O cinqüentenário do nascimento de Jackson de Figueiredo obriga-me a tratar
hoje de sua invulgar figura. Fazendo-o não interrompo a série de artigos que
venho escrevendo contra o tremendo caruncho do liberalismo religioso. Jackson foi, sem dúvida, o maior paladino suscitado pela
Providência nas fileiras do laicato católico para lutar contra este erro, ou
antes, este vasto amálgama de erros. Assim, um rápido estudo das feições
psicológicas do valente polemista sergipano acrescentará a força persuasiva do
exemplo à série de argumentos com que tenho procurado refutar o liberalismo
religioso em artigos anteriores.
* * *
Assistimos hoje a uma verdadeira ressurreição do
liberalismo religioso. Por de trás da “maquillage” de novos misticismos, de messianismos duvidosos e de “novidades” teológicas de há
muito tempo condenadas pela Igreja, é o velho espírito (...) liberal e
bonacheirão (...) das antigas irmandades, que pretende
apossar-se da direção do movimento católico. Não se trata apenas de uma
doutrina que renasce. Habilmente dosada em dinamizações ajustadas a todos os
gostos, procedendo por iniciações e “iluminações” graduados com um talento de
que só encontramos exemplo na gnose (...), estas velhas novidades são
difundidas de modo metódico, perseverante e estrategicamente eficaz, que
mostra, através dos progressos da idéia, a ação sutil de engenhosíssimos
propagadores.
Em matéria de estilos, distingue-se a pureza de linhas
das realizações simples estilizadas. Há móveis tipicamente antigos. Há móveis
tipicamente modernos, mas há, também, estilizações modernas de linhas antigas,
em móveis de fabricação recente. É exatamente este, o caso do espírito das
confrarias, que já não reside nas antigas irmandades
nem afeta aqueles ares de festança pacata e um tanto familiar dos pachorrentos sodalícios de outrora, mas assume aspectos de um misticismo
streamlined
(moderno, alinhado, n.d.). O recheio entretanto é o
mesmo.
Por tudo isto, não faltará, e infelizmente não
faltou, quem procurasse apresentar de Jackson de Figueiredo um retrato novo, ajustado às
conveniências de tão hábil propaganda. Mas a realidade é realidade. Basta abrir
a esmo qualquer página das obras de Jackson para notar
que sua figura viril e ardente de lutador não comporta a caiação nova com que
se pretende “civilizá-lo”. Jackson foi, por
excelência, e no mais alto grau, o apóstolo da intolerância, no belo e nobre
sentido desta nobre e bela palavra. E para o demonstrar, prestando assim um
pequeno serviço à memória do grande batalhador, que escrevemos este artigo.
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Intolerante é aquele que não tolera. A confusão de idéias
existente em nossa época exige por vezes que relembremos alguns conceitos hoje
menos supérfluos do que outrora. Com efeito, o mais imbecil dos Acácios ainda é um sábio em comparação com certos
semeadores de palavras ocas e bombásticas de nossos dias, certamente capazes de
fazer vibrar as fibras de pedantismo que o pecado original deitou na personalidade
de todos os homens, mas fecundos em confusões e desordens de toda espécie.
E, assim como é útil lembrar que intolerante é quem
não tolera, perdoem-me os leitores se ainda lembramos que tolerante é quem
tolera. A intolerância será sempre um mal? A tolerância será sempre um bem? Há
coisas que se devem tolerar. Outras não podem nem devem ser toleradas. Diria
pois o Cons. Acácio que há situações em que a
intolerância é uma grande virtude, e situações em que a tolerância pode ser um
imenso pecado. Não há, pois, a menor razão para que se constitua em torno
destas palavras um tabu. Acusar uma pessoa de intolerante e com isto pretender
atirar-lhe uma injúria, é muitas vezes um erro grave. Mesmo porque os excessos
de intolerância são quase sempre muito mais toleráveis do que os excessos de
tolerância.
Basta correr um pouco os olhos em torno de nós para
que verifiquemos que os excessos de tolerância são hoje imensamente mais
numerosos que os da intolerância. Os pais que toleram maus jornais, maus livros
e más companhias para seus filhos; as mães que toleram o rádio mesmo quando
enche a casa de declamações obscenas; as moças que toleram liberdades
exageradas por parte de rapazes; os jovens que toleram contrafeitos e vexados a
mofa e a risota dos prosélitos da impureza e da impiedade; as autoridades que
toleram os desmandos e excessos dos subalternos; enfim, os professores, os
patrões, os superiores hierárquicos de toda a escala civil, costumam hoje em
dia tolerar muito mais do que punir. E os raros superiores que sabem punir
fazem-no em muitos países tolerando e até fomentando o mal, e punindo
intransigentemente o bem. Tudo isto é de tal maneira evidente, que ninguém
ousaria afirmar que o grande problema de nossos dias decorre do excesso de
severidade dos pais, dos extremos de recato das moças e dos exageros de
desassombro dos jovens virtuosos. Assim, pois, a que propósito se encontra em
certas penas uma tão perseverante luta contra a intolerância, e tão geral
olvido das devastações feitas pela tolerância? Há aí um mistério que talvez só
no dia do Juízo Final se possa desvendar.
