Segundo as notícias que, no momento de escrevermos
este artigo, a imprensa diária tem publicado, o drama de Pétain está chegando ao
seu epílogo. Entretanto, tem sido numerosas, em sua longa e nebulosa trajetória,
as marchas e contra marchas, de forma que, quando esta edição do LEGIONÁRIO
tiver saído à lume, não é impossível que nova contemporização tenha retardado
mais uma vez o desfecho lógico, previsto há já muito tempo. A esta altura, no entanto,
não é provável que ainda seja possível reter os acontecimentos. Assim, pois, é
útil um rápido comentário sobre o assunto.
* * *
A defesa do velho Marechal costuma ser feita da
seguinte maneira: a derrota da França foi fruto de um longo
processo de corrupção moral que minava a França há um século ou mais. Os
princípios liberais, dissolventes por sua natureza, se infiltraram em todas as
esferas da cultura francesa: arrancaram a Fé que vicejava em inúmeras almas, e
a debilitaram em outras; disseminando o ceticismo, feriram de esterilidade
todas as produções intelectuais de caracter especulativo; dando origem ao
positivismo, desviaram para um terreno inferior os lampejos do gênio francês,
que abandonou as mais altas paragens do pensamento, e se aplicou em atividades
insuficientes para esgotar toda a força de produção do talento da raça; assim,
não tornou em se aviltar o espírito público, arrancando-lhe todo o surto
tradicional, de generosidade e de grandeza; a deserção dos terrenos da metafísica
e da ética é um crime que se pune com penas severas, entre as quais as de
caracter cultural não são as menores, e por isto a literatura, a arte, o bom
gosto, as belas maneiras, que outrora haviam atingido na França a um supremo
grau de perfeição, foram decaindo gradualmente até que a França de 1939
chegasse a ser a nação valetudinária e impotente que as hordas germânicas
abateram; o constante sentido revolucionário das reformas políticas havia
abatido as instituições multisseculares que poderiam restaurar a França, e um
ensino de História totalmente falseado havia obscurecido em imensas massas de
franceses o sentido mais profundo de seu passado, e da influência tutelar de
suas tradições.
O território francês poderia continuar a ser
habitado pelos descendentes dos atuais franceses, e a França poderia continuar
a ser uma nação independente: pouco importa, o espírito francês morria aos
poucos, tinha apenas alguns anos, algumas décadas talvez, a viver, e quando os
últimos clarões desta chama se extinguissem, a França estaria tão morta quanto
morta está hoje a Grécia de Péricles, se bem que
ainda haja gregos na Grécia, e esta seja um país politicamente mais unido e
mais bem estruturado do que o amálgama de republiquetas
dos séculos clássicos.
Sobre este corpo ainda quente, de uma nação prestes
a se tornar cadáver, abateu-se a mais furiosa tormenta política. A França não
foi golpeada pelos nazistas: ela tentou suicidar-se. A incompetência criminosa
de muitos de seus estadistas e cabos de guerra, a extensão indefinível dos
tentáculos que a "quinta coluna" havia logrado deitar sobre o país,
tudo isto mostrou que as tropas de Hitler se lançaram sobre um país moral e
materialmente traído, aviltado, amordaçado, abandonado.
Feito o balanço, Hitler deve muito mais a
braços, a olhos, a ouvidos franceses sua grande vitória, do que ao vigor de
suas tropas ou a habilidade de seus generais.
Este o cenário delineado por Pétain
nas suas primeiras proclamações, depois do armistício: palavras severas e
solenes de autocrítica e de penitência, propósitos de expiação e de emenda,
tudo isto abundou nos lábios e na pena do velho Marechal, quando sobre esse
povo valetudinário ele ergueu seu vulto de ancião, procurando suster com suas
mãos trêmulas a tocha bruxuleante que desde Clóvis não cessara, até então, de iluminar o mundo.
* * *
Nossa época é cheia de curiosas e enigmáticas
contradições. O homem contemporâneo chegou ao menor grau de logicidade a que é possível
cair-se sem perder a natureza humana. A conseqüência necessária da logicidade do espírito humano é um desejo insofreável de explicar, de coordenar os motivos, de
eliminar as contradições, de estruturar as idéias, de por meio delas governar
os acontecimentos, e assim dobrar o mundo inteiro ao domínio do pensamento.
Hoje em dia, este desejo está quase extinto. As contradições as mais clamorosas
e espetaculares logram quando muito surpreender, mas já não indignam. E
enquanto as maiores contradições já não irritam, nada irrita tanto quanto a
lógica, ao menos quando posta ao serviço de princípios verdadeiros. Hoje mais
do que nunca, se odeiam as demonstrações claras e peremptórias, as deduções
impecáveis e indiscutíveis, os vastos sistemas de idéias irrepreensivelmente
harmônicas entre si. Disto tem o LEGIONÁRIO uma velha e dolorosa experiência. O
caso francês é, a este respeito, particularmente elucidativo.
