Aprofundemos
ligeiramente os conceitos que acerca de uma reorganização internacional de
pós-guerra no último número expendíamos.
Como já
mostramos, não é na formação de vastas federações internacionais de caráter
racista - federação dos povos anglo-saxônicos,
ibéricos, etc., etc. - que a sociedade futura encontrará uma segurança que a
Liga das Nações não lhe soube dar depois de 1918. Não nos iludamos. A Liga das
Nações teve, certamente, gravíssimos defeitos de estrutura. Entretanto, esses
defeitos seriam superáveis se a Liga não padecesse, além disto, de um mal mais
profundo que não afetava sua estrutura, mas sua própria alma, isto é, a laicidade.
A ordem
internacional tem de se basear necessariamente no amor do próximo. Enquanto os
povos não se amarem, não souberem pôr um freio a suas ambições ilegítimas e
suas vaidades nacionais, não haverá ordem
internacional. E como o amor do próximo não é uma dessas insípidas e vagas ficções [...], mas uma realidade vivaz e profunda que brota
do amor de Deus; como não é possível ter verdadeiro amor de Deus quem não ama a
Nosso Senhor Jesus Cristo; e como não pode amar verdadeiramente a Nosso Senhor
Jesus Cristo quem não está na Igreja Católica, enquanto a Igreja não for reconhecida como a base do edifício
internacional, a alma das relações entre os povos e a guardiã de toda a moral,
não poderá haver na esfera internacional, para os povos, paz verdadeira. Em
outros termos, ou o mundo se converte e reproduz fielmente a visão agostiniana da Civitas Dei, em
que cada povo leva o amor de Deus a ponto de renunciar a tudo quanto lese aos
outros povos; ou, pelo contrário, o mundo será aquela cidade do demônio, em que
todos levam o amor de si mesmos a ponto de se esquecer de Deus, calcar aos pés
a moral, e fazer da violação dos direitos dos povos fracos a norma habitual de
sua conduta.
* * *
De todas as
fases em que se divide a História, foi sem dúvida a Idade Média aquela que mais se
aproximou da realização perfeita de uma civilização católica.
Na esfera
internacional, o conceito dominante era de "Cristandade". Esse conceito político tem os mais sólidos fundamentos
teológicos, e se baseia na doutrina do Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus
Cristo, no qual nos inserimos por meio do santo Batismo. Toda a tendência dos
melhores doutrinadores consistia em reconhecer ao todo homogêneo formado pelos
povos católicos, um só chefe espiritual, o Papa, e um só chefe temporal, o
Imperador. Assim, obedientes a uma só doutrina, a um só pensamento, aos
preceitos de uma só civilização - a católica - esses povos estavam sujeitos ao veredictum
paternalmente imparcial de um só juiz, o Papa; e coordenados em sua ação pelo
manto de um só monarca supremo, o Imperador.
A pseudo-reforma protestante rompeu essa maravilhosa unidade,
e retirou da alçada do tribunal internacional, que era o Papado, numerosos
povos. Rompido o elo de subordinação entre o Pai comum e tantos filhos rebeldes,
evaporou-se das relações internacionais, de modo completo, o ambiente de
família. E, à ordem cristã baseada no amor fraterno, se substituiu uma ordem
baseada na desconfiança e no ódio: é a famosa "política do
equilíbrio". Nascer do ódio, significa nascer do mal, nascer do pecado,
nascer do fracasso. E, de fato, o pecado, o fracasso e o mal foram as três
raízes mais profundas e mais ativas da nova ordem de coisas.
* * *
No que consiste
a nefanda "política do equilíbrio" praticada no mundo desde o século XVI?
Já que o amor,
a moral, a dignidade não mais atuavam na vida dos povos, era preciso substituir
esses elementos de tranqüilidade por outros. Onde encontrá-los? O que o amor não realiza, só o medo pode tentar de empreender.
Assim, planejou-se dividir a Europa em dois grandes blocos de potências aliadas
entre si. Cada um destes blocos seria suficientemente forte para conter o
outro. Do medo recíproco, nasceria a paz...
Difícil seria
encontrar utopia mais vã. Constituídos os dois famosos "blocos", cada
qual procurou atrair a si o maior número possível de aliados, quer aliciando
por promessas e ameaças a solidariedade de povos naturalmente alheios a essa
infernal rivalidade diplomática, quer ainda desarticulando as alianças do bloco
adversário, de sorte a obter o enfraquecimento da coligação das potências
rivais.
Daí o
transformar-se a vida diplomática em estéril e serpentina luta de artimanhas,
desfazendo-se hoje os frutos obtidos ontem pelo adversário, e correndo-se o risco,
amanhã, de se perder o fruto alcançado hoje. Tanta precariedade de resultados
obtidos com tanto esforço, criava no espírito de todos os estadistas a
preocupação obsedante de aproveitar a primeira
conjunção de circunstâncias felizes, a fim de vibrar contra o adversário um
golpe decisivo que aniquilasse irreparavelmente seu poder, e assim,
substituísse ao infernal equilíbrio anterior, a plácida e despreocupada
ditadura do vencedor sobre o vencido.
Tudo quanto
dissemos poderia ser observado claramente se examinássemos as lutas
tradicionais entre a França e a Casa d’Áustria,
e o "jogo de pêndulo" da Inglaterra e dos pequenos países
italianos. Essa luta mudou de aspecto sob Luiz XV,
com o famoso Renversement des aliances, selado pelo casamento do futuro Luiz XVI com a arquiduquesa Maria
Antonieta Habsburg. Já não era a Áustria que lutava contra a França, mas Áustria e França
que se coligavam contra a Prússia e Inglaterra. Mudado o agrupamento dos
parceiros, o jogo continuava sempre o mesmo, e de guerra em guerra, a miserável
"política do equilíbrio" caminhou para os desastres de Sadowa e Sedan,
de que decorreu a formação de dois outros grupos de potências, desta vez mais
fortes, mais equilibrados, mais extensos em suas ramificações internacionais do
que jamais haviam sido as coligações anteriores.
França, Rússia,
Inglaterra, de um lado. Alemanha e Áustria de outro,
constituíram os dois pólos de atração de todas as potências antes de 1914. E
precisamente porque os cânones da "política de equilíbrio" foram bem
observados, e as forças dos contendores eram iguais, longuíssima foi a guerra.
Por outro lado, porque haviam sido extensas as alianças, extensíssimo
foi o conflito.
Se o assassínio
de um príncipe austríaco na Sérvia,
deflagrou lutas em quase todos os continentes, é porque esse rastilho de fogo
correu sobre os canais de pólvora tentaculares em que a "política de
equilíbrio" tentou e conseguiu envolver o mundo. E a vitória de 1918 não
representou senão a esperança falaciosa de romper definitivamente esse
equilíbrio perigoso, substituindo-lhe o domínio ditatorial, e sob muitos
aspectos cruel, dos vencedores sobre os vencidos.