No dia 31 p.p. celebrou a Santa Igreja a festa de
Nossa Senhora, Medianeira Universal de todas as graças.
Neste momento de aflições e de perigos, quando a humanidade inteira geme sob o
peso de desditas que se multiplicam a cada momento, cresce nossas necessidades
e mais prementes se tornam nossa preces. E, com isto, mais importante se torna
que saibamos rezar bem. E poucas verdades da Fé concorrem de modo tão poderoso
para valorizar nossas orações quanto a Mediação Universal de Maria, quando a
estudamos seriamente e a fazemos penetrar a fundo em nossa vida de piedade.
* * *
Ensina a Teologia que
todas as graças que nos vem de Deus
passam sempre pelas mãos de Maria, de tal maneira que nada obtemos de Deus se
Maria não se associar à nossa oração, e todas as graças que recebemos, as
devemos sempre à intercessão de Maria. Assim, a Mãe de Deus é o canal de todas
as preces que chegam até seu Divino Filho, é o caminho de todas as graças que
Este outorga aos homens.
Evidentemente, esta verdade supõe que, em todas as
orações que fazemos, peçamos explicitamente a Nossa Senhora que nos apoie. Esta
prática séria é sumamente louvável.
Mas ainda que não invoquemos declaradamente a
intercessão de Nossa Senhora, podemos estar certos de que só seremos atendidos
porque Ela reza conosco e por nós.
Daí se infere uma conclusão sumamente consoladora. Se devêssemos
confiar apenas em nossos méritos, como poderíamos confiar na eficácia de
nossas preces? Conta-se que certa vez Nosso Senhor apresentou-se em uma visão a
Santa Teresa de Jesus, trazendo nas mãos algumas uvas maravilhosas. Perguntou a
Santa ao Divino Mestre o que significavam as uvas, e Ele respondeu que eram uma
imagem da alma dela.
Olhou, então, a Santa detidamente para as frutas,
e, à medida que as examinava, sua
primeira impressão, que fora magnífica, se desfazia, e dava lugar a uma
impressão cada vez mais triste. Cheias de manchas e de defeitos, as uvas
acabavam por parecer repugnantes à grande Santa. Compreendeu ela, então, o alto
significado da visão. Mesmo as almas mais perfeitas tem manchas, quando
atentamente examinadas. E quais as manchas que podem escapar desapercebidas ao
olhar penetrante de Deus? Por isto, tinha muita razão o Salmista quando
exclamava: “Senhor, se atenderdes a nossas iniquidades, quem se sustentará em
vossa presença”?
E se não há quem não apresente manchas aos olhos de
Deus, quem pode esperar com plena segurança ser atendido em suas orações?
Por outro lado, Deus quer que nossas preces sejam confiantes.
Não deseja Ele que nos apresentemos ante Seu trono como escravos que se
aproximam com medo de um temível Senhor, mas como filhos que se acercam de um
Pai infinitamente generoso e bom. Essa confiança é mesmo uma das condições da
eficácia de nossas preces. Mas como teremos confiança, se, olhando para nós,
sentimos que nos faltam as razões de confiar? E se não temos confiança, como
esperamos ser atendidos?
É das tristezas desta reflexão que nos arranca, triunfalmente, a doutrina da Mediação Universal de Maria.
De fato, nossos méritos são mínimos, e nossas
culpas grandes. Mas o que não podemos alcançar por nós, temos todo o direito de
esperar que as preces de Nossa Senhora alcancem.
E jamais devemos duvidar de que Ela se associe a
nossas preces, quando convenientes à maior glória de Deus e à nossa
santificação. De fato, Nossa Senhora tem a cada um de nós um amor que só de
modo imperfeito pode ser comparado ao
amor que nos tem nossas mães terrenas. Diz o Bem-aventurado Grignion de
Montfort que Nossa Senhora
tem ao mais desprezível e miserável dos homens um amor superior ao que
resultaria da soma do amor de todas as mães do mundo a um filho único.
Nossa Mãe autêntica na ordem da graça, a cada um de
nós Ela nos gerou para a vida eterna. E a Ela se aplica fielmente a frase que o
Espírito Santo insculpiu na Escritura: ainda
que teu Pai e tua Mãe te abandonassem, eu não me esqueceria de ti. É mais
fácil sermos abandonados por nossos pais segundo a natureza, do que por nossa
Mãe segundo a graça.
Assim, por mais miserável que sejamos, podemos com
confiança apresentar a Deus nossas petições: sempre que forem apoiadas por
Nossa Senhora, encontrarão um valor inestimável aos olhos de Deus, que
certamente obterá para nós o favor pedido.
Convém que meditemos incessantemente sobre esta
grande verdade. Católicos que somos, devemos enfrentar nesta vida as lutas
comuns a todos os mortais e, além disto, as que decorrem do serviço de Deus.
Mas, ainda que os horizontes pareçam prestes a verter sobre nós um novo
dilúvio, ainda que os caminhos se cerrem diante de nós, os precipícios se
abram, e a própria terra se abale debaixo de nossos pés, não percamos a
confiança: Nossa Senhora superará todos os obstáculos que forem superiores a
nossas forças. Enquanto esta confiança não desertar de nosso coração, a vitória
será nossa, de nada valerão os ardis de nossos adversários: caminharemos sobre
as áspides e os basiliscos e calcaremos aos pés os leões e os dragões.