Disse muito bem o Santo Padre Pio XI que uma das pragas
de nosso século é um certo nacionalismo místico e feroz, que empana a lucidez
das inteligências, a serenidade dos caracteres,
a imparcialidade das consciências, e leva os homens, ainda mesmo os mais
corretos em outros assuntos, a perder inteiramente o senso da equidade e da
justiça quando entram em cena as vaidades e
interesses nacionais.
Na apreciação desse erro, devemos despir-nos
inteiramente de toda e qualquer forma de romantismo.
Evidentemente, o patriotismo é uma grande virtude,
e ninguém se pode gabar de lhe ter dado mais profundidade, consistência e
amplitude do que a Igreja Católica. Não se deduza daí, entretanto, que os excessos de
nacionalismo são como que um “peché mignon”, a louvável e sedutora hipertrofia de uma coisa
excelente em si, em qualquer caso uma paixão inocente e pitoresca que não faz
senão revelar a grandeza de sentimentos daqueles a quem ela domina.
Se essa graciosa “hipertrofia” se transformasse em
sentimento unânime dos povos, a que excessos de barbárie, de crueldade, de
injustiça, não assistiríamos? A que ficaria reduzida a vida internacional que a
Igreja se esforça tanto por elevar à
altura dos princípios generosos, brandos e suaves do Evangelho? Essa graciosa
“hipertrofia” a que resultado chegaria, senão a reconduzir o mundo de hoje à
situação em que a viu e a descreveu o autor do famoso “homo homini lupus”?
Assim, pois, todos os católicos se devem esmerar
por possuir um patriotismo sincero, vivo, inteligente e eficaz, mas em varrer
para bem longe de si a peste do nacionalismo pagão estatolatra
que falseia a fundo a concepção política internacional cristã que devemos ter.
* * *
Isto posto, é bem evidente que a imprensa católica
deve combater este perigo, e jamais tomar qualquer atitude capaz de o
alimentar. Não tem sido outro o esforço do “Legionário”.
Realmente, comentando
invariavelmente, mas já alguns anos, a trama intrincada dos acontecimentos
internacionais, temo-lo feito de maneira a jamais subordinar a orientação de
nosso jornal às conveniências políticas de qualquer país estrangeiro.
Católicos, inteiramente católicos, exclusivamente católicos, a única
preocupação que nos tem guiado, na observação do cenário internacional, tem
sido a do Reino de Cristo. Para nós como para São Paulo, não há judeus nem
gregos, circuncidados nem incircuncidados, mas apenas
católicos e não católicos. De pouco ou nada nos interessa o recuo e a alteração
das fronteiras políticas entre os povos. O que nos interessa - e isto
vivamente, apaixonadamente, com toda a alma, com todo o coração, com toda a
vontade - é a fronteira espiritual invisível que separa os filhos de Deus dos
filhos das trevas. Tomem os assuntos e interesses humanos o feitio que
quiserem: eles só nos interessam na medida em que favorecem ou prejudicam a
exaltação da Santa Igreja e o esmagamento de seus adversários. Se isto não é
uma concepção “cristocêntrica” da política
internacional, é o caso de dizer que a lógica desertou do mundo.
* * *
Esta concepção cristocêntrica - e porque cristocêntrica
autêntica, eclesiocêntrica - da política, impõe uma
exigência austera. Sempre que determinado acontecimento deve redundar em
detrimento da Igreja, é nossa obrigação desejar que ele não se verifique, e
isto por mais importantes que sejam os interesses temporais assim sacrificados.
Os valores tem uma hierarquia. Amar a Deus sobre todas as coisas é preferir a
todas as coisas a maior glória de Deus.
Assim, pois, o
“Legionário” se tem visto forçado a formular votos ou conceitos que, embora
sempre inspirados nos interesses da Igreja, pode colidir com a vaidade nacional
ou os interesses de certos países. Será por isto o “Legionário” inimigo destes
países? Porque ama a Deus mais do que
ama a estes povos, poder-se-á deduzir que ele é inimigo destes povos?
Para quem conhece dois dedos de catecismo, a
pergunta não deixa margem a dúvida. Só há um amor do próximo, verdadeiro e desinteressado:
é o que se inspira no amor de Deus. Se, portanto, deixarmos de amar a Deus para
amar mais o próximo, nosso próprio amor do próximo sofre com isto uma
deterioração essencial que o transforma em um egoísmo mais ou menos disfarçado.
