O LEGIONÁRIO teve a dolorosa satisfação de publicar
em seu último número a Pastoral Coletiva do Episcopado alemão, em que os prelados do Reich denunciam a seus diocesanos
e ao mundo inteiro os extremos a que chegou a perseguição religiosa nas regiões
dominadas pelo paganismo nazista. Fica assim fechada a boca - ao menos
temporariamente - aos mil e um sofistas que, intencionalmente emboscados em
certos meios católicos, levam a repetir que a perseguição religiosa não é, na
Alemanha, tão cruel quanto se costuma afirmar, ou que até já cessou
inteiramente. O magnífico documento do Episcopado alemão constitui, para o povo
germânico, um legítimo título de glória, que desafronta seus brios de todo o
labéu contra eles lançado pelas ignominias do nazismo. A Pastoral prova que o
nazismo fracassou no seu intento fundamental, que consistia
em dividir a Hierarquia e arrastá-la, a ela também, para a ruptura com Roma.
Nós católicos sabemos como seria pueril qualquer tentativa neste sentido,
porque sabemos o que é um Bispo da Santa Igreja, o que é um Sacerdote católico,
o que é a divina solidez do Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas para
os nazistas, que medem muitas vezes as coisas por padrões exclusivamente
naturais, não há diferença entre um Bispo católico ou um daqueles burocratas
indolentes e sem convicções precisas e firmes que nas seitas protestantes
recebem o titulo de Bispos. Não pode um nazista - ao menos o nazista “standard”
- compreender a diferença que vai de um sacerdote católico para um “pastor”
protestante - aquele autêntico Pastor e este fautor de heresias metido em pele
de ovelha de ministro de Jesus Cristo. E, por isto, o nazismo parece supor que
a desagregação da Igreja Católica se faria com a mesma rapidez com que se
decompôs o protestantismo. Os protestantes reagem contra o nazismo. Ao menos
quanto a alguns, é isto verdade. Mas, à medida que reagem, eles são obrigados a
se distanciar de seus próprios princípios, e isto a tal ponto que precisamente
do mais famoso dos lideres protestantes anti-nazistas
correu insistentemente a notícia de que se converteria ao catolicismo. Os
elementos protestantes que não se quiseram deixar tragar pelo neo-paganismo deverão necessariamente se converter ao
catolicismo. E, assim, a decomposição do protestantismo é acelerada não só pela
defecção de muitos de seus sequazes, mas ainda pela própria reação que alguns
destes querem desenvolver contra o neo-paganismo. A
lepra da doutrina de Lutero parece destinada a
ser varrida da face da terra. As fileiras católicas, pelo contrário, continuam
íntegras: Episcopado fortemente unido a Roma, fiéis fortemente unidos ao
Episcopado - a Pastoral revela que na Baviera, segundo o último recenseamento, 95% dos habitantes se
declararam católicos apesar dos graves prejuízos que com isto sofreram - e, em
suma, enquanto a perseguição no pântano doutrinário que é o
protestantismo, inconsistente, vago, desorganizado como é ele, se fragmenta de
encontro à muralha do Catolicismo e capitula vergonhosamente ante o front interno
alemão, que é o front
católico, rijo, coeso, firme, diariamente invulnerável.
É esse um exemplo magnífico que nossos irmãos
católicos da Alemanha nos dão. Imitemo-los no destemor na defesa apaixonada e
incondicional dos direitos da Santa Igreja.
* * *
Os católicos alemães prestaram ainda, aos católicos
de todos os demais países europeus, outro serviço, serviço aliás ingrato e
árduo, que caro lhes custou: sua experiência de combate serviu para que em
todos os países europeus ameaçados de totalitarismo, os católicos desejem
imitar tudo [o] que [para] seus irmãos alemães, deu bom resultado, e evitem
cuidadosamente quanto lhes possa ter acarretado conseqüências desfavoráveis.
O nazismo não chegou imediatamente, na Alemanha,
aos extremos de rigor que atingiu em nossos dias. Primeiramente, preparou a
armadilha. Depois, vendo que o laço já estava atado à vítima, começou por
apertá-lo pouco, e mais um pouco, e sempre mais um pouco, até chegar às
angústias da situação presente. Os católicos, no início, se encontraram em
atitude difícil. Como agir? Quais eram as verdadeiras intenções do nazismo?
