O "Estado de São Paulo" de 23 p.p.
publicou um extraordinário telegrama de Londres. Formickencko, "General I" do Exército Vermelho, concedera a
um jornal russo que se publica na capital britânica uma entrevista em que,
exaltando o valor moral das tropas soviéticas, explicava a mola espiritual
profunda que os tinha atirado com tanto ímpeto à conquista da vitória.
Em 1914, diz Formickencko,
os homens não sabiam matar convenientemente, e desperdiçavam numerosas
munições. Infelizmente, a notícia telegráfica das declarações do "General
I" é algum tanto resumido. Mas, ao que parece, a causa disto estava em
que, combatendo-se embora, os homens não se odiavam de parte a parte
convenientemente. Matavam-se sem verdadeira vontade de se matar, feriam-se sem
vontade de se ferirem a fundo. Faltava-lhes ódio, gana, furor. A Rússia
bolchevista, mais sábia, procurou aproveitar a experiência de 1914 e obteve
ótimos resultados: "o soldado russo tem sido educado sistematicamente para
odiar o inimigo, e essa educação converteu-se na sua melhor e mais poderosa
arma". Assim, para o militar soviético, nem as granadas nem os canhões,
nem os aviões ou tanques têm tido nesta guerra a eficácia da arma psicológica
que é o ódio. "O equipamento material e técnico do Exército Vermelho é
apenas um aspecto do seu poderio combativo. As suas outras armas mais
eficientes são o moral elevado e inquebrantável, a resistência, o auto-sacrifício, o desprezo pela morte, o desejo inflexível
de derrotar o inimigo". E o “General I” prossegue: "Não é fácil
entretanto adquirir a capacidade de odiar, mesmo testemunhando os assassínios
em massa de nosso povo, e a violação e humilhação das nossas mulheres. A
repugnância ao inimigo não deve ser um fogo de artifício. Deve dominar o
soldado todo até converter-se na base do seu temperamento e caráter". E
acrescenta: "O soldado que odeia o inimigo aprende a atacá-lo de maneira
que nem um único cartucho, nem uma só bala ou mina é desperdiçada. Na primeira
guerra mundial era necessária uma média de 46 granadas para matar um único
soldado, a média de cartuchos era de 2.100, para um único homem. Nesta ainda
não se fez cálculo idêntico, mas aqui estão alguns dados interessantes, colhidos
na frente russa: um atirador matou 125 alemães com 126 cartuchos. Isto
significa, em relação à outra guerra, que se teriam economizado 5.750 balas de
canhão e 16.374 de fuzil. Outro matou 304 inimigos com 304 cartuchos.
Economizou, portanto, 633.096 balas de fuzil e 14.104 de canhão. No campo de
batalha, a fidelidade à pátria e o ódio ao inimigo estão numa perfeita
interdependência. Eis, pois, a força que dá aos homens do Exército Vermelho o
pleno domínio da técnica de combate, na campanha que se desenvolve em toda a
extensão da frente oriental, na Europa".
* * *
Esse documento mereceria a mais ampla divulgação.
Até aqui, as escolas filosóficas que, à moda de Nietzsche, pregavam o ódio como força vital do universo, só
encontravam em nosso ambiente um acolhimento céptico. As afirmações do pensador
alemão e de seus discípulos eram tidas como boutades de homens de gabinete,
curiosas e brilhantes extravagâncias de letrados, que jamais passariam do
âmbito limitado dos campos de investigação filosófica. É que a nós batizados, o
ódio parece algo de tão fundamentalmente antinatural,
que se nos afiguraria impossível que toda a massa humana de uma nação inteira
pudesse elevá-lo à categoria de um princípio ou até de um ídolo, e de formar
segundo ele toda a vida social.
