Mostramos em nosso último artigo
que os interesses mais fundamentais da cultura humana exigem imperiosamente que
a estruturação do mundo depois da guerra seja feita de forma a não destruir nem
comprimir a personalidade de cada um dos povos que por disposição da Divina
Providência existem neste planeta. Toda a verdadeira política tem de ser
delineada em função da realidade, e sempre que as concepções artificiais dos
estadistas de gabinete abstrai da realidade, esta se vinga destruindo-lhes
irremediavelmente a obra. Os problemas sociais são como os ferimentos: quanto
mais comprimidos, tantos mais se inflamam. É uma realidade evidente que cada
povo tem sua personalidade coletiva. Não haverá tratados que destruam esta
realidade, ligas e nem federações que dela se possam esquecer impunemente.
Nega-se, esquece-se, cancela-se arbitrariamente a personalidade coletiva de um
povo inteiro, ou antes de todos os povos da terra? A cultura é obra desta
personalidade. E quando se perturba ou se destrui a fonte, é indiscutível que
as águas brotarão escassas, turvas, daninhas. Que cultura sairá, que
civilização brotará, que mundo se construirá sobre estas ruínas psicológicas?
* * *
Diz Santo Agostinho que o coração
humano foi feito para o amor de Deus, e se agita inquieto enquanto não repousa
em Deus. Poder-se-ia dizer que o mundo foi feito para viver em uma ordem
determinada por Deus, e delira inquieto enquanto não se estrutura segundo esta
ordem. Deus, autor da natureza, organizando-a como a organizou, impôs
implicitamente ao homem que não estruturasse sua vida contrariamente a ela.
Qualquer alteração da imutável natureza das coisas é indiretamente uma revolta
contra Deus. É uma violação da ordem. E portanto uma desordem e assim como uma
desordem no corpo humano se chama doença, produz dores e perturbações e por fim
causa a morte, assim também uma desordem no corpo social há de produzir mal-estar,
lutas, e por fim os grandes colapsos que são as guerras.
Por mais sábia, pois, que seja a argumentação
econômica aduzida em benefício do plano em que ora se delineia, não deixa de
ser fora de dúvida que ele não produzirá a paz. Porque onde não há ordem nos
espíritos não pode haver paz, e a possível abundância dos bens materiais, longe
de ser um fator de concórdia, excitará ao auge os apetites, as ambições, as
discórdias, acabando por gerar novo colapso.
* * *
Ora, imagine-se um mundo dividido em três ou quatro
grandes federações, ou seja em três ou quatro grandes potências que enviam cada
qual seus representantes a uma conferência internacional, digamos a uma liga
mundial das federações soberanas ou autônomas. Caso estes potentados queiram
entender-se, os povos da terra encontrarão tranqüilidade, ao menos, no sentido
material da palavra. Caso, porém, o espírito de rivalidade, de competição, de
inveja se apodere destes potentados, que sucederá? Uma guerra entre eles,
evidentemente. Mas, desta vez, uma guerra terrivelmente universal, que
arrastará necessariamente todos os povos, já que todos estão federados e pois,
obrigados a lutar. Nossos maiores chamaram mundial a guerra 1914-1918 e nós
sorrimos desta afirmação, porque estamos em condições, nestes dias, de provar
que a guerra atual merece muito mais exatamente este triste epíteto. E quando o
mundo estiver "federado" sorrirão de nós: aí é que veremos o que pode
ser uma guerra verdadeiramente mundial.
Mas, dir-se-á, é possível que duas federações
briguem entre si sem que uma terceira ou quarta federação também entre em
guerra. Não se poderia supor, portanto que esta organização federal significa
um meio feliz de manter povos e povos, continentes inteiros talvez, em um bloco
pacífico unido, e fora da guerra?
Não ousamos alimentar esta esperança. Caso as
federações existam, deverão ter forças equilibradas. Se uma destruir a outra em
seu próprio proveito, crescerá tanto que obrigará as outras a uma intervenção.
Mas, dir-se-á, por isto mesmo as federações neutras
se porão sempre do lado da inocente, e tornarão impossível a guerra. E se nenhum
dos dois lados tiver razão inteira, o que em política não é coisa rara? Juízo arbitral? Com que garantias de imparcialidade no juiz, de
docilidade nas partes litigantes, de reta intenção, enfim, em todos?
Porque se os homens forem gananciosos e prepotentes,
brigarão por força. E, como o homem contemporâneo é prepotente e ganancioso,
por força brigará.