Deter-se-ia ele, na luta contra o Catolicismo, em limites insuportáveis? Ou
tentaria a extinção radical e imediata da Religião? No terreno da imprensa católica, por exemplo - o grande nervo do
apostolado em nossos dias - a tática nazista foi muito fina. Os nazistas não
fecharam imediatamente todos os jornais católicos, mas experimentaram antes sua
têmpera por meio de pequenas restrições: que não falassem sobre isto ou sobre
aquilo, que não se excedessem neste ou naquele ponto, que capitulassem neste ou
naquele terreno. As instruções dos totalitários não vinham apenas sob forma
odiosa. Formulavam muitas vezes, entre duas ou três proibições verdadeiramente
irritantes, e dignas de imediato e vigoroso revide, conselhos evidentemente
conformes aos mais legítimos interesses temporais da Alemanha. Era um
aprendizado suave para escravizar a Igreja. Aos poucos, e muito aos poucos,
tentava-se tirar à imprensa católica toda a noção de sua verdadeira
independência.
Ora sempre que uma imprensa sabe ser católica -
isto é, sempre que ela tem as bênçãos da Hierarquia, que constituem garantia
única e insubstituível de que ela cumpre sua missão e é autêntico arauto da
doutrina de Nosso Senhor - ela é o reflexo do pensamento da Igreja, sua
liberdade de pensar é um reflexo da liberdade divina e insuprimível
que tem a Igreja Católica de ensinar a doutrina do Evangelho, e qualquer
restrição a essa liberdade é, para todos os católicos, surpremamente
odiosa. Com efeito, disse um Santo que Nosso Senhor Jesus Cristo "nada ama
neste mundo tanto, quanto a liberdade da Igreja". "Quanto a liberdade
da imprensa católica", poderia portanto ter dito esse Santo, se a seu
tempo já existisse a imprensa.
Isto posto, como agir? Alguns elementos
recomendaram que se cedesse. Outros quiseram a luta declarada, franca, aberta.
Esta diversidade de atitudes bastou para prejudicar os católicos. Os nazistas
estrangularam os que queriam ceder, privaram do apoio deles os animosos, e os
reduziram ao silêncio por uma odiosa prepotência. Por isto, hoje, a imprensa
católica não existe mais no III Reich, e só reaparecerá no dia em que a justiça
divina esmagar os atuais perseguidores da Igreja na Alemanha, como esmagou Herodes ou Juliano o Apóstata.
Os católicos de toda a Europa aproveitaram com esta
experiência que em termos quase idênticos se deu quanto a todas as outras
manifestações da vida católica na Alemanha. O que ali aconteceu prova
fartamente que não é com recuos que se ganha alguma coisa em matéria de
liberdade religiosa. Mais vale a pena sustentar a luta em seus primórdios e
jogar 100% no início, do que lutar quando o adversário já arrancou das mãos da
Igreja muitas armas. Ceder nunca, e nada em matéria substancial. Melhor teria
sido que as obras de apostolado católicas alemãs fossem fechadas logo de início
- este fato teria causado indignação - do que lhes fosse aos poucos sendo
tirada a seiva da liberdade, de sorte que, quando elas morreram, sua morte
causou tão pouca surpresa quanto a queda de uma folha seca, ou de um fruto
velho. Perante a perseguição totalitária, que procura anemiar
as obras católicas antes de as matar, a atitude dos católicos em toda a Europa
deve ser a da Companhia de Jesus quando foi posta na alternativa de fechar-se
ou de se transformar. O geral daquela briosa milícia deu a resposta famosa, à
proposta de reforma das regras: sint ut sunt, aut
non sint, sejam o que
são, ou morram de uma vez. Assim, também os católicos autênticos e inteligentes
preferem unanimemente que suas obras sejam o que são, ou não sejam de todo.
* * *
Em mais de um país europeu, o nazismo está tendendo
aos mesmos processos que empregou com êxito na Alemanha. Mas está fracassando.
Os católicos já compreenderam que não convém ceder. Que luta protelada é luta
agravada, e quase nunca luta evitada. E que, portanto, é melhor desde logo
fazer disparar todas as grandes baterias, do que ceder sem glórias, sem fruto e
sem vantagem.
"Na estacada", é hoje a palavra de ordem
de todos os católicos europeus.