O conhecido jornalista Cristóvão Dantas acaba de fazer, em
um artigo publicado no “Diário da Noite”, interessante comentário acerca da
futura situação política do Extremo Oriente. E como os problemas debatidos
naquele artigo se relacionam, muito de perto, com a expansão missionária que a
Santa Igreja coloca particularmente na ordem do dia durante o mês de outubro,
será interessante que lhes consagremos algumas linhas.
* * *
Mostra o Sr. Cristóvão Dantas que,
qualquer que seja o desfecho da presente conflagração mundial, quer a vitória
caiba à China quer ao Japão no Extremo Oriente, uma coisa é absolutamente
certa: o sentimento regionalista se desenvolveu de um
e outro lado das trincheiras que dividem presentemente a raça amarela, e
qualquer dos contendores, obtida a palma da vitória, desta se servirá para
escorraçar do litoral asiático do Oceano Pacífico toda a influência político-militar da Europa.
Há algum tempo atrás, missionário
muito informado dos assuntos chineses fazia, aqui, idêntica declaração. Dizia
ele que os chineses, e não somente os japoneses, influenciados talvez pelo
próprio Ocidente que se consome em uma febre de nacionalismo intolerante e
exagerado, têm como indiscutível que sua vitória marcará a eliminação da
hegemonia européia no Extremo Oriente e a afirmação definitiva do domínio amarelo em
toda a Ásia oriental. Quanto a esta tese, chineses e nipões
estão de acordo: o Oriente asiático é para os asiáticos orientais. A luta entre
os dois povos versa somente sobre qual dos dois deterá nas mãos o cetro da
hegemonia.
É óbvio que esse movimento terá outras
repercussões. Assim, na Índia o regionalismo
racista se acentuará fortemente, com a vitória, quer seja ela obtida pelos
chineses quer pelos japoneses. E, em última análise, o espetáculo que teremos
diante de nós consistirá na formação de vastos blocos raciais e nacionalistas
no Extremo Oriente, todos acordes em impedir qualquer domínio ocidental
naquelas plagas.
Para completar o quadro, repitamos aqui
o que por mais de uma vez o LEGIONÁRIO tem publicado. O êxito do paganismo
europeu encabeçado pelo Sr. Adolph Hitler despertou
consideravelmente no Extremo Oriente a ressurreição dos velhos cultos pagãos.
Outrora, o paganismo representava, no Oriente, uma posição que começava a se
envergonhar de si mesma, que se sentia à margem do progresso e da civilização,
definitivamente superada e tornada anacrônica pela penetração triunfante da
influência ocidental. Mas as coisas mudaram. E os bonzos, brâmanes, etc., já
não vêm porque não hão de adorar com desenvoltura seus deuses quando, em pleno
Ocidente, um Sr. Hitler, um Sr. Rosenberg, etc.
caterva, adoram ostensivamente o sol, a primavera, a raça e outros deuses do
mesmo estilo.
Daí um renascimento do paganismo no
Oriente, que já passou do Japão para a China e Coréia, e daí para a Indochina e
Índia. Não espantará que conquiste, mesmo, as populações indígenas da Oceania.
Diante de todo esse movimento, em que
posição ficam as missões católicas? Eis o grande problema que nosso coração de
fiéis de Jesus Cristo formula. E infelizmente, se bem que seja cedo para se lhe
dar resposta cabal, força é convir em que os primeiros elementos que se
delineiam para uma solução são contristadores.
No Extremo Oriente se confundem
Cristianismo e Ocidente. Nega-se a distinção essencial existente entre a Igreja
Católica e certas expressões odiosas de uma cultura que já não é dela senão em
alguns de seus traços mais vagos e mais gerais. E não é só. O que o Catolicismo
tem de mais típico, de mais característico, é representado como produto genuíno
de um espírito alienígena que no Extremo Oriente não pode e não deve medrar.
Quanto à submissão a Roma papal, ela é apresentada, pelos vanguardeiros do
movimento pan-asiático, como um vínculo insuportável,
que torna a Igreja incompatível com os anseios mais profundos e insopitáveis da nova mentalidade do Extremo Oriente.
Em outros termos, trabalha-se na Ásia
para, guerreando o Ocidente, expulsar também dali toda a obra benemérita dos
missionários católicos.
* * *
Em que sentido, se deve orientar, à
vista de tudo isto, a atitude missionária dos católicos ocidentais?
Seria longo dar uma justificativa
completa dos vários princípios que, a este respeito, julgamos interessante
enunciar. Mas, ao menos em rápidas palavras, digamos alguma coisa sobre cada um
deles.
Antes de tudo, devemos estabelecer uma
distinção forte e clara entre Ocidente e Igreja. O Santo Padre Pio XI, em termos de uma
energia que, neste assunto, talvez não tenha sido superada por qualquer de seus
predecessores, fustigou o louco intento de certos governos de transformar a
obra missionária em meio de penetração nacionalista. São muitas e
impressionantes as declarações em que o grande Pontífice acentua que as benemeritíssimas Ordens e Congregações Religiosas que se
dedicam ao apostolado missionário conquistam terras e almas, não para o domínio
de um determinado povo, nem sequer para a grandeza de alguns institutos
católicos, mas única e exclusivamente para Nosso Senhor Jesus Cristo e sua
esposa mística, a Santa Igreja. Por maiores que sejam as vantagens auferidas
pela obra missionária como ocultar suas verdadeiras finalidades sob pretexto de
expansão nacionalitária, deve ela renunciar
absolutamente a tal. Ou a obra missionária é feita com espírito de Fé, ou não
vencerá. E o espírito de Fé proíbe imperiosamente que se transforme a pregação
dos princípios católicos em um pretexto para ação nacionalista. Esta atitude da
Santa Sé produziu frutos fecundíssimos. E ainda
recentemente pudemos admirar, na exposição missionária reunida por ocasião do
Congresso Eucarístico, o respeito e até o entusiasmo que as missões católicas
professam pela belíssima arte e alta cultura de cada país missionário.