Assim, pois, não se queixem aqueles cujos
interesses ou vaidades nacionais sacrificamos ao amor
da Igreja: enquanto amarmos a Deus, saberemos amar devidamente o próximo.
Isto posto, é bem evidente que nossa linha de
conduta se situa fora e acima de qualquer simpatia para com este ou aquele
beligerante. Não queremos apoiar os excessos nacionalistas de uns contra os
excessos nacionalistas dos outros. Queremos, isto sim, mostrar a uns e outros
que, acima de suas preocupações nacionalistas, devem atender aos interesses supremos
do Reino de Deus.
Por aí se compreende como andam errados os que
supõem que somos inimigos dos povos italianos, alemão, ou francês.
Evidentemente, nossa amizade a esses povos não se pode transformar em uma
idolatria cega e desgovernada. Mas, atendidos em primeiro lugar os interesses
da Igreja, ninguém vota a estes povos maior simpatia do que o “Legionário”.
Evidentemente, em todos os povos há bons e maus, em
julgar um povo só pelos seus maus elementos é coisa perfeitamente injusta e
estúpida.
Ora, por mais que estejamos em desacordo com o
totalitarismo, como poderíamos fechar os olhos às virtudes esplêndidas de
nossos irmãos católicos da Itália, da
França ou da Alemanha? É contra eles que escrevemos, quando escrevemos contra o
totalitarismo? Ou será antes para nos associarmos a suas preocupações, às suas
lutas, a seus sofrimentos, que tomamos a posição em que nos encontramos?
Deixamos de mencionar,
intencionalmente, os muitos títulos que
fizeram do povo italiano, na arte e na ciência, um dos primeiros do mundo. São
títulos certamente gloriosíssimos. Mas, por mais gloriosos que sejam, ficam na
penumbra quando postos em comparação com os títulos sobrenaturais que acima
enumeramos.
* * *
Os que me conhecem de
perto sabem o entusiasmo extraordinário que voto à Alemanha, e a grande influência que ela teve sobre minha formação.
Sempre fui, e se Deus
quiser serei sempre, um admirador da inteligência vasta e lógica, da vontade
férrea e destemerosa, da personalidade singela e
atraente dos alemães. Admiro mesmo tanto a Alemanha, que não hesito em dizer
que pouquíssimas nações, no mundo, poderiam concorrer tanto para a glória de
Deus quanto uma Alemanha totalmente católica.
Há, no Brasil, muitos
preconceitos anti-germânicos que decorrem ou da
guerra de 1914, ou das diferenças habilmente exploradas que existem entre o
temperamento brasileiro e o temperamento germânico. Sendo eu embora um anti-nazista resoluto, intransigente e meticulosamente
intransigente, tenho sustentado, até em rodas de amigos, muita discussão em que me empenho por mostrar
que é um erro enorme transformar os sentimentos anti-nazistas
em sentimentos anti-germânicos. Alemanha não é o
nazismo.
E se hoje estamos em
campo ideológico oposto ao do governo de Berlim, jamais deixaremos de desejar a
prosperidade e sobretudo a santificação da Alemanha católica, apostólica,
romana. E é exatamente para que isto se dê, que desejamos com todas as veras da
alma o esmagamento da ideologia nazista.
Não somos inimigos do
nazismo apesar de sermos amigos do povo alemão. Somos amigos do povo
alemão e por isto somos anti-nazistas.
Da França que direi? Cada vez
que as circunstâncias me forçam a fazer qualquer crítica à algum fato ocorrido
na França, tenho um pouco a impressão de que estou falando de minha própria
Pátria. Como católico e como brasileiro, habituei-me sempre a achar que a
França era uma espécie de irmã primogênita do Brasil, que por isto mesmo tinha
no mundo latino, e em toda a Cristandade, uma proeminência gloriosa, que dela
fazia o objeto predileto de nossa estima.
Se fosse escrever sobre
as muitas razões que nos levam a amar a França, teria que encher um número
inteiro do “Legionário”. E talvez isto não bastasse... É, pois, melhor que na
comoção destas rápidas palavras fique dito tudo. Da França nada se pode dizer
de melhor, senão... que é a França.
* * *
Assim, pois, desiludam-se os exploradores que, sob
pretextos de nacionalismos ofendidos, procuram
apontar a tanta gente bem intencionada o “Legionário” como um inimigo. Diga-se
o que disser na confusão da hora presente, o futuro nos dará razão quando
disser que só cumpriram bem o seu dever os católicos que souberam conservar
durante a tormenta o duplo sentimento do amor a todos os povos, e da
preeminência incontestável do Reino de Deus.