Uma das conseqüências mais curiosas do zelo e do
entusiasmo que as coisas da Igreja costumam despertar nas almas verdadeiramente
fiéis é, sem dúvida, a extrema dificuldade que os realizadores de certas obras
católicas encontram por vezes em contentar todos os gostos e conciliar todas as
opiniões, não direi nos ambientes ímpios e hostis à Igreja — o que é explicabilíssimo — mas ainda em certos ambientes
perfeitamente ortodoxos.
É isto, por exemplo, o que se dá com a imprensa
católica, e o LEGIONÁRIO tem, a este respeito, em seus arquivos, documentos
colhidos em uma longa experiência. Por maior que seja o esforço de qualquer
jornalista católico, ser-lhe-á impossível contentar indistintamente a todos os
leitores. Sem falar na natural oposição que certas atitudes desassombradas
suscitam em ambientes encharcados de liberalismo ou de nacionalismo, até mesmo
os mais insignificantes pormenores da apresentação material são objetos de
cartas, anônimas ou não, que indicam
às vezes um descontentamento vivaz. Esse descontentamento se exprime,
evidentemente, segundo o grau de educação e de formação de quem escreve, e
segundo seu temperamento. Há descontentamentos cordiais, moderados, sóbrios. Há
descontentamentos agastados, apoplécticos, truculentos. Há descontentamentos
fundados em motivos se não verdadeiros, ao menos relativamente inteligentes, e
há também descontentamentos absolutamente irracionais, de caráter emotivo e a-lógico, que denotam o destramelamento
nervoso e psicológico de quem os sente. Há descontentamentos pertinazes e há
outros efêmeros. Enfim, ao lado de muito aplauso confortador, de muita
solidariedade comovedora e por vezes até heróica, não falta o cortejo lacrimejante ou iracundo dos que discordam e urram, choram,
gemem, resmungam ou falam com polidez, conforme cada caso.
Seria interessante ler-se as cartas anônimas ou não
que recebemos. Por exemplo, sempre que o LEGIONÁRIO tem uma referencia ao atual
regime espanhol e externa suas apreensões pelo estado evidentemente melindroso
em que se encontram, na Espanha, as relações entre a Igreja e o Estado,
recebemos — e isto há anos — uma carta longa, ora injuriosa ora afetuosa, às
vezes espirituosa e outras vezes insípida, de um missivista que supõe ser
anônimo... e que conhecemos perfeitamente. Uma só providência, por pequena que
fosse, de nossa parte, estancaria a facúndia desse missivista. Entretanto ele,
acobertado sempre por seu suposto anonimato, imagina que não o conhecemos. Que
fisionomia fará ele, quando ler estas linhas? Não sabemos. Pode ele ficar,
porém, inteiramente tranqüilo: tomamos aqui o compromisso de não violar o
segredo que tão claramente desvendamos. E assim por diante as críticas se
multiplicam. Alguém teve, certa vez, a paciência de anotar todo, ou parte do
LEGIONÁRIO, não me lembro bem, assinalando com tinta todos os tratamentos
honoríficos dispensados às pessoas a quem nos referíamos: Ex.mo Rev.mo Sr. D.,
Rev.mo. Sr. Pe., etc., etc. À margem um comentário: em lugar de tantos
tratamentos cerimoniosos, não seria preferível poupar espaço para notícias
úteis? Como se fossem inútil ou mal empregado o espaço que destinamos
intencionalmente para demostrar o respeito que devemos à Autoridade
Eclesiástica, ensinando-o ao mesmo tempo a todos. Outro missivista
escreveu-nos, implicando com o número “7” dos “7 Dias em revista”. Outro ainda,
que gostava dessa secção, começou a discordar das
idéias dela. Por que? Argumentação deficiente? Nunca. Suas idéias — oh, lógica, onde te escondestes? — começavam a se modificar
porque ele não podia suportar a palavra “confere”, que freqüentemente se
utiliza naquela secção. Como se uma palavra, ainda
que fosse antipática, tivesse o condão de mudar as idéias de alguém, não porque
ela contém algum erro, mas simplesmente porque “dá nos nervos”!
