Como Presidente da Ação Católica, senti intenso
júbilo ao ler os dois excelentes opúsculos que o Rev.mo Pe. Valter
Mariaux, S.J., Diretor do Secretariado Geral das Congregações
Marianas de Roma, publicou com os títulos de Chefes e Cavaleiros de Maria. Graças a um gesto de inspirada
sabedoria do Ex.mo e Rev.mo Sr. Arcebispo Metropolitano, as relações entre a
Ação Católica e as associações auxiliares já foram definidas de modo lapidar. O
documento em que essa delicada questão foi solucionada é qualquer coisa de
imperecedouro e intangível, representa mais uma diretriz doutrinária e prática
que se funda em razões imutáveis, às quais nada há que retirar ou acrescentar.
De acordo com esse documento, a Ação Católica só pode lucrar com
o desenvolvimento das associações auxiliares, que não são para ela apenas
valiosas colaboradoras mas preciosa sementeira de membros. E, por isto, é com
antecipada satisfação que contemplo os frutos magníficos que os dois livros do
eminente Diretor do Secretariado das Congregações Marianas em Roma produzirão
nas falanges marianas do Brasil.
* * *
Se Deus quiser, jamais me fartarei de sustentar
que, no Brasil, nos contentamos por demais com rótulos e exterioridades. Quando vemos uma grande multidão comparecer
a uma cerimônia católica, nosso peito se dilata de entusiasmo, e uma
tranqüilidade rotunda nos invade euforicamente: o
Brasil é mesmo um grande país católico. No entanto, se tomássemos em conta que
multidões não menores se aglomeravam nas praças públicas da Espanha, do México,
da Baviera, etc., antes da perseguição, uma reflexão amarga não poderia deixar
de nos passar pela mente: estará o Brasil vacinado contra perigos tão grandes
quanto os que hoje flagelam aqueles três países?
Não conheço mais particularmente as circunstâncias
que formavam o clima da vida religiosa do México antes da perseguição. Na
Espanha, porém, como também nas regiões católicas da Alemanha, é incontestável
que um grande renascimento religioso se operava. Os católicos pareciam cada vez
mais aguerridos, empreendedores e firmes. Suas organizações prometiam ganhar de
dia para dia maior solidez. Tudo fazia prenunciar uma grande primavera
espiritual. Seria injustiça imaginar que as massas enfeixadas nas organizações
católicas alemãs e espanholas eram levadas por uma religiosidade balofa. Os
triunfos da Igreja na Alemanha e na Espanha, antes da perseguição, não eram apenas triunfos efêmeros
como o de Nosso Senhor em Jerusalém. A própria resistência que o elemento
católico tem desenvolvido em um e outro país prova-o de sobejo. E, no entanto,
a verdade patente, incontestável, evidente, é esta: as multidões católicas, tão
frementes de santo entusiasmo antes da perseguição e tão invencíveis em sua
esplêndida constância sob o aguilhão dos adversários, não foram suficientes
para evitar a tormenta e esmagar o mal quando ainda em gérmen.
* * *
Penso que não será difícil explicar este fato tão
lamentável quanto curioso. Durante muito tempo, os órgãos da propaganda liberal
timbraram em inculcar nos católicos uma visão incompleta - e portanto errônea -
de seus deveres. A ignorância religiosa, aliada ao pouco acatamento à voz dos
Papas e dos Episcopados, permitiu que essa propaganda se infiltrasse
insidiosamente no espírito de muitos católicos, até mesmo dos mais preparados e
fervorosos. E, assim, uma flexão geral se fez sentir, que teve como
conseqüência o cultivo das virtudes que poderíamos chamar (embora
impropriamente) passivas, enquanto as
virtudes ativas eram postas sob
silêncio, ou injustamente denegridas.
