Razões mais fortes para que todos cooperem com a
junta Executiva e as várias comissões organizadoras do Congresso Eucarístico não pode haver;
haverá gente que não possa cooperar?
A essa
pergunta, se opõe uma resposta decisiva: ninguém há, que não possa rezar
e mortificar-se para conseguir de Nosso
Senhor o êxito do Congresso. Logo, ninguém há que para o Congresso não tenha
muito que fazer... A este propósito, lembremo-nos de um valoroso pensamento de
Dom Chautard. Mostra ele que não faltam pessoas que prescindem da
oração para o êxito de seu apostolado, julgando que, desde que Deus não
consinta em atrapalhações insuperáveis, os meios naturais conseguirão tudo. E,
em seguida, aquele ilustre filho de São Bernardo mostra o erro imenso que há
nesta atitude. Ou Nosso Senhor é a vida de nossas obras, ou estas não tem vida,
e portanto de nada valem. Assim, a grandeza do Congresso Eucarístico resultará,
antes de mais nada, das orações e das mortificações
das almas piedosas, desde que as acolha com bondade a misericórdia divina, do
que ninguém duvida.
Mas não basta orar e mortificar-se. Dos que só
podem fazer isto, só isto se pode exigir. Mas o Congresso precisa estar à
altura dos recursos que São Paulo tem a obrigação de mobilizar para prestar
homenagem a Nosso Senhor.
Realmente, não pensem os afortunados em bens de
dinheiro, que é dispêndio supérfluo, multiplicar os donativos com o propósito
de dar maior brilho as solenidades. Toda a pompa -
que deverá ser régia - de que se cercarem as celebrações, ainda será pouca. E
os que pensarem de modo diverso reeditam a reflexão de Judas, que lamentava o
dinheiro gasto para ungir os sacratíssimos pés de Nosso Senhor, pois que
poderia ser dado aos pobres. Entretanto, não foi para dar 30 dinheiros aos pobres, que ele vendeu o Redentor. Os pobres
eram, em seu espírito, mero pretexto. Quantos ricos haverá, que acham que não
devem contribuir para o Congresso porque melhor seria dar o dinheiro aos
pobres. Esta reflexão é errônea, como já dissemos. Mas será ao menos verdade
que vai para os pobres o dinheiro que assim eles procuram economizar?
Entretanto, não é só de dinheiro que o Congresso
precisa. Ele precisa de influência, de dedicações. Quantas pessoas há que, além
de poderem concorrer com dinheiro, poderiam pôr suas relações sociais ao
serviço do Congresso, obtendo para a realização deste vantagens das mais
preciosas? Quantas pessoas há que poderiam por ao serviço da Junta executiva um
talento real, um tino diretivo do mais alto valor, uma capacidade de trabalho
mais valiosa que qualquer donativo?
Entretanto... se é certo que o Congresso já está
mobilizando muitas dedicações, quem ousaria afirmar que todas as dedicações
mobilizáveis já se puseram ao serviço dele?
* * *
Não fiquemos nas lamentações. Ao exame de
consciência deve suceder sempre o propósito de emenda.
Demos tudo quanto possamos dar.
Rezemos para que o próximo faça o mesmo. Em torno
de nós, não poupemos os conselhos para que os outros também se dediquem a tão
grande tarefa, e o Congresso será aquela estupenda manifestação de Fé e de
desagravo a Nosso Senhor, que o Brasil católico está na
obrigação de lhe tributar nos tristíssimos dias que correm, servindo-se para
isto da cidade que Anchieta fundou.
Ora, exatamente neste momento, na velha Europa os frutos do
protestantismo - o totalitarismo da direita e da esquerda - chegam ao auge de
seu efeito maléfico, e sob o zorrague de novo algozes, aquele continente, como
disse S.S. o Papa Pio XII na alocução que
hoje publicamos, assiste à confecção de “uma verdadeira enciclopédia de
sofrimento” a que são expostos os defensores da Fé, conforme a manifesto
intento dos inimigos da Igreja, de extirpar totalmente o Catolicismo da Europa,
para mais facilmente o extirpar, em seguida, do resto do mundo.
Neste momento, pois, o Brasil deve corresponder ao
anseio supremo de seus primeiros missionários, e, pela afirmação solene,
pública, esplêndida, magnificentíssima de sua Fé e sua união à Cátedra de São
Pedro, mostrar que extirpar no Brasil a Fé católica é coisa tão difícil quanto
fazer desaparecer toda a nação brasileira.
