Talvez nenhuma das profecias de Nosso Senhor Jesus Cristo
a respeito de sua Igreja tenha sido uma realização mais palpável do que aquela
que levou a Cristandade a chamar a Igreja, no presente século, de
"militante".
Todas as profecias do Divino Salvador realizaram-se
ao pé da letra; não fora Ele Deus! Mas nenhuma talvez de maneira tão gritante
como esta que obriga os fiéis a estar sempre vigilantes na defesa da Fé e dos
bons costumes, contra os perseguidores que, em todos os tempos, se tem
levantado contra a Santa Igreja.
A maneira do ataque varia segundo as circunstâncias
aconselham aos inimigos da Cruz de Cristo, a conveniência de um combate de
viseira erguida, - e é a época das grandes perseguições sangrentas, - ou de um
trabalho velado de sabotagem, - e é a ocasião em que a Igreja precisa
precaver-se contra as infecções que tentam minar o
seu organismo.
Podemos dizer que a luta que a Igreja enfrenta hoje
é desta última espécie. Pessoas que nunca foram católicas, e que provavelmente
jamais o serão, se arvoram em paladinos da verdade católica, e tentam dessa
maneira uma espécie de "grilagem" da mesma,
isto é, vender sua mercadoria como se fosse a autêntica da qual tomam umas
aparências, ao menos na roupagem literária com que a vestem.
Ninguém talvez tenha caracterizado melhor essas
épocas da História da Igreja - que são as mais graves, pois a elas devemos
todas as amputações que foram necessárias no Corpo Místico de Jesus Cristo
- do que o grande publicista católico
espanhol, Sardá y Salvany. Compara o
ardoroso paladino do catolicismo na Espanha estes momentos da História
da Igreja ao crepúsculo, cujo lusco-fusco é uma mistura indefinível de
claridade e trevas, em que não se vê bem, e nada se consegue distinguir com
precisão. Não é preciso acrescentar que nenhum ambiente oferece maiores
probabilidades de êxito para os inimigos da Igreja; ao menos para os que
percebem que uma vitória sobre a mesma será tanto mais eficaz, quanto mais se
dessorar a autenticidade da Fé tradicional. Como bons pescadores preferem as
águas turvas. Nelas, sem serem percebidos, podem infiltrar seus erros,
difundi-los e abalar a Fé dos incautos sob aparência e protestos do mais lídimo
cristianismo.
Estas são as épocas mais difíceis para a Igreja.
Sob a capa do catolicismo, envoltas em fórmulas atraentes, que fazem o ponto
vulnerável da psicologia humana, apelando sempre para a liberdade e largueza de
espírito, difundem estes falsos profetas doutrinas diluídas de tal maneira que,
primeiro, seja difícil apontar-lhes os erros, depois, os fiéis embalados por
ela se inclinem no sentido de formarem em si mesmos um espírito de falso
cristianismo.
Foi assim com o Arianismo que lançou talvez a
maior confusão no mundo cristão, foi assim com o Jansenismo que infestou
especialmente a França, foi assim com o Modernismo, que ainda hoje procura aluir a Rocha de Pedro. Nenhuma
obra é tão benemérita para a Igreja como a dos apologetas
que dão o brado de alarme, e denunciam o inimigo que já se instalou sorrateiramente
nos campos internos, e aí se esforça por ser tido como companheiro autêntico da
mesma jornada. Eis porque a Igreja [é] devedora do grande diácono Atanásio, e de todos os paladinos da Fé suscitados por Deus
Nosso Senhor para oporem uma barreira à falsificação do depósito tradicional da
Revelação Divina.
Nos nossos dias a recente polêmica suscitada pelo
livro do Sr. Maritain, "Les droits
de l'homme et la loi naturelle", deu-nos
oportunidade de apalpar a tática que hoje aplica contra a Igreja os inimigos.