Veio depois o nazismo. A evidência dos fatos
dilatou um pouco os acanhados horizontes de nossa perspicácia. Começamos a
verificar que essas divagações filosóficas não eram tão estéreis nem tão
abstratas quanto se poderia pensar de início. Aí estava, de armas na mão,
pronta para investir contra o mundo, uma das maiores nações contemporâneas,
inteiramente empolgada pela pregação dos adeptos do ódio. Hitler é Nietzsche em ação, como Robespierre é Voltaire em ação. Mas, ainda
assim, nossa miopia ou nosso comodismo arranjou meios de não ver a verdade
inteira. Preferimos entender que a Alemanha se tinha deixado dominar pela
mentalidade nitzscheana, simplesmente porque era esse
um pendor peculiar e característico do espírito germânico. Racistas a nosso
modo, atiramos sobre a raça toda a responsabilidade que no fundo só cabia à
doutrina. Entendemos que o nazismo era um fenômeno
puramente alemão e que essas pregações de ódio não poderiam expandir-se no
Ocidente, transpondo o oceano ou simplesmente o Reno, porque sua capacidade de
expansão cessava nas plagas banhadas pelo sol da cultura latina. E nem poderiam
expandir-se no Oriente, porque entre a longínqua Ásia sonolenta e a
inquieta Alemanha se levantava a
intransponível barreira da União Soviética, imenso amortecedor das influências ocidentais que
expiram invariavelmente aos pés dos montes Urais. As doutrinas de força nunca
se propagariam, pois, para além das fronteiras da Alemanha.
Essa idéia sofreu um duplo desmentido. Em primeiro
lugar, a Alemanha dilatou suas próprias fronteiras, e com elas as fronteiras do
reino do ódio. Por outro lado, o egoísmo vem dominando cada vez mais os povos
contemporâneos, em todos os quadrantes. Ora, o egoísmo é o contrário do amor, e
o ódio também é o contrário do amor. Não é preciso ser grande moralista para
perceber com que espontaneidade o egoísmo gera o ódio e extingue a caridade
cristã. Assim, ao passo que se tornava egoísta, o mundo contemporâneo se
transformava em fácil sementeira para as idéias de ódio. Um duplo fenômeno
portanto: enquanto a Alemanha aumentava sua influência, crescia a
permeabilidade espiritual do mundo, à doutrinação nazista.
E é curioso notar que esse ódio tipicamente nitzscheano, marcante e inconfundivelmente nazista teve sua
primeira repercussão oficial, teve sua mais solene afirmação precisamente no
país que, de armas na mão, parece guerrear com mais afinco o nazismo. O
comunismo se apresentara até
aqui como uma doutrina de amor, se não em seus métodos pelo menos em suas
idéias. Pregava a pena dos pobres, a compaixão dos desamparados, a doçura para
com os revoltados. Por mais abusiva que fosse a interpretação bolchevista
dessas idéias, elas representavam, no fundo, uma deformação de um ideal de
solidariedade humana que fora introduzido no mundo pelo Evangelho. Caricatura,
caricatura monstruosa, blásfema, do ideal cristão, o
comunismo conservava sob algum aspecto uma vaga tintura desse ideal, como toda
a caricatura, por mais monstruosa e satânica, se parece em algum ponto com o
original.
A acusação que o comunismo fazia à Igreja era
precisamente de que ela não era coerente com os ideais de caridade que pregava,
que em lugar de servir inteiramente à causa da pobreza e da compaixão, servia
também a causa da desigualdade social. Qui fait l'ange, fait
la bête, dizia Pascal. Quem quer ser em qualquer sentido ou ponto de vista mais
católico do que a Igreja, cai em alguma monstruosidade. Os comunistas
pretenderam levar mais longe que a Igreja o espírito de caridade. Em vão a
Igreja lhe pregou o bom senso neste caminho, mostrando que a desigualdade das
classes sociais não viola nem a justiça nem a caridade, e que as diferenças de
fortuna, inerentes à ordem natural instituída pelo próprio Deus, foram
indelevelmente proclamadas pelos Mandamentos que proíbem o furto e a cobiça dos
bens alheios. Nada adiantou. Agora esses antigos apóstolos do amor, depois de
terem por "amor" cometido os maiores crimes em sua própria pátria,
proclamam oficialmente o ódio como princípio de organização social. Nós que
temos pela graça de Deus um coração católico, e que não nos esquecemos do
preceito de amor aos nosso inimigos que nos foi ensinado por Nosso Senhor Jesus
Cristo, não podemos deixar de pensar com indignação e horror nessas sombrias
escolas de ódio, com que os sovietes, dignos êmulos e sucessores dos bandidos
nazistas, procuram educar os soldados russos. Formickencko
foi explícito:
"A repugnância ao inimigo não deve ser um fogo
de artifício. Deve dominar todo o soldado, até converter-se na base do seu
temperamento e caráter". Homens fundamentalmente cheios de ódio, são estes
os soldados soviéticos ideais!
