Não desarmam os pertinazes partidários do divórcio.
Não contentes com a faculdade que a legislação civil, concorde nisto com a da Igreja,
já concede aos cônjuges de se separarem em determinados casos, pleiteiam para
os cônjuges separados o direito a novas núpcias. Em outros termos, não se
contentam com o desquite e pleiteiam o divórcio absoluto, e a vínculo.
Evidentemente, entre esta corrente e a doutrina da
Igreja há uma insanável oposição. A Igreja afirma a absoluta indissolubilidade
do vínculo conjugal, e nisto jamais poderá variar. E, como nesta afirmação está
empenhada a infalibilidade da Igreja, a nenhum católico é lícito dela
discrepar. Católico e divorcista são termos que se repelem. Entre os
partidários do divórcio e a Santa Igreja não há, pois, transação, composição,
meio termo possível. Os campos estão nitidamente demarcados.
Como católicos, não podemos deixar
de deplorar, pois, e muito vivamente, que se comece a agitar, um pouco por toda
a parte, a questão do divórcio.
Em primeiro lugar, cumpre acentuar a
extemporaneidade do debate. O recente Congresso Eucarístico mostrou claramente
até que ponto são vivazes e profundas as convicções religiosas de nosso povo.
Toda aquela multidão que desfilou pelas ruas de São Paulo durante o Congresso,
como católica que é, está irremediavelmente incompatibilizada com o divórcio, e
sabe que não pode esperar que jamais a Igreja mude sua doutrina a este
respeito. Por que encher de fundas apreensões essa multidão, e criar em nosso
ambiente dissensões inevitáveis, precisamente no
momento em que o país deve empenhar seus melhores esforços no sentido de se
unir para lutar contra nossos adversários externos?
Em segundo lugar, parece curioso que tanta azafama
se levante sobre o assunto, pouco depois de dois grandes fatos que exprimem iniludivelmente o pensamento católico e sua força entre
nós. Em primeiro lugar, o Congresso Eucarístico a que já nos referimos e, em
segundo lugar, os funerais do Eminentíssimo Cardeal-Arcebispo do Rio de
Janeiro, que, pelas centenas de milhares de pessoas que a eles afluíram,
mostraram claramente que o povo brasileiro é católico, essencialmente católico,
fundamentalmente católico e, por isto mesmo, incompatível com reformas sociais
opostas ao pensamento da Igreja.
No entanto, a agitação aí está. “A NOITE”, desta
Capital, abriu um inquérito sobre o divórcio, ouvindo toda a sorte de
escritores, jornalistas, técnicos, etc., etc. Um vespertino de Porto Alegre
também abriu inquérito neste sentido. O Sr. Alberto Pasqualini, membro do Departamento Administrativo do Estado, opinou
a favor do divórcio. O Instituto dos Advogados do Rio está discutindo o
problema. O cronista social da “Noite” escreveu uma nota em favor dessa medida.
Também a “Folha da Noite” deu a este respeito uma nota que concluía afirmando
que “não resta a menor dúvida” de que o povo brasileiro deseja o divórcio. A
“Gazeta Judiciária” do Rio de Janeiro também abriu uma campanha neste sentido. E,
no Instituto dos Advogados do Rio de Janeiro, um orador parece haver insinuado que mediante uma
concordata a Santa Sé pudesse conformar-se com a implantação do divórcio no
Brasil!
* * *
A este propósito, é importante acentuar que o
método de se apurar a opinião nacional mediante um certo número de entrevistas
dadas aos jornais por alguns intelectuais, de fato nada representa. Qualquer
jornalista medianamente inteligente saberá entrevistar exclusivamente pessoas
favoráveis ao divórcio, exceção feita de um ou outro anti-divorcista
irredutível, que terá sido introduzido na galeria dos personagens ouvidos, a fim
de dar ao jornal ares de imparcialidade. Para o grande público, a impressão
pode ser de que os repórteres saíram à rua sem maiores preocupações, e, ouvindo
os intelectuais na ordem hierárquica de sua projeção no mundo intelectual,
colheram imparcialmente as opiniões de cada qual. E, como a maioria seria
divorcista, daí se concluiria que a fina flor da intelectualidade brasileira é
pelo divórcio. Mas para quem sabe como se “arranjam” estas coisas, tais
reportagens em série não tem o menor valor persuasivo. Não é, pois, por aí que
se há de chegar à convicção de que nosso povo deseja o divórcio.
Aliás, a própria argumentação com que alguns
entrevistados defendem sua opinião é prova da superficialidade de espírito com
que se formaram juízo a respeito de um problema tão delicado. Assim uma
escritora procurada por certo jornal para se manifestar sobre o divórcio deu
como razão de sua simpatia por essa medida o argumento de que ser contrário ao
divórcio é ser fascista! Por que? Porque na Itália não existe o divórcio? Neste
caso, ser divorcista é ser ao mesmo tempo bolchevista e nazista, porque na
Alemanha e na Rússia o “amor” é livre. Este pano de amostra indica a leviandade
com que se discorre sobre o assunto. E quem pensa com tal leviandade poderá de
fato ser expressão da mentalidade brasileira?
Afinal, não estão tão remotos os grandes
pronunciamentos coletivos do Brasil a respeito do divórcio. Todos estão
lembrados de que, a partir do momento em que a Liga Eleitoral Católica começou a
arregimentar os católicos brasileiros no terreno do cumprimento de seus deveres
cívicos, todos os políticos tinham uma tal persuasão de que não lograriam as
ambicionadas cadeiras no Congresso Federal ou Estadual sem um compromisso sério
de não aprovar o divórcio a vínculo que até candidatos pessoalmente contrários
ao divórcio se julgavam na obrigação de garantir a seus mandantes, por
documento público, que não abusariam do mandato contra as intenções deles neste
sentido. E se há poucos anos atrás, apesar de ser o Brasil trabalhado por
intensa campanha comunista, o divórcio era uma espécie de espantalho que matava
no conceito público os mais ousados chefes eleitorais, por que se há de
presumir que hoje em dia a opinião brasileira mudou? Qual o fato que indica que
o Brasil tenha afrouxado suas convicções religiosas? Nenhum! E quantos fatos
poderíamos mencionar a fim de demonstrar que, pelo contrário, o Brasil se torna
cada vez mais autenticamente a terra da Santa Cruz!
Cessem, assim, as manobras ardilosas dos
partidários do divórcio. E conserve-se a paz da indissolubilidade, neste
momento de tanta luta patriótica, às famílias brasileiras!