As oportuníssimas declarações de S. Eminência o Cardeal
Arcebispo do Rio de Janeiro vieram pôr um ponto final na celeuma levantada a
propósito da atividade dos sacerdotes estrangeiros entre nós. Afastou-se, com
isto, qualquer perigo de se transformar a reação patriótica contra as agressões
cristãs de que o Brasil foi vítima, em um movimento chauvinista no pior sentido
da palavra, isto é, um jacobinismo de tal maneira tacanho e estreito que se voltava
contra o que há de mais típico na Igreja, que é o seu caráter católico e
universal.
Nunca será
suficiente acentuar que, se bem que tenha agido exclusivamente como Pastor e
Príncipe da Igreja, S. Eminência o Cardeal Dom Sebastião Leme prestou, com a sua
atitude suave e firme, um inestimável serviço ao País, eliminando com prudência
e sabedoria um problema que viria criar inutilmente uma grave crise interna
entre nós.
Desanuviada
esta parte de nossos horizontes, devemos abordar agora outra questão, que diz
respeito ao sentido da guerra.
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É evidente que
o grande motivo que levou nosso governo a declarar guerra ao Eixo foi o
desagravo do brio nacional duramente golpeado com o afundamento de navios
brasileiros em nossas próprias águas territoriais. Entretanto, convém
acrescentar que esta guerra tem repercussões ideológicas importantes, as quais
não podem nem devem ser indiferentes à opinião católica. Esta afirmação assume
um aspecto de evidência meridiana, desde que se tome
em consideração que, ganha a guerra pela Alemanha, o flagelo nazista se
estenderá sobre toda a terra, acarretando implicitamente uma perseguição
religiosa em comparação da qual parecerão insignificantes as mais graves
perseguições que a Igreja tenha sofrido em outros tempos. Todo católico tem
duas pátrias, uma espiritual que é a Igreja, e outra temporal.
Os interesses
de ambas coincidem plenamente. Não é só como brasileiros mas ainda como
católicos que devemos lutar resolutamente.
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Não se pode
afirmar simplesmente que os interesses da Igreja "coincidem" com os
da Pátria: eles se interpenetram. Com efeito, o Brasil só será idêntico a si
mesmo, só conservará a continuidade de seu espírito - no que conste em essência
a sobrevivência de uma Nação - se se conservar
católico no sentido mais pleno e radical desta insofismável palavra.
Assim, defender
a integridade do Brasil, a integridade de seu espírito, antes mesmo da
inviolabilidade de suas sagradas fronteiras geográficas.
Reciprocamente,
defender as fronteiras brasileiras é insigne obra de catolicidade, não só
porque o patriotismo é uma virtude sobrenatural que a Igreja sempre pregou,
como ainda porque defender o Brasil é defender uma das maiores potências
católicas do mundo.
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Tudo isso
explica porque, combatendo o nazismo, devemos fazê-lo sustentando sua essencial
identidade com o comunismo. É ridículo e antipatriótico pretender-se que o
estado de beligerância em que se encontra o Brasil nos deve levar a qualquer
atitude de complacência, dentro de nossas fronteiras, com elementos direta ou
indiretamente suspeitos de comunismo. É insigne desserviço prestado à Igreja e
à Pátria. O problema da repressão ao comunismo não afeta nossa política
externa. É uma questão doméstica, na qual nos devemos mostrar absolutamente
intransigentes, porque a doutrina de Marx é, tanto
quanto sua sósia nazista, inimiga capital do Brasil e da Civilização Católica e
por tal título merece ser tratada com a única estratégia que convém na luta
contra inimigos capitais: a intransigência.