E note-se que nenhum equívoco é possível a este
respeito. A Rússia formou seus soldados com anos de antecedência sobre a
guerra. Eles nem sabiam a quem deveriam guerrear. Portanto, não foram educados
para odiar só o atual inimigo alemão. E, com efeito, a máquina de guerra russa,
baseada no ódio, seria muito frágil se só pudesse funcionar contra um inimigo
determinado. Os soldados russos já eram educados para o ódio quando prestavam
continência a Stalin e Ribbentropp reunidos para sujar
as mãos no pacto em que sacrificaram a Polônia. Nessa hora, apareceram nazistas e comunistas como bons
amigos aos olhos do mundo e das tropas soviéticas postas em linha de parada. Os
soldados russos, quando aprenderam que deveriam odiar o inimigo, certamente são
sabiam, pois, que inimigo iriam odiar. Aprenderam o ódio anônimo, em tese, o
ódio em princípio contra tudo quanto não fosse conveniente aos seus interesses
nacionais. Em outros termos, aprenderam a odiar em potência toda a humanidade,
desde que em qualquer coisa ela não fosse joguete da diplomacia e do
imperialismo soviético. Em dado momento, a máquina deflagrou contra a Alemanha.
Poderia ter deflagrado também contra outros povos. E poderá ainda deflagrar
contra outros de futuro... É evidente que esse ódio não é privativo dos
soldados. Numa época de guerra total, em que todo cidadão combate no fronte
interno ou externo, esse ódio pregado nas casernas há de ser pregado também nas
escolas e pela imprensa. A URSS se gloria, pela boca de Fomickencko,
de vencer a Alemanha, praticando precisamente o princípio mais genuíno do
nazismo: o ódio. Cai a Alemanha, não cai Nietzsche.
Morre o III Reich, mas antes mesmo de tombar ele
exangue em terra, a Rússia reivindica para si, recolhe em suas mãos, desfralda
ufano e cobre de louros o estandarte do ódio que era o emblema espiritual do
nazismo.
E que argumentos para justificar
esse ódio! O argumento econômico! Ensinar um homem a odiar outro, a fim de
economizar mais munições! Assim, não se trata nem um pouco de saber se esse
ódio é justo, razoável, proporcionado às suas causas. É econômico: isto basta
para incrustar a martelo esse sentimento na mente humana. O que há de mais
degradante para nossa pobre espécie já tão degradada?
* * *
Alguns leitores sorrirão: O LEGIONÁRIO sempre
irredutível em sua intransigência! Como podemos não perceber que o ódio é o
único meio de se ganhar a guerra? É certamente muito bonito, que Nosso Senhor
nos tenha mandado amar os inimigos, mas, positivamente, não é sensato que se
pense que com amor se ganham batalhas. O que quer o Legionário? Que os soldados
russos vão de encontro aos germânicos com pequenos bouquets de rosas e jasmins? Que
lhes cantem modinhas para deter seu avanço? Que se imolem portanto,
estupidamente? Onde está o bom senso? Positivamente, pretender que essa ou
qualquer guerra se faça com amor é rematada tolice. Guerrear é brigar. Brigar
há de ser com força. Força para brigar só se encontra no ódio. Logo, sem ódio
ninguém vence. Ora a Rússia quer e precisa vencer. Logo, tem de odiar. Mais
tarde, voltaremos a pensar na romântica pregação de Nosso Senhor no Evangelho.
Mas é preciso reconhecer que no momento a pregação evangélica está inteiramente
deslocada!....
* * *
Maritain - que às vezes
ainda acerta, e antigamente acertou muitas vezes de modo admirável -, Maritain fez recentemente uma conferência nos Estados
Unidos sobre Machiavel, em que mostrou que uma das causas do maquiavelismo é o
medo tolo e literal por que muitos católicos interpretam o dever de
simplicidade e inocência, que lhes é imposto pelos Santos Evangelhos. Por
vezes, entende-se o dever da candura evangélica com tal falta de precisão
hermenêutica, que praticamente essa admirável virtude se equipararia à mais
indiscutível imbecilidade. Os homens que não querem ser imbecis reputam, pois,
toda a lealdade inteiramente inexeqüível. E atiram-se aos braços do
maquiavelismo.