Sobretudo os "stands" a cargo dos RR.PP.
Jesuítas e do Verbo Divino são ricos em objetos de arte do Oriente, foram
eloqüentíssimos neste sentido. No destes últimos, notava-se uma série
impressionante de quadros chineses admiráveis, tendo por tema cenas
evangélicas. Diga-se de passagem que qualquer receio manifestado a propósito da
ação eventualmente desnacionalisadora dos
Missionários admiráveis que trabalham no nosso interior se mostra, com isto,
inteiramente infundado.
Em segundo lugar, é preciso acentuar
fortemente que a Igreja não endossa, de modo algum, a civilização e a cultura
ocidentais como hoje se encontram. O mundo ocidental é um mundo que apostatou.
E suas obras, mesmo as mais brilhantes, trazem recôndito, na medula, o veneno
de todas as apostasias: a corrupção, a
desorganização, a morte. A Igreja não quer, não pode endossar, não endossa e
não endossará jamais alguns dos frutos da penetração ocidental no Oriente, verdadeiramente
nefastíssimos, que tiveram como conseqüência a
subversão de uma ordem de coisas rotineira, é certa, mas milenar e impregnada
de uma incontestável grandeza, e sua substituição por um progresso febricitante,
que aproxima a humanidade não da vida e da vitória, mas do caos e da ruína.
As obras boas dos apóstatas levam
consigo a mácula da apostasia, enquanto eles não se regeneram. E, por isto,
todo o progresso contemporâneo de caráter material - que é bom - manejado por
homens ímpios e perversos, tem por fruto o mal.
Estes são os pontos em que podemos e
devemos fazer aos legítimos ressentimentos dos orientais as justas concessões a
que tem direito.
Entretanto, há também erros a que é
preciso resistir, e resistir de frente.
Antes de tudo, é preciso bradar a este
Oriente que se transvia que é falso, é errôneo, é injusto pretender que a
dependência de Roma significa a dependência da Europa. Depender da Roma dos
Papas é depender de Nosso Senhor Jesus Cristo, e tão somente dele. A prova
disto está inconcussa e meridianamente clara no
exemplo dos povos da América Latina. Católicos todos eles, proclamaram suas
independências quanto à Europa muito cedo, sem que Roma servisse de instrumento
para qualquer tentativa de retardamento do fato, e sem que com esta dependência
os laços que nos prendem à Cátedra de São Pedro se afrouxassem no que quer que
seja. Se o continente americano soube distinguir tão bem a dependência política
à Europa, da dependência espiritual a Roma, porque não o poderá fazer a Ásia,
que tem em nosso exemplo a prova de que ambas as coisas são inteiramente
distintas?
Em terceiro lugar, reconhecendo embora,
e proclamado até que a cultura ocidental tem máculas gravíssimas que resultam
de sua ruptura com a Santa Igreja de Deus, não devemos deixar que ela [seja]
amaldiçoada ou rejeitada em bloco pelo Oriente. Com efeito, a cultura ocidental
ainda tem algo de cristão, e rejeitá-la em bloco significa rejeitar, com ela,
coisas que a Igreja reputa essenciais. E como a Igreja é monolítica e não pode
ser aceita ou rejeitada senão em bloco, rejeitar coisas que a Igreja reputa
essenciais, implica em rejeitar a Igreja inteira.
Quanto à maldição, também é um erro. Se
a cultura ocidental está corrompida até em suas fibras mais profundas - do que
nenhum católico pode duvidar desde que Pio XI escreveu que estamos ameaçados de
cair em estado pior do que o que existia no mundo antes da redenção - nem por
isto deixa de ser verdade que a cultura ocidental tem muito de bom. Não só seu
progresso material, bem utilizado, é excelente, como ainda não se pode negar
que mesmo em outras esferas ainda sobrenadam destroços de imenso valor, de
nossa cultura, no vasto naufrágio em que ela se abisma presentemente.
Amaldiçoar sem discernimento o que nossa cultura tem de bom e de mau é um erro.
Este erro tanto mais patente se torna quanto é fato, que, sem imensa
ingratidão, o Oriente não poderia amaldiçoar em bloco este Ocidente do qual lhe
vem inúmeros missionários, legítimos continuadores
daqueles Apóstolos a quem Nosso Senhor disse: "Ide e ensinai a todos os
povos, batizando-os em nome do Padre, e do Filho, e do Espírito Santo."
Que estas reflexões, feitas no mês das missões, nos
sirvam para que compreendamos a complexidade da obra missionária, e a saibamos
auxiliar com nossos recursos e sobretudo com nossas preces e mortificações.