Quando Leon Blum, governava a França e
as sombras do comunismo se projetavam ameaçadoras sobre Paris, o LEGIONÁRIO externou, através de inúmeros artigos,
comentários e notícias, as apreensões e a indignação que o fato lhe causava. De
franceses bolchevizantes, não recebemos um só
protesto. Estes protestos vieram - quem diria! - de fontes respeitabilíssimas,
que invocavam o patriotismo (!) como fundamento de sua atitude: Blum era francês, e qualquer ataque a ele feito atingiria
por força à própria França. Nós, entretanto, mais confiantes no valor da glória
francesa, nunca julgamos que o Sr. Blum e seus
sinistros colaboradores da C. G. T. fossem de envergadura a empanar a glória
legada por Joana d'Arc, S. Luís, e Luís XIV... Doía-nos ver, através de mil e um indícios, a
agonia moral da França, de que o governo Blum era o
mais característico sintoma. Exprimindo nossa dor, pintávamos um quadro real.
Exclamaram que exagerávamos.
Veio a guerra. Semana por semana, o LEGIONÁRIO,
enfrentando irritações sem fim, veio apontando erros, denunciando as traições,
estigmatizando as covardias que custava à França as
mais terríveis derrotas. Recebemos cartas, protestos, interpelações.
Consumou-se finalmente tudo quanto havíamos previsto. Sobre esse cenário de
catástrofe, ergue-se Pétain e afirma precisamente o
que dizíamos; aqueles que ainda ontem nos censuravam, aplaudiram com frenesi o
velho cabo de guerra. Dir-se-ia que nunca haviam pensado outra coisa.
* * *
Por isto, aplaudiram muitas pessoas as afirmações
que, quando pronunciadas por nós tanto as haviam irritado. Pétain
acentuou que o reerguimento político estava
condicionado a um reerguimento moral, que só se
poderia obter ligando novamente as instituições, a cultura e as massas às
velhas fontes históricas e tradicionais de inspiração, a que devem sua glória a
França de outrora. Para isto, o armistício feito em Compiègne parecia talhado sob
medida. A Alemanha se comprometia a
respeitar uma zona do território francês, colocada sob o governo soberano do
Marechal. Na zona ocupada - outro compromisso nazista - a ação das autoridades
teria apenas por objetivo assegurar a submissão do povo, a ordem pública, e
certas vantagens econômicas. Estava no espírito do armistício, implícita nas
próprias razões com que o Marechal justificava o ato de Compiègne,
a garantia de que o III Reich não tentaria em território francês ocupado ou
livre, qualquer penetração ideológica, qualquer organização de "quinta
coluna", qualquer pressão política ou militar direta ou indireta.
Tudo isto posto, e assim assegurado - Hitler prometera! -
poderia a França deixar que a Inglaterra sumisse do mapa, e que a Alemanha
fizesse das nações francófilas - Polônia,
Checoslováquia, Bélgica, Holanda, Luxemburgo - o que entendesse. A França se
entregaria por seu lado a um paciente trabalho de reestruturação interna,
emergindo recristianisada e remoçada; de uma Europa
reconstruída pelas mãos férreas do senhor e dominador do III Reich.
Não é preciso ser muito atilado para formular, de
encontro a todo este belo castelo de cartas, uma objeção: que eficácia teria um
trabalho de recristianisação e reconstrução francesas
sobre bases diametralmente opostas às que a dominação nazista está impondo em
toda a Europa? Uma França cristã não seria uma França anti-germânica,
mas seria certamente uma França anti-nazista. Lado a
lado, não haveria lugar, na Europa, para a irradiação cultural e o prestígio de
uma França genuinamente católica, e a ditadura ideológica e política de uma
Alemanha nazista e imperialista. Uma se atiraria necessariamente sobre a outra.
A ser sincero o plano do velho Marechal, faria ele da França precisamente o
oposto do que Hitler quereria que ela fosse para a realização desse plano,
ingenuamente, candidamente, valetudinariamente, ou...
perfeitamente, Pétain apostava,
entretanto, para a França uma colaboração, a de Hitler, e uma garantia, isto é
a palavra de honra do vencedor, os "farrapos de papel" em que ele se
obrigara a respeitar a integridade territorial da França livre, a integridade
ideológica, cultural, moral, da França toda.
A colaboração de Hitler para um plano oposto a ele!
A promessa de Hitler, esta desprestigiadíssima e falaciosíssima garantia que costuma constituir um penhor
seguro de que sucederá precisamente o contrário do que foi prometido, eram
essas as bases, essas as garantias, essas as perspectivas que Pétain encontrava,
no momento da catástrofe.
A ingenuidade não poderia ir mais longe. Ou,
digamos melhor, tão longe a ingenuidade não pode ir.
Dissemô-lo. Escrevemô-lo.
Criticaram-nos: aí estão os fatos.