, em conseqüência do
que muitas vezes a sensibilidade vibra de modo contrário aos ditames da razão, e
nesse caso deve ser corrigida; ou finalmente a razão se extravia tão a fundo no
erro, que uma sensibilidade equilibrada não se resolve a segui-la sem protesto,
e neste caso é a razão que precisa ser corrigida.
Mas, perguntar-se-á, dado o fato de uma colisão
psicológica profunda entre a inteligência e a sensibilidade, como saber qual
delas está errada? Como perceber a qual delas deve ser conferido o cetro da
vitória? Como decidir qual delas deve ser reduzida ao silêncio?
Esta pergunta nem sequer deveria aflorar no cérebro
de um católico. O método é muito fácil. É a inteligência que está em colisão
com a doutrina da Igreja? Então é ela que precisa ser corrigida. É a
sensibilidade que se revolta contra o que a Igreja manda? Então é esta que
precisa ser quanto antes reduzida ao papel que lhe cabe. E nem se diga que pode
haver casos em que a Igreja nada tenha de ver. Pelo contrário, a moral católica
rege todos os atos humanos, e assim, este processo de uma infalível segurança,
tão infalível quanto o são a Igreja e o próprio Deus, tem uma aplicação segura,
constante e universal.
* * *
Assim, pois, as pessoas que se alarmam por demais
com os modernos métodos de racionalização das obras de beneficência, aqueles
que não gostam que a caridade seja exercida com inteligência, segundo os
ditames da ciência, da investigação serena e objetiva, da execução tecnicamente
perfeita, nenhuma razão tem para se alarmar, desde que fique bem entendido que,
vivificando essas técnicas, guiando essa ciência, iluminando essa execução,
esteja o influxo inspirador da Igreja Católica, dentro da qual não há nem pode
haver erro, nem mal, e a cuja sombra a ciência ilumina sem por em delírio, a
técnica serve, sem ensoberbecer, e a investigação, com ser imparcial e serena,
nem por isto perde sua perspicácia e seu valor.
A questão, no fundo, está em que a utilização de todos
estes meios atuais de se acrescer o valor das obras de assistência e caridade
não se desviem de seu verdadeiro sentido, que o fichário, que o método, que a
burocracia, não matem o amor, que é insubstituível, transcenda em eficácia e
pujança a todos os métodos e a todas as técnicas, e sem cujo concurso, quer a
técnica, quer o método, lenta mas seguramente, se transformam, não em
instrumento de auxílio, mas meio de opressão cruel.
O mal não está na técnica. Está na ausência do
influxo da Igreja.
* * *
Já se vê, por aí, que o grande problema consiste na
formação do assistente social. Se ele for um católico autêntico, não apenas
daqueles que, ávidos de erros, se debruçam curiosamente por sobre os muros da
ortodoxia contemplando afetuosamente todos os disparates que a razão humana
engendra longe da Igreja, mas daqueles que tem um senso católico vivo, eficaz,
diligente, zeloso, sua ação poderá ser de um incalculável valor. Se, pelo
contrário, ele for um católico de convicções bruxuleantes,
difícil lhe será impedir que o contrabando de idéias espúrias se insinue em sua
inteligência, e vicie toda a sua ação, transformando, de ótima que era em
péssima, a atividade que, pela natureza de sua profissão, deve exercer.
Assim, pois, a ninguém pode passar desapercebida a
oportunidade da iniciativa que tomou a JUC de fundar um Instituto de Serviço
Social, em que, sob a inspiração da doutrina católica, se temperem as
inteligências e se fortaleçam as vontades, para o cumprimento de tão alto e tão
nobre mister. Publicando hoje o edital do Rev.mo Assistente Geral da Ação
Católica sobre o referido Instituto, o “Legionário” não poderia deixar de
dizer, em obediência ao disposto naquele regulamento, também uma palavra de
incitamento e de apoio, que aqui fica consignada.