É indiscutível que uma das maiores
vantagens da recente lei de reforma do ensino consiste na expressa proibição de
funcionarem, a partir do corrente ano, estabelecimentos de ensino secundário,
com classes indiscriminadamente destinadas a ambos os sexos. No momento em que
se acentua a campanha movida contra esta verdadeira medida de salvação pública
por certo jornal que, ainda há pouco, advogava a causa do divórcio e do
espiritismo, indispensável é que a opinião católica se exprima de modo indisfarçável, fazendo sentir que o Brasil inteiro aplaudia
a extinção das classes mistas.
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Há um certo modo de considerar o problema,
que o desloca inteiramente dos verdadeiros termos. Não se pode pretender que em
assunto de tamanha monta possam ser de qualquer peso os argumentos de caráter
econômico. Os adversários da co-educação sustentam
que a promiscuidade dos sexos, na vida escolar, é uma fonte funestíssima
de desordens que, ainda mesmo quando limitadas ao terreno estritamente afetivo
e psicológico, produziriam os mais catastróficos efeitos. Se esta afirmação é
verdadeira, nada haverá mais estulto do que pretender que o país se deve expor
a estas catástrofes, a título de economia. Gastar dinheiro com escolas para
educar o povo e, ao mesmo tempo, transformar estas escolas em causas
sistemáticas de ruínas morais para evitar
que a despesa cresça de vulto constitui uma política educacional
absolutamente louca.
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Como se vê, o problema consiste em saber
se realmente os adversários da co-educação têm
fundados motivos para sustentar sua tese. Em caso afirmativo, não há economia
que compense os desastres da co-educação.
Em caso negativo, por menores que sejam as
despesas que a extinção dos cursos mistos acarretam, não devem ser feitas,
porque é sempre um erro gastar para remover perigos irreais. Neste assunto,
pois, não se fale em dinheiro.
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Também deslocam o problema de seus
verdadeiros termos os que pretendem encontrar um terreno intermediário entre os
co-educacionistas e seus adversários com a afirmação
de que os inconvenientes da co-educação, se bem que
eventualmente reais, não são de monta a exigir gastos consideráveis acarretados
pelo desdobramento dos cursos. Se realmente a co-educação
produz inconvenientes, devem ser necessariamente gravíssimos. Há terrenos em
que o meio termo é impossível. Em tudo quanto se relaciona com o desregramento
dos costumes, não há meio termo possível. As duas únicas posições estáveis são
a da virtude completa e a da corrupção sem freios. O meio termo é sempre uma
rampa. E uma rampa pela qual nunca se sobe e sempre se desce.
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Como vemos, o único problema consiste em
saber se a tese católica contrária à co-educação é
verdadeira. Todos os outros argumentos não são mais do que subterfúgios,
destinados a ocultar aos olhos do público o verdadeiro aspecto do problema. E
têm razão para isto os co-educacionistas. Porque o
enunciado real do problema é simplicíssimo: trata-se de saber se o convívio
diário, durante várias horas de intimidade, no estudo e no recreio, no trajeto
para a escola e na volta para casa, entre jovens de curso secundário de ambos
os sexos, pode ser feito impunemente; se a influência nefasta do cinema, dos
romances e de todo o ambiente moderno não despertará, necessariamente, em
muitas alunas o desejo da exibição, dos sucessos, e da rivalidade entre as
colegas sequiosas de admiração; se, nos adolescentes, este convívio não
produzirá a fermentação desordenada e brutal de todas as fantasias, de todos os
instintos, e, talvez, de todas as ousadias; se a efervescência constante de
tantos instintos não formará gerações indisciplinadas até o mais íntimo do ser,
e, por isto mesmo, aversas ao vínculo augusto da
fidelidade conjugal, almas de uma sobre-excitação
crônica, para as quais serão sem sabor as alegrias austeras do lar e só a
voragem dos cassinos ainda conseguirá interessar.
Posto o problema, a solução jorra
expontânea, para todos os que possuem o propósito sério e firme de preservar as
tradições cristãs católicas da família e da civilização brasileiras. Não é
preciso saber sociologia, nem pedagogia, para acertar com a solução.
Basta o bom senso.