No que concerne às relações entre a Igreja e o
Estado, ao conceito de uma sociedade cristã, um estado cristão, a Doutrina
Revelada foi já muitas vezes declarada, e é ponto que passou em julgado: não
são mais possíveis dúvidas ou discussões a respeito dos princípios que todo
católico deve admitir. Poder-se-á estudar a melhor maneira de estabelecer uma
situação de fato. Neste particular poderá haver até divergências que se
justifiquem quanto a apreciação dos fatos. O que não pode ser posto em dúvida,
onde não não há lugar para divergências, é o
princípio: em tese, qual a sociedade que se pode dizer realmente católica
quando o Estado será católico.
Ora, foi precisamente esta possibilidade de
divergências em questões de situação prática que deu base a que se insinuasse
uma evolução doutrinária, mesmo do princípio, de maneira que hoje já se não
pudesse sustentar o princípio estabelecido por S. S. Pio IX no "Syllabus" no que respeita às relações entre a Igreja e o
Estado. De maneira que, envolto em exemplificações históricas mais próprias
para perturbar a seqüência natural e clara do raciocínio, pretendeu-se inculcar
que a Doutrina da Igreja quanto à sociedade católica não passa de um mero interconfessionalismo, no qual a verdade e o erro
caminhariam de mãos dadas para se conseguir o "bem comum" (sic!). Tudo isto não dito assim com essas palavras e sim
com outras mais sonoras, mais atraentes, mais sensíveis, mais psicológicas.
Falava-se numa sociedade "real e vitalmente cristã" em oposição a uma sociedade
"hipocritamente cristã". Como se vê as expressões são de molde a
impressionar, e, no meio de toda uma argumentação sibilina, capazes de iludir
incautos.
Por isso, pelo amor à verdade e à Igreja, resolveu
o R. Pe. Arlindo Vieira, hoje já uma glória no Clero Nacional, denunciar o
engano, e precaver os católicos. Em bem fundamentado artigo mostrou como o
livro do Sr. Maritain, "Les droits de l'homme et la loi naturelle", defendia pontos
de vista no que concerne a uma sociedade cristã, em oposição ao que os Santos
Padres haviam tradicional e ininterruptamente ensinado, especialmente nestes
últimos anos, dos fins do século passado a esta data.
A maneira como agiram um ou outro dos amigos do
filosofo francês deu-nos a idéia de pessoas que sentiram uma mão indiscreta
levantar-lhes o véu que encobria sua misteriosa face. Entre injúrias que
extremavam nas acusações de ignorante e caluniador, pretenderam demonstrar que
o R. Pe. Arlindo Vieira não compreendera ou
falsificara o pensamento do Sr. Maritain.
Era necessário que a doutrina de Maritain prevalecesse e por isso a primeira tentativa foi
de estrangular um adversário importuno. Como esta tática não tivesse surtido
efeito, pois o Pe. Arlindo Vieira, e o LEGIONÁRIO que
modestamente o secundou, patentearam vitoriosamente que, na realidade, o Sr. Maritain na obra citada e em carta posterior sustenta teses
que se opõem ao pensamento da Santa Sé; tentam agora os novos corifeus do Pan-cristianismo outra dialética no sentido de conservarem
o ambiente de confusão que julgam ter criado.
O R. Pe. Arlindo Vieira já
não é mais acusado de falsificar ou não entender o pensamento de Maritain. Ele o entendeu e entendeu muito bem. Agora que o
Pe. Arlindo Vieira não entendeu é a Doutrina da
Igreja. Não teria percebido o ilustre jesuíta que a Igreja teria evoluído nesta
questão dos princípios sobre suas relações com o Estado, de maneira que já não
se poderia mais sustentar o princípio estabelecido por S. S. Pio IX, pois que
Leão XIII teria dado nova
orientação aos fiéis católicos. O erro da argumentação do Pe. Vieira proviria
precisamente disto: quer ele aplicar, nos tempos que correm, princípios que só valiam no
século passado.
Como se vê, a dialética é especiosa. Amplia o raio
da confusão. Já não são católicos, considerados legítimos representantes do pensamento
católico, que acham natural e necessário que, na sociedade, a verdade e o erro
tenham os mesmos direitos. Seria o próprio Papa, que ajustando-se ao seu
século, abriria mão dos princípios eternos que hão de regular sempre as
relações das criaturas de Deus, especialmente as que as obrigam com relação a
Ele, Deus.