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Tocamos aí no pivot da questão. Do que se
precisa é de uma reforma do mundo. Mas a reforma do mundo supõe a reforma do
homem. Enquanto o homem contemporâneo for o que for, quanto maiores forem suas
obras, maiores serão as ruínas que acumulará em torno de si. Seu poder será o
agente de sua própria destruição: enfermiço, incrédulo, egoísta, sem moral nem
princípios de qualquer espécie, nada poderá organizar de durável. Ele contagia
com sua moléstia todas as suas obras. A argamassa com que unimos as pedras de
nossos edifícios contém dinamite. As traves sobre que esteamos nossas casas têm
cupim. Amanhã virá sobre nós a justiça de Deus, e então se verá que tudo será
ruína.
Não nos iludamos. O mundo pensa muito em uma
"ordem nova", que espera das potências deste século. Hitler inventou
a expressão, mas a idéia de tudo organizar em bases inteiramente diversas anda
pelo ar, adotada até mesmo por muitos dos que odeiam sinceramente o abominável
ditador pagão. No prestígio desta alcunha de "novo", na esperança que
suscita, na convicção de que ela pressupõe, de que só será realmente desejável
na medida em que for "nova", isto é, na medida em que diferir de tudo
quanto a precedeu, existe o estigma fatal que mostra toda a sua debilidade, e
toda a sua fraqueza. A mania do "novo" implica necessariamente na do
"efêmero", porque quando o espírito de uma época chegou a tal
degradação que as coisas, por pouco que durem, lhe desgostam e isto só porque
duram, o efêmero é a condição do êxito, e a solidez fator de impopularidade e
decadência. Esta ordem que assoma nos horizontes de hoje pactuando ab initio com o
ídolo do dia, que é a mania do novo, e inscrevendo em seu frontispício o nome
de Deus, sela-se a si própria com o ferrete do efêmero. Enquanto for nova,
viverá. O que implica em dizer que viverá muito pouco.
* * *
Pensa de modo diverso a Santa Igreja de Deus. Das
mãos do Papa, nunca partirão para o mundo moderno promessas chispeantes
e rútilas de uma próxima idade de ouro, e seus lábios sacrossantos jamais se
abrirão para lisonjear a idolatria do "novo", prometendo ao mundo
algo de inteiramente diverso do passado.
A Igreja começa por exigir a derrubada do ídolo.
Ela o quer quebrado. Quer destruídos seus altares, feitas em pedaço suas
imagens, atirados aos quatro ventos os instrumentos de seu culto. A Igreja não
se incomoda com o "novo" nem com o "velho" tanto quanto com
o "verdadeiro" e o "bom". Enquanto não rompermos com a idolatria
do "moderno", do "novo", não teremos criado em nós, nem em
torno de nós, ambiente propício à ação da Igreja. Ela não nos promete uma
"ordem nova". Ela nos promete uma ordem verdadeira, uma ordem
construída com respeito para com a essencial e invariável ordem da natureza, e
toda impregnada de um princípio ordenador vital
incomparável, que é o sobrenatural. É isso o que a Igreja nos promete. Nesta
ordem, encontra-se tudo quando houve de justo, de grande, de belo, de
verdadeiro no passado. Nela se encontra também a possibilidade de muito e muito
fazer ainda em conformidade com as linhas essenciais deste passado. Do passado
deverá sobreviver tudo quanto é imutável. Do presente, só pode sobreviver o que
estiver de conformidade com as coisas definitivas que o passado nos legou. Em
outros termos, tudo quanto a Igreja construiu de definitivo no passado se
conservará. Os homens devem procurar construir mais coisas dentro da linha do
definitivo, coisas que serão "novas", no melhor sentido da palavra e
de tal maneira "novas" que gozarão a eterna novidade que o definitivo
tem aos olhos dos homens sensatos. Tudo bem pesado, trata-se de reconduzir o
homem às rotas gloriosas da civilização cristã católica que abandonou, e de o
conservar, não fixo e estável no mesmo ponto, mas em marcha ascensional nessa
estrada, em demanda de alturas sempre maiores, de uma ordem cada vez mais
profundamente identificada com a natureza e retificada pelo sobrenatural, sem
os miasmas de desregramento, de cupidez, de sensualidade, de incredulidade,
que, tornando o homem um revoltado contra a ordem da natureza e os benefícios
inestimáveis de graça, fazem dele um filho das trevas, um sombrio partidário do
reino da anarquia e da ruína. As obras deste homem serão necessariamente obras
de ruínas e de trevas. Não se espere dele outra coisa. Sua grandeza se medirá
pela grandeza de seus crimes e de suas devastações. Sua glória se medirá pelo
número de oprimidos que gemerem a seus pés. Esta sinistra contrafação da
grandeza e da glória será a única que os seus semelhantes saberão ver e
aplaudir. Com homens assim, as obras não podem durar, e as que durarem causam
horror.