Nos autores espirituais, é freqüente falar-se do
“bom odor” de Nosso Senhor Jesus Cristo, isto é do perfume das virtudes
evangélicas que atrai as almas e fá-las correr nas sendas da santificação,
caminhando sobre as pegadas do Divino Mestre.
Este “bom odor” de Nosso Senhor Jesus Cristo
exprime o que a Santa Igreja Católica tem de belo e atraente, quer em sua
doutrina, quer em sua organização, quer ainda em sua vida. Evidentemente, trata-se
aí de uma beleza objetiva, que só pode ser percebida e admirada pelas
inteligências retas e pelas almas de boa vontade. Não faltarão, entretanto, em
todo o decurso dos séculos, pessoas de formação defeituosa, que odeiam a
verdade e abominam o bem, e para as quais, implicitamente, o “bom odor” de
Nosso Senhor Jesus Cristo causará uma impressão detestável, enquanto lhes
agradarem as emanações mefíticas dos vícios e do inferno.
Entre essas duas grandes categorias de homens, os
que “correm atrás do bom odor de Nosso Senhor Jesus Cristo”, e os que fogem
desse “odor” para respirar as emanações pútridas do vício há, infelizmente, uma
imensa categoria de seres que gostam ao mesmo tempo de uma e outra coisa, dos
perfumes do Céu e das emanações do inferno, detestando sinceramente, quer os
que desejariam arrastá-las para o alto, quer para baixo. Neste dia de
Pentecostes, é para estas almas que escrevemos algumas linhas.
* * *
A realidade é mais complexa do que poderia parecer
através de uma análise superficial da alegoria dos odores do Céu e das
exalações do Inferno. Nem é verdade que ao respirarmos os odores do Céu só
sintamos satisfação, nem que ao respirarmos as emanações do inferno só sintamos
desagrado. O pecado original nos fez tais que, compreendendo embora a solidez
das verdades que a Igreja prega e a beleza das virtudes que preceitua, sentimos
inclinação para o erro e para o mal, ao qual, por defeito nosso, voltamos viva
e estranha complacência. Reciprocamente, se bem que compreendamos perfeitamente
para onde nos conduz o erro e a fealdade dos vícios e pecados, sentimos uma
inclinação vivaz para o mal em que muitas vezes nos deleitamos. Assim, é
preciso ter um verdadeiro heroísmo, por vezes, para trilharmos os caminhos
perfumados pelo “bom odor de Nosso Senhor Jesus Cristo”, e para que vençamos as
seduções do inferno.
Se muitos homens acabam seguindo uma orientação
uniforme, para o alto ou para baixo, muitos outros, pelo contrário, ficam
eternamente na situação intermediária, na zona limítrofe entre o bem e o mal,
sem arderem de vida sob a ação da graça, nem estarem inteiramente gélidos na
morte do pecado. É deles que disse Nosso Senhor: “Se fosses frio ou quente, Eu
te aceitaria, mas como és morno começo a vomitar-te de minha boca”.
* * *
Mas há muitos meios de se ser morno. Não são
somente mornos os que vivem ora no pecado ora na virtude. Também são mornos, se
bem que de modo menos grave, aqueles que, vivendo habitualmente na virtude, a
arrastam penosamente como um fardo, estritamente colocados no terreno do minimalismo, e firmemente deliberados a não elevar suas
preocupações além da esfera do simples combate ao pecado mortal. Na ordem
moral, há muitos mornos assim. Na ordem intelectual, são mornos que aceitam a
doutrina católica, mas o fazem sem entusiasmo e sem calor, pelo que amam
certamente as grandes verdades enunciadas pela Igreja, mas o fazem com tal
tibieza que detestam todas as virtudes radicais, todas as conseqüências
profundas, todas as aplicações palpitantes e intransigentes de nossa doutrina.
Amam a verdade, mas quanto mais ela se parecer com o erro, quanto mais ela
transigir com a inverdade, tanto mais a amarão. E pelo contrário, se chegam a
amar as verdades intransigentes, as verdades combatidas, as verdades odiadas
pelo espírito da época, fazem-no como quem ama de mau humor, com tristeza de
amar, porque não tem remédio senão amar.
* * *
Indiscutivelmente, é nestas categorias de pessoas
que se encontram os piores inimigos do LEGIONÁRIO. Pessoas que se irritam muito
mais com nosso radicalismo na verdade e no bem, do que se irritam com o
radicalismo dos maus no erro e no mal. Para os que negam a verdade ou
transgridem as leis da moral, sentem espontaneamente todas as entranhas de sua
caridade comover-se. Para os que acusam, não de uma falta de amor à verdade e
ao bem, mas de exagero nestas virtudes, votam uma antipatia que custa a se
manter nos limites da caridade fraterna... e com muita freqüência não logram
ser vitoriosos neste esforço. Em outros termos, toda a sua simpatia, toda sua
indulgência corre natural e espontaneamente para os que erram por deficiência de
bem ou de verdade. Toda a sua irritação se volta para aqueles que acusam de
errar por excesso de verdade ou de bem.
Como, entretanto, são diferentes no terreno de seus
afetos particulares! Irritar-se-iam com um amigo que lhe devotasse uma amizade
exagerada, entusiasmo excessivo, admiração sem limites? Não. Teriam de lutar
para reconhecer que realmente era exagerada a amizade, excessivo o entusiasmo e
servil a admiração. Mas com que facilidade se irritariam se alguém as
caluniasse ou injuriasse!
Por que não amam elas a Igreja como se amam a si
próprios, mostrando-se fáceis em perdoar os delitos de excesso, e difíceis em
perdoar os delitos de falta e omissão?
Evidentemente, é porque elas se amam a si próprias
profundamente, e à Igreja superficialmente. “Totalitárias” no que lhes diz
respeito, são “minimalistas” no que diz respeito à Igreja. O curso de sua
indulgência mostra claramente a natureza de suas imperfeições e de sua má
inclinação.
Que surpresa poderia haver, pois, em que almas tais
se manifestassem irritadas com todas as verdades cuja aceitação é penosa, com a
enunciação de todos os deveres cuja prática é difícil?
Francamente, tais inimigos honram aos que os
possuem. Sua irritação constitui um atestado de dever cumprido. E é muito mais
por eles próprios do que por nós, que devemos desejar sua reconciliação
conosco.
* * *
Neste dia de Pentecostes, dia de fogo e de amor,
dia em que o afeto sobrenatural se abrasa e inspira atitudes que, como as dos
Apóstolos de tão veementes e radicais chegaram até a sugerir a idéia da
ebriedade, peçam os mornos e os tíbios um pouco daquela centelha que os
ressuscitará para a vida plena da graça e da verdade. De nossa parte, se tantos
esforços que fazemos puderem render neste sentido simplesmente 1 por cento, já
estaremos plenamente recompensados.