Um amigo do “Legionário”, conversando
comigo há dias, me informou que se está tornando novamente necessário um
trabalho de elucidação da opinião católica acerca do nexo existente entre os
problemas políticos, sociais e econômicos, e a doutrina católica. Na realidade,
penso não haver, entre católicos assunto mais debatido do que este. Todavia,
compreendo a observação de meu amigo. O ambiente moderno está de tal maneira
impregnado da idéia de que a religião constitui na vida dos homens como dos
povos um compartimento estanque, sem contato com outras atividades que não a
mera celebração dos atos de culto e – quando muito – a prática dos deveres que
a cada indivíduo impõe a Lei de Deus e da Igreja, que, de tempos a tempos, é
conveniente renovar a verdadeira noção católica sobre o assunto. E, para o
“Legionário”, trata-se de uma necessidade simplesmente vital. Com efeito, não
sei que juízo há de fazer de nosso jornal um católico para o qual as atividades
da Igreja cessam nos limites dos templos e da sacristia, se enclausuram nas
paredes das obras de assistência material aos desamparados, e, quando muito,
chegam a se estender apenas ao âmbito estreito da vida individual de cada um de
nós. Dentro de uma tal concepção da vida do católico, o semanário religioso
deveria cifrar suas publicações em matéria de piedade, de formação espiritual,
em noticiário de fatos e efemérides de caráter estritamente eclesiástico, e, se
quisesse ser excelente e verdadeiramente transpor as medidas do necessário,
publicaria algum pequeno romance em série, essencialmente inócuo já se vê, cuja
leitura amena indenizasse o leitor do tédio da leitura dos outros assuntos.
Graças a Deus, estamos longe de ser dos
que falam com pouco caso dos “limites das sacristias” como limites de coisas
sumamente insípidas, estéreis e desinteressantes. Toda a vida das obras sociais
católicas está na vida sobrenatural dos que as dirigem e dos que por elas
trabalham. Ai dos esforços que nunca entram pela sacristia a dentro! Estão
fadados a fracassar, porque a sacristia, a Igreja, são as fontes onde se há de
abeberar tudo quanto queira viver da vida sobrenatural do Catolicismo.
Entretanto, há uma verdade paralela a
esta, que também não deve ser esquecida. As coisas que nascem na Igreja ou na
sacristia e que não chegam a transpor os umbrais de uma e de outra não nasceram
inteiramente. A Igreja e a sacristia são fontes. E quando as águas brotam de
uma fonte fecunda não formam apenas em torno dela uma pequena poça de água: de
caudal se transforma em rio e que corre em demanda do oceano. Em outros termos,
a verdadeira vida de piedade se expande necessariamente. E, se não se expande,
não é verdadeira.
Entendemos por isso que, se um jornal de
piedade conseguir formar leitores verdadeiramente piedosos, devorados pelo
verdadeiro zelo da Casa de Deus, dentro em breve este zelo produzirá obras,
irradiará influência, procurará amoldar, segundo o espírito cristão, as
instituições e os costumes. E, se o jornal católico quiser acompanhar o surto
de devotamento e apostolado de seus leitores, será
forçado a ampliar seu próprio âmbito, deixando de ser exclusivamente piedoso.
Por isso, a alternativa é clara: exceção
feita dos jornais ou revistas especializadas na piedade, ou a imprensa católica
forma um público piedoso que a arrastará a outros campos que não o da piedade;
ou o jornal católico, ainda que trate só de piedade, realmente não é piedoso.
* * *
O erro de apreciação de certos leitores
provem de um raciocínio estribado em premissas simplistas. Dado que o
apostolado é um trabalho para a salvação das almas, e dado que à Igreja só
interessa o culto de Deus e a salvação das almas, pergunta-se: que tem a
política a ver com isso? Que interessa à salvação das almas uma eleição geral
na Inglaterra, um artigo de jornal escrito na Suíça, sobre a expansão da
influência japonesa na Indochina, o problema da unidade sindical, ou a Carta do
Atlântico? Não será preferível abandonar este campo estéril, todo feito de
questiúnculas envenenadas, de ambições feridas, de desilusões e despeitos? Não será mais generoso e mais nobre cuidar
exclusivamente da formação piedosa e moral dos fiéis?
A esta pergunta, responderemos:
“principalmente”, sim; “exclusivamente”, não e nunca. Veremos a razão disso em
outro artigo.