É porém tão pueril, que a católicos basta lembrá-la
para que ela se desfaça. A Santa Sé jamais há de mudar seus princípios ainda
que seja por todo o sangue de todos os católicos. Ao tempo do Arianismo, a situação da Igreja foi tão crítica que de São Jerônimo diz-se que
"gemeu em sua gruta de Belém, quando viu todo o orbe ariano". E a
Igreja não transigiu. Também agora não transigirá. Nem é aos escritores
adventícios que havemos de perguntar o pensamento da Igreja, mas ao próprio
Santo Padre, cuja linguagem neste ponto não deixa a menor duvida.
Uma outra prova de que realmente o Sr. Maritain hoje edifica do "outro lado do muro"
temos na confissão, talvez, inconsciente com que uma dessas pessoas
inesperadamente arvoradas em paladinos do catolicismo condimenta sua defesa de Maritain. Num artigo em que diz - só afirma - que o Sr. Maritain, numa admirável largueza de espírito, e sábia
tolerância, se enquadra rigidamente na doutrina social católica estabelecida
segundo os ensinamentos tomísticos e as encíclicas
papais, aparece por descuido esta frase: "Se fossem cabíveis protestos,
deveriam partir menos dos católicos que dos democratas".
"Habemus confitentem reum". Esta
frase contém duas afirmações: 1º - O Sr. Maritain,
pretendendo uma democracia cristã, intenciona
desvirtuar a democracia, ou antes, certa concepção de democracia - só assim se
explicaria que certos democratas poder-se-iam sentir visados pela obra de Maritain; 2º - A democracia - para este Sr. - de si, na sua
pureza, não é católica. O que quer dizer que estes democratas não se sentem mal
com a campanha de Maritain porque as idéias de Maritain, em absoluto não incomodam suas intenções e são
precisamente aqueles democratas que acham que a democracia para ser verdadeira
não deve ser inteiramente católica, ou, em outras palavras, para estes
democratas só serve uma sociedade pan-cristã. Bem
afirmava D. Jamet num artigo do qual
o LEGIONÁRIO transcreveu parte em seu número de domingo passado. Estes
democratas que entendem assim a democracia, isto é, não a querem católica como
a quer o Papa, não protestam contra o Sr. Maritain,
exclusivamente porque este senhor "est dans leur bateau".
Finalizamos recordando aos nossos leitores a
doutrina tradicional da Santa Igreja, na palavra de S. S. Pio X, de santa memória. Contem-se na condenação do "Le Sillon" cuja doutrina assim expõe o Santo Padre:
"Houve um tempo que o "Sillon",
como tal, era formalmente católico. Em matéria de força moral, ele só conhecia
uma, a força católica, e ia proclamando que a democracia havia de ser católica,
ou não seria democracia. Em dado momento, entretanto, ele mudou de parecer.
Deixou a cada um sua religião ou sua filosofia. Ele próprio deixou de se
qualificar de "católico", e a fórmula "A democracia há de ser
católica", substituiu-a por esta outra "A democracia não há de ser anti-católica", tanto quanto, aliás, anti-judaica ou anti-budista. Foi
a época do “maior Sillon”. Todos os operários de
todas as religiões, e de todas as seitas foram convocados para a construção da
cidade futura. Outra coisa se lhes pediu a não ser que abraçassem o mesmo ideal
social, que respeitassem todas as crenças e que trouxessem um mínimo de forças
morais. Certamente, proclamava-se, "os chefes do "Sillon"
põem sua fé religiosa acima de tudo. Mas podem recusar aos outros o direito de
haurir sua energia moral, lá onde podem? Em troca, eles querem que os outros
respeitem seu direito, deles, de hauri-la na fé católica. Eles pedem, pois, a
todos aqueles que querem transformar a sociedade presente no sentido da
democracia, que não se repilam mutuamente por causa de convicções filosóficas
ou religiosas que os possam separar, mas que marchem de mãos dadas, não
denunciando sua convicção, mas experimentando fazer, sob o terreno das
realidades práticas, a prova da excelência de suas convicções pessoais. Talvez
que neste terreno de emulação entre almas ligadas a diferentes convicções
religiosas ou filosóficas a união se possa realizar". (Marc
Sangnier, Discurso de Rouen, 1907). E ao
mesmo tempo se declarou (de que modo isto se poderia realizar?) que o pequeno
"Sillon" católico seria a alma do grande
"Sillon" cosmopolita.