O mesmo se dá com o dever do amor do próximo, inclusive
do amor do inimigo. A doutrina católica condena do modo mais formal, que se
pregue o ódio ao adversário. Ela ensina que o devemos amar, ainda mesmo quando
o combatemos. Isto não quer dizer que sejamos uma corja de imbecis. Obrigados a
combater, combatamos com valentia, não porém por ódio ao adversário, mas por
amor à justiça. É o que ensina S. Tomás de Aquino, hoje tão freqüentemente citado e tão poucas vezes lido.
Na I, II, q. 105, art. III, o Santo Doutor tratando
das disposições da Lei Antiga sobre as relações dos judeus com as nações que
guerreavam, dá implicitamente as obrigações de uma nação cristã em guerra.
Ver-se-á nesse texto o mais alto amor do próximo aliado a uma larga, sensata e
inteligente concepção dos deveres da posição de uma nação em guerra:
"Do mesmo modo, quanto às
relações bélicas com os povos estrangeiros, a Lei (Antiga) impôs preceitos
convenientes. Em primeiro lugar, proibiu as guerras injustas: manda o Deuteronômio XX que, como as tropas hebraicas chegassem a
uma cidade para a guerrear, antes lhe oferecessem a paz; em segundo lugar,
manda-lhes conduzir com vigor a guerra encetada, confiantes no auxílio divino;
e para que melhor se observasse esse dever instituiu que, antes da batalha, os
sacerdotes confortassem os judeus prometendo-lhes o auxílio de Deus; em
terceiro lugar lhes ordenou que removessem os obstáculos à guerra,
desfazendo-se dos soldados que lhes pudessem servir de obstáculo por qualquer
razão".
Como se vê, não há aí, nem melúrias, nem sentimentalismo,
nem ódio. Amar o próximo consiste em lhe querer bem. Querer bem de alguém é
querer para ele o seu bem. Os judeus deveriam amar os estrangeiros, não movendo
contra eles guerra injusta, e, mesmo depois de agredidos por seus adversários,
deveriam evitar até o último de lhes retribuir a agressão. A guerra deveria ser
portanto somente defensiva, e encetada sem ódio e a contragosto. Mas, se
inevitável a guerra, pela obstinação do adversário, tornava-se um dever
conduzi-la com vigor. Vigor sem ódio, porém, de sorte que, feita a paz, as
condições dos vencedores fossem tão benignas quanto a prudência pudesse
permitir.
Foi essa a atitude dos diplomatas e guerreiros
cristãos em todos os tempos. Eles nunca precisaram de escolas de ódio, para
obter contra seus adversários os mais insignes triunfos. Bastava-lhes a serena
consciência do dever a cumprir. O mundo muçulmano combatia os cruzados cheio de
ódio. Os cruzados combateram cheios de amor. O fato é que os muçulmanos foram
expulsos de quase toda a Europa pelos guerreiros medievais.
A moleza não é o amor, o amor não é tolice. Como a
coragem não é ódio. Não baralhemos os conceitos, e condenemos claramente a
abominável formação que recebem as tropas soviéticas.
* * *
De tudo quanto dissemos se depreendem dois
ensinamentos muito diversos mas muito práticos.
Anda por aí uma certa orientação sentimental em
matéria de catolicismo, que reduz tudo a flores e sorrisos. Toda mutilação da
doutrina católica é um mal, e prepara terríveis surpresas. Se não vemos com bom
senso a doutrina de amor pregada pela Igreja é ou não é verdade que estaremos
dando alguma razão aos partidários do ódio?
Outro ensinamento se diz numa frase só: nenhum povo
da Terra deve fiar na amizade de outro que organiza de tal maneira o ódio. O ódio
é o contrário das relações internacionais pacíficas, e o governo brasileiro
anda muitíssimo bem em não reconhecer até agora a Rússia, estimando embora que ela esmague quanto antes a
abominável hidra nazista, inimigo n.º 1 da Igreja em nossos dias.