Infelizmente,
foram muito incompletas as notícias, ou antes as partes do último discurso do
Santo Padre Pio XII, transmitidas ao Brasil por via telegráfica. O Santo Padre
falou no dia 14 p.p., dirigindo a palavra a vinte mil operários italianos, aos
quais fez uma alocução radiofônica transmitida a todo o mundo. Em momento tão
delicado da vida do mundo, a palavra do Vigário de Jesus Cristo tem importância
maior do que nunca. Todos os fiéis, que vêm na Cátedra de São Pedro a infalível
rocha da verdade, teriam evidentemente imenso desejo em conhecer o texto
completo, palavra por palavra, do que disse o Sumo Pontífice. O telégrafo nos
forneceu simplesmente migalhas. Mas, como veremos, são migalhas substanciosas
como as do maná. Vale, pois, a pena analisá-las.
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Passamos
muito de leve pela parte do discurso do Santo Padre em que ele desmente a
acusação de que a Santa Sé tenha qualquer responsabilidade pela deflagração da
presente guerra. A calúnia é tão evidente que não nos resta senão lamentar que
haja ambientes onde ela possa assumir aspecto de verossimilhança a tal ponto
que o Santo Padre, em sua paternal caridade, tome o trabalho de a desmentir.
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Registramos antes de tudo que o
Sumo Pontífice julgou necessário tomar mais uma vez a defesa da instituição da
propriedade privada, declarando que ela constitui o "fundamento da
estabilidade da família". Mais de uma vez, os Pontífices tem erguido a sua
voz para afirmar o mesmo princípio. Se, pois, o Santo Padre julga necessário
voltar ao assunto, é porque, evidentemente, entende que a propriedade continua
ameaçada. Por quem? Segundo muitos otimistas, por ninguém. Os comunistas
estariam sendo convertidos. Os nazistas, ao que parece, nunca teriam sido contrários
à propriedade. Os beveridgeanos
ainda muitíssimo menos. Onde está então o ataque à propriedade individual?
Será que o Santo Padre se está
impressionando com um perigo irreal? Ou antes o inimigo está embuçado atrás de
uma ou de algumas dessas inocentes aparências que a propaganda bolchevista está
multiplicando em nossos dias?
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Pio XI escreveu que o mundo
contemporâneo está pervertido, que se encontra na iminência de cair em miséria
moral pior do que aquela de onde o tirou a Redenção de Nosso Senhor Jesus
Cristo. O Santo Padre, em outro documento, chegou mesmo a dizer que era tal a
situação contemporânea, que seria o caso de se perguntar se já não teria
chegado o momento de aparecer o Filho da Iniquidade, o homem de maldição que
será o anti-cristo. E apesar disto os dias de hoje continuam a ter calorosos
apologistas. Para eles, vai tudo na melhor das maravilhas. Ouçam, pois, essa
recente declaração do Sumo Pontífice Pio XII, no discurso que analisamos: “os
fundamentos da sociedade foram completamente abalados”. Está bem uma casa cujos
alicerces estão “completamente abalados?” É uma sociedade? É uma civilização?
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A Santa Sé é mãe de todos os
povos. As mães sabem ser especialmente carinhosas para com os filhos que
sofrem. E por isto a Santa Igreja sempre ressentiu uma especial ternura para
com a classe operária. Veja-se com que ternura o Papa Pio XII lembra tudo
quanto a Igreja tem feito pelos operários: “Nossos predecessores e Nós não
perdemos oportunidade de fazer compreender a todos os homens as vossas
necessidades pessoais e familiares, proclamando como requisitos prévios e
fundamentais da concórdia social essas reivindicações que tão caras são: o
salário que cubra os gastos da subsistência da família, para permitir aos pais
o cumprimento do dever de criar filhos sadios, alimentando-os e vestindo-os, e
a possibilidade de dar-lhes instrução e educação e fazer provisões para os
momentos de penúria, enfermidade e viuvez”.
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Isto
não obstante, a Santa Sé condena, até nessas nobres e justas reivindicações
tudo quanto possa ser revolucionário, intemperante,
excessivo. Ouçamos ainda a mesma alocução papal: “O peso das atuais
dificuldades é sentido pelas massas operárias que estão sobrecarregadas e
aflitas em maior grau que as demais classes; porém, não são as únicas a
sentirem esse peso. Cada classe deve levar sua própria carga, mais ou menos
dolorosa e difícil de suportar”. E em outro tópico o Sumo Pontífice acrescenta:
“o homem e a mulher que trabalham, conscientes de sua grande responsabilidade
no bem comum, sentem e compreendem que seu dever não é agravar a carga de
extraordinárias dificuldades que os povos suportam com apresentação de
exigências nestas horas imperiosas de necessidades universais”.
É
sempre o perfeito equilíbrio da Igreja. Oxalá nos compenetremos bem deste
espírito.