Felizmente o estudo da História do Brasil vai se
tornando cada vez mais interessante. Já estamos longe do tempo em que o maior
requinte de sabedoria nesta matéria consistia em dizer com toda a precisão o
número de caravelas, chatas ou navios redondos com que aportavam ao Brasil as
esquadras lusas; a data exatíssima em que D. João VI comeu aqui as
primeiras sardinhas, ou Tiradentes aprendeu tabuada.
Essas ninharias passaram ao segundo plano, enquanto o estudo dos aspectos
ideológicos e sociais de nossa História se vai tornando sempre mais completo.
Com isto, felizmente, as figuras proeminentes de nosso passado vão saindo da
penumbra em que jaziam, se destacam do fundo insípido e comum das meras
crônicas em que figuravam, tomam relevo, corpo, personalidade, animam-se,
causam interesse, e até admiração.
Para isto, é preciso que não nos limitemos à mera
repetição, compilada com originalidade maior ou menor, do que disseram os
outros, mas que nos animemos a ir resolutamente aos arquivos, que tenhamos a
coragem de perder longas horas de pesquisa honesta entre documentos poeirentos,
analisados depois com seriedade, método, inteligência, para a composição de
obras verdadeiramente substanciosas.
Tenho em mãos um trabalho que nos dá a esperança de
que as futuras gerações de brasileiros saberão manter e desenvolver dentro
dessa linha o trabalho de elaboração de nossa história. É uma monografia rica
em documentação, em originalidade, em verdadeiro valor, elaborada entretanto,
por um jovem de 16 anos, simples aluno de segundo ciclo do Colégio Santo Inácio no Rio de Janeiro. O trabalho versa sobre "O Senador do Império,
Cândido Mendes de Almeida", e vem prefaciado pelo Revmo.
Sr. Pe. Arlindo J. Barretos, S.J. Seu autor é o jovem Cândido Antônio Mendes de
Almeida, que já nesta obra de estreante se revela capaz de usar
com dignidade o nome de seu ilustre ancestral.
Vale a pena ler este trabalho, para se conhecer
melhor a figura do grande Cândido Mendes, genuíno tipo de Veillot
brasileiro. Nós, católicos, temos a obrigação absoluta de reagir contra o
preconceito corrente de que o brasileiro é irremediavelmente céptico,
displicente, mole, incapaz de obedecer com inflexível exatidão aos austeros
preceitos do Evangelho, incapaz de produzir homens de fibra combativa, ânimo
sobranceiro, coerência ideológica e têmpera de aço, como os que existem em
outros povos. O melhor que se poderia tirar do brasileiro seria, ao menos
segundo certa corrente, o maxixeiro carnavalesco dos
sambas e das modinhas. A favela seria o âmago da brasilidade.
Pessoalmente, não posso pensar assim: conheci de
perto Dom Duarte Leopoldo e Silva, a
síntese mais nobre e venerável de todas as virtudes verdadeiramente brasileiras
e verdadeiramente cristãs. De uma coerência doutrinária inflexível, de uma
austeridade de vida modelar, de uma firmeza de caráter adamantina. Dom Duarte
foi um grande homem no sentido mais genuíno, isto é, portanto no sentido mais
católico do termo.
Mas é preciso que os estudos históricos vão
exumando as outras grandes figuras do movimento católico no Brasil, e que
mostrem que D. Vital não foi uma "avis rara" ou antes uma "aves
única" nos horizontes históricos do país. É o que o jovem colegial do
Santo Inácio vem fazer, revelando-nos a figura austera, máscula, nobre,
intrépida e cristã de outra grande figura intimamente ligada a Dom Vital, que
foi o senador do Império Cândido Mendes de Almeida.
