O Instituto Gallup de opinião pública
divulga que os últimos acontecimentos produziram na opinião norte-americana um
movimento de reação contra a política intervencionista do Sr. Roosevelt, engrossando, assim, as fileiras dos que, conforme os
interesses da política nazista, preferem preservar os Estados Unidos alheios à guerra.
Segundo certos indícios fazem supor, o original
intuito do Dr. Gallup obedece à tendência nazista, o
que torna suas declarações particularmente curiosas no que concerne às
considerações que faremos no presente artigo.
Realmente, esta notícia mostra que o nazismo está
começando a colher os frutos que teve em vista ao romper hostilidades contra a
Rússia.
Até aqui a opinião católica, que adquire dia a dia
nos Estados Unidos maior influência, não tinha razões para ver no Sr. Adolf Hitler senão uma segunda
edição revista e melhorada de Juliano o Apóstata, e por isto tinha razões para tomar a sério o papel de
épico lutador contra o comunismo, que o füehrer se arrogara em certa fase de sua carreira política
multicolor.
Com efeito, o famoso pacto Ribbentrop-Molotov tornara impossível
qualquer ilusão a este respeito, e por isto não era só em círculos católicos,
mas em elementos de todos os setores de opinião conservadoras dos Estados
Unidos, que um ceticismo profundo dominava os espíritos no tocante aos propósitos
apostólicos e evangelizadores do III Reich. Não é difícil perceber como toda
essa ordem de idéias contrariava os interesses da expansão nazista.
Aos dirigentes germânicos, tudo isto não passava
desapercebido. Mas as vantagens imediatas que, por ocasião da luta contra a
França e seus aliados, a 5ª coluna auferiu com a colaboração dos partidos
comunistas de toda a Europa eram tais que não convinha ao totalitarismo retomar
o simulacro da cruzada anti-bolchevista.
Agora, porém, quase todo o continente europeu se
acha nas mãos do Sr. Hitler, e de nenhum auxílio lhes podem ser as células
bolchevistas. Do que ele agora precisa é de simpatias universais que impeçam a
Inglaterra de mobilizar contra ele novos adversários. E, para tanto,
pareceu-lhe conveniente restaurar os velhos leit-motivs anti-soviéticos.
A manobra deu resultados. Nos Estados Unidos,
parece que novamente os ingênuos - que são os melhores colaboradores do nazismo
- começam a acreditar no caráter ideológico do conflito nazi-russo.
E a propaganda nazista, sempre habilíssima, alimenta
por todas as formas essa ilusão pueril. Parece-nos que toda essa ordem de fatos
não é alheia às verificações a que chegou o Instituto do Dr. Gallup.
Assim, as vantagens da agressão à Rússia vão
beneficiando desde logo o Sr. Hitler, e nossas previsões se confirmam: a luta
contra o comunismo não é para seu sósia, o nazismo, senão um expediente
político que tanto mais impressionará as massas, quanto mais prolongada for a
guerra contra a URSS...
Tudo isto nos leva à seguinte situação:
a) falou o Sr. Hitler, para justificar a luta contra a Rússia, e em todo o seu longo discurso não levantou um só
argumento em que ele se fizesse de cruzado;
b) depois dele, falou o Santo Padre, que não disse
uma única palavra capaz de ser interpretada como uma autenticação do caráter de
“cruzada” que se pretende atribuir a esta guerra;
c) e, apesar de os dois maiores interessados no
assunto não terem reconhecido a “cruzada”, continua a haver ingênuos que
acreditam nela.
Tínhamos ou não tínhamos razão para afirmar que os
ingênuos são os melhores aliados do totalitarismo?