Recentemente, desapareceu o nome do "maior Sillon", e houve a intervenção de uma nova
organização, que em nada modificou, bem pelo contrário, o espírito e o fundo
das coisas "para por ordem no trabalho, e organizar as diversas forças de
atividade. O "Sillon" continua sempre a ser
uma alma, um espírito, que se misturará aos grupos e inspirará sua
atividade". E a todos os novos agrupamentos, tornados autônomos na
aparência: católicos, protestantes, livres-pensadores, se pede que se ponham a
trabalhar. "Os camaradas católicos se esforçarão entre si próprios, numa
organização especial, por se instruir e se educar. Os democratas protestantes e
livres-pensadores farão o mesmo de seu lado. Todos católicos, protestantes e
livres-pensadores terão em mira armar a juventude, não para uma luta
fratricida, mas para uma generosa emulação no terreno das virtudes sociais e
cívicas". (Marc Sangnier,
Paris, Maio de 1910).
Estas declarações e esta nova organização da ação sillonista provocam bem graves reflexões.
Eis uma associação inter-confessional,
fundada por católicos, para trabalhar na reforma da civilização, obra
eminentemente religiosa, porque não há civilização verdadeira sem civilização
moral, e não há verdadeira civilização moral sem a verdadeira religião; é uma
verdade demonstrada, é um fato histórico. E os novos sillonistas
não poderão protestar que eles só trabalharão "no terreno das realidades
práticas" onde a diversidade das crenças não importa. Seu chefe tão bem
percebe esta influência das convicções do espírito sobre o resultado da ação,
que ele os convida, qualquer que seja a religião a que pertençam, a "fazer
no terreno das realidades práticas a prova da excelência de suas convicções
pessoais".
E com razão, porque as realizações práticas
revestem o caráter das convicções religiosas, como os membros de um corpo, até
as últimas extremidades recebem sua forma do princípio vital que o anima.
Isto posto, que se deve pensar da promiscuidade em
que se acharão agrupados os jovens católicos com heterodoxos e incrédulos de
toda a espécie, numa obra desta natureza? Esta não será mil vezes mais perigosa
para eles do que uma associação neutra? Que se deve pensar deste apelo a todos
os heterodoxos e a todos os incrédulos para virem provar a excelência de suas
convicções sobre o terreno social, numa espécie de concurso apologético, como
se este discurso já não durasse há 19 séculos, em condições menos perigosas
para a fé dos fiéis e sempre favorável à Igreja Católica? Que se deve pensar
deste respeito por todos os erros e de estranho convite, feito por um católico
a todos os dissidentes, a fortificarem suas convicções pelo estudo e delas
fazer as fontes sempre mais abundantes de novas forças? Que se deve pensar de
uma associação em que todas as religiões, e mesmo o livre-pensamento
podem manifestar-se altamente à vontade? Porque os sillonistas
que, nas conferências públicas e em outras ocasiões proclamam altivamente sua
fé individual, não pretendem certamente fechar a boca aos outros e impedir que
o protestante afirme seu protestantismo e o céptico, seu ceticismo. Que pensar
enfim, de um católico que, ao entrar em seu círculo de estudos, deixa na porta
seu catolicismo, para não assustar seus camaradas que, "sonhando com uma
ação social desinteressada, têm repugnância de a fazer servir ao triunfo de
interesses [de] facções, ou mesmo de convicções, quaisquer que sejam?"