Ora é curioso notar que todas essas pessoas
passaram sua vida inteira lendo jornais leigos, e nunca se sentiram no direito
de se indignar com tantas coisas. Jamais lhes passou pela cabeça escrever ao
diretor de um jornal leigo, reclamando o excesso de cortesia com que se refere
às pessoas, ou contra um vocábulo irritante ou suposto tal, empregado por um
colaborador, ou ainda contra alguma disposição gráfica antipática?
Evidentemente não. Por que, então, para o jornal católico,
tanto rigor?
Em grande parte, porque o jornal católico não é
visto com a indiferença com que se vêm as coisa profanas. Todo o mundo gostaria
dele perfeito. E como a idéia de perfeição varia, em matéria literária ou
jornalística, segundo cada pessoa, cada qual gostaria de alterar alguma coisa
no jornal católico que recebe.
* * *
É esse, em todos os termos, o fato que ocorre
presentemente com os preparativos do IV Congresso Eucarístico Nacional. Todas
as almas piedosas estão como que em suspenso diante da magnífica perspectiva
dos dias que vamos viver em setembro. Cada qual antecipa o prazer espiritual
desses dias, imaginando-os à guisa de sua fantasia de forma a corresponder a
todas as exigências de seu gosto e de sua sensibilidade.
Evidentemente, ainda que as maiores sumidades do
globo colaborassem na confecção dos preparativos materiais do Congresso, não
poderiam satisfazer a pessoas colocadas em tal estado de espirito, e,
implicitamente, não poderiam evitar críticas ou censuras de toda a espécie.
* * *
É preciso que se note, entretanto, que essas
críticas, mesmo quando expressas de forma perfeitamente digna e respeitosa, são
nocivas. Elas entibiam os entusiasmos, desarticulam as iniciativas, dividem os
espíritos e criam um ambiente que torna qualquer trabalho coletivo muito
difícil.
Não queremos dizer, é obvio, que se é obrigado a
aceitar como dogmas de Fé que tal objeto não lucrasse em ser mais alto ou mais
baixo, mais largo ou mais estreito, mais ornamentado ou mais simples; ou que
tal local seja o melhor, ou que tal cor seja a mais bela, ou que tal hora seja
a mais oportuna. Deslocaríamos os verdadeiros termos do problema, se
sustentássemos tal. Não entramos, aqui, na apreciação objetiva de qualquer
crítica: não há discussão possível sobre gosto. Mas, de toda e qualquer forma,
é absolutamente preciso não perder de vista que a crítica corre célere, facilmente
se transforma em burburinho e este, por sua vez, facilmente se transforma em
desordem.
Assim, o próprio interesse, o próprio esplendor do IV
Congresso Eucarístico Nacional exige que cada qual faça calar seus sentimentos
individuais, tendo em vista exclusivamente que, ainda que possivelmente justa,
a crítica pode ser nociva.
Por outro lado, o princípio da disciplina ocupa
neste, como em todos os assuntos, uma posição central. Desde que a autoridade a
quem incumbia decidir decidiu, ouvindo quem lhe mereceu toda a confiança, a
disciplina nos impõe silêncio e acatamento ao que ficou estabelecido. Este ato
de obediência será muito mais útil ao Congresso, oferecido a Nosso Senhor como
sacrifício, do que mil comentários ou críticas, por mais sábias, mais
procedentes, mais lógicas que fossem.
* * *
De propósito não quisemos penetrar no terreno
ingrato de uma demonstração de argumentação em favor do que foi ou será feito.
Não há argumentos em matéria de gosto, como dissemos. E, finalmente, a
disciplina consiste em calar e obedecer quando não se está de acordo, porque a
obediência ao que se aplaude é muito suave. E, por isto, queremos sugerir às
pessoas que tem sempre mais uma palavra a dizer, que considerem as graves
razões que apontamos, e saibam ter a disciplina que Nosso Senhor exige. Este
silêncio respeitoso e que a nenhum entusiasmo arrefece, será certamente de
grande valor aos olhos de Deus.