* * *
Sobravam em Cândido Mendes todas as qualidade que
dele fariam um grande homem. Inteligente, ativo, metódico, de caráter
elevadíssimo, por um labor que ocupou toda a sua vida, Cândido Mendes conseguiu
tornar-se eminente a um tempo em vários campos muito árduos da produção
intelectual. Geógrafo distintíssimo e fecundo, a quem se deve o famoso
"Atlas do Brasil", jurisconsulto de nomeada nacional, historiador
sólido e meticuloso, orador distinto, homem público ativo e abnegado, Cândido
Mendes no Parlamento, no foro, na política, na imprensa se revelou uma das mais
altas e fortes celebrações do Brasil oitocentista, alcançando lugar de relevo
entre os grandes homens que constituíam em torno de D. Pedro II a grande
constelação de estadistas que tivemos no II Império. Em todas estas atividades
entretanto, Cândido Mendes soube ser acima de tudo um católico militante,
ortodoxo, intrépido, apostólico. Dir-se-ia muito pouco dele sustentando que
entre muitas coisas excelentes, fez, nas horas vagas, um pouco de trabalho em
prol da Igreja. O Catolicismo foi sua preocupação central, cada vez mais
ardente e empolgante à medida que ele crescia em maturidade, em anos e em
experiência, para se tornar, na última e culminante fase de sua existência, o
ideal avassalador e exclusivo que dava a seus dias e à sua vida o seu mais alto
sentido.
Nesta atividade polimorfa, Cândido Mendes soube
mostrar-se sempre um brasileiro no genuíno sentido da palavra, isto é, não um
acomodatício, nem um displicente, nem um céptico, nem um católico "muito
sincero" mas dos que acham que em matéria de Religião "il y a des arrengements avec le ciel", mas um varão
digno de trazer com altivez na fronte o sinal do Batismo, por ser um valoroso e
íntegro "miles Christi",
um membro da Igreja militante, e não daquilo que, com muito espírito, alguém
chamou uma vez a "Igreja dormiente".
A este respeito, vale a pena ler por exemplo, o
capítulo "O Católico" da monografia de Cândido Antônio Mendes de
Almeida, para se perceber desde logo o interesse deste estudo para a Ação
Católica Brasileira. Cândido Mendes foi um verdadeiro precursor da Ação
Católica no Brasil.
Neste feitio especial de Cândido Mendes, agrada
muito uma faceta: a argúcia. Como católico, Cândido Mendes não foi um proclamador de lugares comuns, um defensor de verdades
incontroversas, um desses vulgares heróis de opereta que as vezes aparecem nas
fileiras de todas as ideologias, sublimes em defender o que ninguém ataca, ou
em atacar o que ninguém defende. Cândido Mendes não foi um destes católicos que
lutam pela Igreja de Cristo, atacando conceitos e teorias do mundo da lua. Ele
desceu aos fatos, lutou com homens e não apenas com princípios, e soube pugnar
com argúcia, desferindo seus mais terríveis golpes contra um inimigo [...]
tremendo do Catolicismo. [...] Cândido Mendes
merece ser considerado um precursor da Ação Católica precisamente porque um herói
na luta contra [ess]a hidra [...].
* * *
E para a Ação Católica este livro tem um sentido
especial, a todas as organizações de Ação Católica. Para fornecer exemplos
concretos para círculos de estudos, para conferências, para artigos, é
magnífico, porque a vida de Cândido Mendes está cheia de fatos interessantes
dessa natureza.
E para a Ação Católica este livro tem um sentido
especial. Escrito por um descendente do grande brasileiro, que certamente é um
católico militante do qual muito pode esperar a Igreja no Brasil, ele constitui
um elo entre o presente e o passado, uma afirmação de perenidade de nossos
ideais, na alma das gerações novas, a esperança de que o passado pode
conservar-se e reviver no que ele tem de perene e definitivo pela obra dos moços
animados de verdadeiro espírito católico.
Essa monografia é pois uma utilíssima contribuição
que o jovem autor, pelo ministério dos beneméritos PP. Jesuítas, seus
formadores, presta à causa católica entre nós.