Seja como for, dizendo que Jackson
foi, além de um católico intolerante, isto é intolerante no sentido e segundo o
espírito em que a Santa Igreja de Deus é intolerante, faz-se dele o mais belo
dos elogios. Dele se deve afirmar que não foi dos tíbios que causam asco ao
Senhor, dos mornos que Deus, segundo a expressão forte da Escritura, “vomita de
sua boca”, mas uma alma forte e inteiriça, que passou de péssima a excelente, e
hoje goza provavelmente a felicidade eterna.
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Com efeito, a vida de Jackson
pode ser admiravelmente explicada por aquela palavra magnífica do Espírito
Santo: “Se fosses frio ou quente eu te aceitaria; mas como és morno começo a
vomitar-te de minha boca”.
Jackson foi frio, no sentido
bíblico da palavra. Houve tempo em que a chama da Fé estava inteiramente
extinta em sua inteligência e em seu coração, inimigo ardente e militante da
Igreja, ele chegou aos extremos os mais radicais do erro, e os abraçou com
entusiasmo. Mas como não era dos mornos, dos acomodatícios, dos tíbios, dos que
se comprazem no criminoso brinquedinho intelectual de
justapor coisas que “hurlent de se trouver ensemble” [que urram de se encontrar juntas] na mesma
mentalidade, Deus teve pena dele. E desse homem frio como gelo para as coisas
do Céu, a Providência soube fazer um homem ardente e combativo, que atingiu
rapidamente, em suas obras, as culminâncias do senso
católico ao menos sob vários pontos de vista, enquanto, longe de Deus, a
multidão asquerosa - o que se vomita é por certo asqueroso - dos tíbios
continuava a acender uma vela a Deus e outra ao demônio, servindo na aparência
a dois senhores, mas rendendo homenagem, na realidade, ao príncipe das trevas. Saulo e Paulo: nisto se resume a história de Jackson.
Não se diga, nem se pretenda entretanto, que Jackson só combateu as idéias errôneas, mas poupava seus
fautores. Não é verdade. Ele era bastante viril para compreender que as idéias
não existem no vácuo, nem se propagam sem o auxílio de ninguém. As idéias são,
até certo ponto, inseparáveis daqueles que as adotam. E a mesma razão pela qual
admiramos no mais alto grau um São Tomás de Aquino - sua doutrina dá-lhe
direito a todo louvor - nos leva a detestar no mais alto grau Lutero. E assim
como, se Lutero morreu impenitente, não foram apenas suas
heresias que Deus atirou ao inferno, mas sua alma, e por isto também nós
devemos detestar não apenas a heresia mas o heresiarca, e, combatendo a
heresia, nunca devemos esquecer a transcendental importância do combate ao
heresiarca ou simplesmente ao herege.
Exatamente por ter
compreendido isto, Jackson de Figueiredo foi um batalhador audaz, inteiriço e leal.
Abominava ele as atitudes intermediárias, hoje tão em voga em certos meios.
Detestava ele as acomodações que a certas pessoas parecem hoje a suprema
sabedoria do apostolado. Abominava ele os silêncios covardes, os disfarces
indignos, as pequenas espertezas mesquinhas que muita
gente principia a considerar condição essencial para toda a atividade
apostólica inteligente. Nada disto existia em Jackson.
E se alguma coisa disto existia em outrem, ali estava Jackson
impávido, pronto para atacar, para discutir e para censurar.
* * *
Nesta ocasião, quando tanto se celebrou o
cinqüentenário de Jackson de Figueiredo, não podemos
deixar de tentar um esforço para evitar que a fisionomia moral deste magnífico
atleta de Jesus Cristo se deforme, segundo as adocicadas preferências de certos
intérpretes pouco fiéis. Jackson prestou ao Brasil um
serviço incomparável semeando em torno de si um pouco daquela intolerância
santa que é o de que mais carecemos em nosso dias. Negá-lo ou ocultá-lo
eqüivale a tirar a esse grande morto sua melhor coroa. Mas as coroas da glória
humana podem ser roubadas; dia virá em que veremos a coroa que Deus soube
reservar, por sua santa intolerância, a este batalhador benemérito.