* * *
Infelizmente, esta razão não é a única. Hoje, não
temos, na barra de São Salvador ou do
Rio de Janeiro, uma armada luterana ou calvinista a
rechaçar. Mas os surtos da heresia, embora não se manifestem à mão armada, nem
por isto são menos pertinazes e menos dignos de vigorosa e decisiva reação. Uma
heresia que tem a seu serviço uma esquadra pode, em casos embora raros, não ser
mais temível do que outra, que tenha a
seu serviço uma rádio-emissora. A propaganda herética
não faz mártires, mas pode fazer apóstatas. Assim, pois, se o Congresso
Eucarístico, considerado como afirmação de Fé, coram populos é um dever por assim dizer
histórico, dever mais grave ainda é a preservação da integridade Religiosa
neste solo santificado pelos despojos mortais que nele jazem, dos que
preferiram, em Guararapes e em outros campos de luta,
perder a vida a consentir na retaliação e descatolicização
do País.
* * *
Há duas grande razões pelas quais a ninguém é lícito
eximir-se de prestar auxílio ao próximo Congresso Eucarístico Nacional
cooperando com os organismos para este fim instituídos pela Autoridade eclesiástica: todos tem a
obrigação de dar glória a Deus, e o
Congresso representa uma iniciativa de tal ordem, que não há uma só pessoa que
não lhe possa prestar um concurso útil, por mais desvalidas que, sob todos os
pontos de vista, ela seja.
* * *
A razão primordial e essencial do Congresso
consiste em prestar culto solene e público a Nosso Senhor Sacramentado.
A doutrina católica afirma, com razão, que, assim
como os indivíduos são obrigados a adorar a Deus, também as grande massas
humanas, os Municípios, os Estados, os Países, devem prestar-lhe culto público
e oficial. Efetivamente, não se compreende que aquilo que todos devem poder
fazer em particular, não possam e devam fazer como coletividade, em público; e
de modo oficial. Se, com um conta-gotas, pingarmos lentamente água em um copo,
até que este se encha, teremos um copo de água. Esta massa maior de água,
resultante da fusão das pequenas gotas, tem evidentemente a mesma natureza e as
mesmas propriedades, que as gotas que a compõem: efetivamente, as qualidades do
todo resultam das qualidades das partes. Se tomarmos, um a um, grande número de
homens, e verificando que todos eles são católicos, a multidão que resultará do
convívio de todos estes homens tem de ser por força uma multidão católica. E
assim como um homem católico ora, pensa, age como católico, assim também uma
multidão de católicos - ou seja uma
multidão católica - não pode pensar,
agir e viver como um multidão qualquer, mas tem de orar, agir e pensar como uma
multidão católica. Os deveres do todo são uma resultante dos deveres das
partes.
Por razões que agora não nos compete examinar,
estamos em uma situação que a sabedoria de nosso Episcopado não desejou até
aqui alterar: o Brasil é um país que não
tem Religião de Estado. Isto não obstante, não estão os brasileiros dispensados
de prestar culto público a Nosso Senhor, pois que, se bem que o Estado se diga
neutro desde 1891, o país continua católico, apostólico, romano, e esse país
católico quer, deve e pode prestar a Nosso Senhor o culto público de sua
adoração, com um esplendor capaz de repercutir fora de nossas fronteiras e
atestar perante todos os povos que o Brasil é filho da Santa Igreja.
Em primeiro lugar,
devemos a Nosso Senhor esta homenagem. Este ponto não carece de
demonstração. Basta que pensemos em Deus, e depois analisemos nossas condições
de criaturas por Ele reunidas, para que compreendamos isto. Em segundo lugar,
obriga-nos a este culto público um dever que eu chamaria quase de honestidade
para com os fundadores da Nação. Efetivamente, quando os navegadores e os
missionários portugueses franquearam o caminho que conduzia ao Brasil, e, no
Brasil, rasgaram as rotas que os levavam ao âmago do sertão, uma convicção que
jamais deles se afastou, e que inspirou feitos admiráveis foi de que, tendo a pseudo-reforma protestante roubado à Esposa Imaculada de
Cristo, que é a Igreja, regiões inteiras da Europa, cumpria dilatar nestas
terras novas o Reino de Deus como reparação pelos revezes sofridos em outras
regiões. Assim, a catolicidade expulsa da Prússia, da Inglaterra, da Escandinávia, se expandiria no novo mundo, cravando aqui raízes que
lhes permitissem resistir com eficácia, em outras regiões, contra as investidas
satânicas da heresia. Assim, a esperança de que as orações, os esforços e o
sangue despendidos na evangelização do Brasil viessem a constituir de futuro,
uma reserva preciosa para a Igreja, foi a razão profunda e o anelo supremo dos
mártires que aqui morreram, dos heróis que aqui lutaram por Deus, e das almas
contemplativas que aqui se imolaram em outras eras como vítimas de expiação.
Esta esperança não desfaleceu com os tempos. E, assim, quando a heresia trazida
pelas armas francesas e holandesas tentou abrir uma cunha na esplêndida unidade
religiosa da América meridional, não foi só em nome da Pátria, mas ainda em
nome da Igreja que se levantaram as mais heróicas reações, e mais uma vez se
ensopou em sangue o solo brasileiro. Por mais que se oculte esta verdade, é
incontestável que as guerras contra os franceses e holandeses foram autênticas
lutas de Religião.