É claro que Nosso Senhor há de ser, eternamente, o
ideal de perfeição de todo o verdadeiro católico. E, por isto mesmo, a
propaganda liberal não hesitou em apresentar às massas uma imagem deformada de
Nosso Senhor, uma imagem radicalmente diversa da que a Igreja, única intérprete
infalível dos Evangelhos, nos apresenta. À força de elogiar a mansidão, a brandura,
a inefável doçura de Nosso Senhor, a propaganda liberal conseguiu ocultar no
mais profundo silêncio sua não menos adorável energia. Quanto se escreveu sobre
o inefável amor com que Nosso Senhor, ainda no último beijo, procurou atrair a
Si a alma negra de Judas? E, entretanto, quão pouco se escreveu sobre a
majestade terrível com que Nosso Senhor, dizendo “ego
sum” aos que O procuravam, a todos prostrou por
terra, transidos de pânico? Entretanto, seria Nosso Senhor menos adorável em
uma atitude do que na outra? Este hábito de ocultar alguns dos exemplos que
Nosso Senhor nos deu, e de só pôr em relevo outros, trouxe os resultados que
normalmente dele deveriam decorrer. Qualquer católico mediano compreende a
sublimidade do perdão, da cordura, da mansidão, da misericórdia; compreenderá
ele igualmente a sublimidade da energia com que deve combater o erro, castigar
os que erram, desarmar a heresia e sagazmente lhe desvendar as tramas e
conspirações? Houve um tempo em que aos grandes oradores sacros e guerreiros
cristãos se dava o nome de “martelo dos hereges”. Hoje, essa alcunha seria tida
como um elogio? Compreende-se ainda a necessidade de “martelar” os hereges? Ainda sobrevive no
espírito de alguém a idéia de que o martelo dos hereges é o bisturi com que a
Cristandade se desfaz dos membros podres, e que, se é um crime amputar-se um
membro antes de empregar meios curativos menos radicais, é crime maior retardar
a amputação do que urgentemente deve ser cortado? O médico que ordene
precipitadamente a amputação de uma perna pode obrigar seu doente a perder sem
necessidade um membro. Mas o que adie temerariamente a operação compromete a
existência do corpo inteiro. Qual dos dois é mais desidioso?
Qual o erro que com mais cautela se deve evitar?
* * *
Dissemos que certas virtudes foram exageradamente exaltadas. Outras entretanto foram ou
deturpadas ou postas sob o mais impenetrável silêncio. Um católico perspicaz
era alcunhado de alma de inquisidor.
Um católico enérgico era considerado como uma alma sombriamente feudal, que só
pensava em noites de São Bartolomeu (como se o feudalismo ainda existisse por
ocasião da noite de São Bartolomeu), em massacres e em instrumentos de tortura.
O espírito das cruzadas era vilipendiado. Lutar, proclamar os direitos de
Cristo e de sua Igreja, fazer face denodadamente ao erro, desmascará-lo com
invencível desassombro, tudo isto parecia impróprio da mansidão católica.
Quanto à perspicácia, não havia virtude menos compatível com a formação
religiosa de muita gente, do que ela. Se fôssemos praticar ao pé da letra as
doutrinas que certos católicos possuem a respeito do juízo temerário, o número
de cretinos estaria singularmente acrescido neste mundo. Desconfiar?
Investigar? Multiplicar ao serviço do Bem todos os recursos da astúcia da serpente?
Quem diria, em certos meios católicos, que isto foi expressamente recomendado
por Nosso Senhor?
Não espanta que pessoas com tal formação, excelentes
para suportar sem se vergar às mais tremendas tempestades, não fossem capazes
de evitar o tufão, de se articular, de lutar e de esmagar o neo-paganismo
quando ainda ele estava em gérmen.
Tudo neste mundo é sujeito a mutações inopinadas.
Nada do que é humano é invulnerável à ação modificadora ou destruidora do
tempo. Quem ousaria afirmar que o Brasil jamais terá de fazer face a perigos
graves para a integridade de sua Fé? E, em emergências tais, estaria ele
preparado a fazer face ao mal, a ser heróico na prevenção, e não apenas na
paciência?
* * *
Os dois livros do Rev.mo Pe. Valter
Mariaux são magníficos para dar aos Congregados Marianos uma formação à altura das gravíssimas
responsabilidades históricas que sobre eles pesam. Esses livros formam
católicos completos, não apenas católicos que procuram ver Nosso Senhor com um
olho só, mas católicos de uma formação equilibrada, nos quais o cultivo das
virtudes mais próprias para o combate não estanca a delicadeza de alma que é um
dos mais autênticos encantos do espírito brasileiro; mas nos quais, em
compensação, o cultivo dessa delicadeza não dessora a personalidade, privando-a
dos viris necessários para aqueles que tenham sempre em mente a advertência do
Evangelho: o reino dos Céus é dos violentos, e sem violência não pode ele ser
conquistado.
Cavaleiros de Maria, Chefes autênticos, que Nosso
Senhor encha deles as fileiras azuis dos soldados de Sua Mãe, para a maior
glória de Deus e exaltação da Santa Madre Igreja!!
Seria uma grande consolação saber-se que esse livro
se encontra, não apenas nas estantes, mas à cabeceira de todos os Congregados e
membros da Ação Católica.