No dia 29, o LEGIONÁRIO completará 17 anos de lutas
e de trabalhos. Sua fundação, que se deu em 1927, coincidiu com as primeiras
manifestações do renascimento católico que se vem pronunciando de modo cada vez
mais acentuado em nosso país. "Coincidiu" não é, entretanto, bem
exatamente o termo. Entre um e outro fato não houve mera coincidência, mas uma
relação vital e direta de causa e efeito. O LEGIONÁRIO nasceu do zelo e da dedicação dos pioneiros
que desde a primeira hora levantaram entre nós o estandarte da reação católica.
Ele nasceu, portanto, com uma missão bem determinada. Cumpria-lhe exprimir as
tendências essenciais dessa reação, velar por que essas tendências, conservadas
íntegras dentro da natural mutabilidade das circunstâncias e dos tempos,
conservassem também ao "renouveau" de Catolicismo que se operava, o seu
verdadeiro sentido, os seus objetivos iniciais, sua continuidade histórica
enfim. Cumpria-lhe ser o porta-voz dessa mentalidade de reação vital,
estender-lhe a influência, facilitar-lhe o triunfo final.
Desde o seu primeiro dia portanto, o LEGIONÁRIO não
teve o caráter de um órgão católico inerte, apregoando nossa doutrina com um
sistema abstrativo e tão indiferente à realidade, que
poderia servir igualmente para o século XX e para a época em que os primeiros
imperadores da dinastia dos Mings começavam a
governar a China. Dentro da Santa Igreja, cada época herda das anteriores
certas virtudes que lhe cumpre praticar e acrescer, e se defronta com problemas
em função dos quais deve praticar de modo especial e por assim dizer novo,
virtudes que as épocas anteriores ainda não tinham considerado sob o prisma da
época presente. Assim, na indefectível continuidade histórica que existe na
Santa Igreja, pode-se notar de época para época diferenças de matiz análogas às
que se notam, na mesma época, de uma para outra Ordem Religiosa. O LEGIONÁRIO
situou-se claramente, desde seus primeiros dias, diante dos problemas
peculiares à nossa época, e teve desde logo um feitio espiritual muito
característico. Ele trazia em seu programa todas as promessas e todas as
esperanças da reação religiosa que começava então a se esboçar. Nesta vigília
de um aniversário que transcorrerá em quadra de tanta significação para a Igreja
e a Cristandade, é bem chegado o momento de um sério exame de consciência para
os que lutam pela causa de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Dos maiores aos menores, temos todos
responsabilidades que, se no quadro geral dos acontecimentos podem não ser
grandes - aliás o que não é grande, desde que interesse à salvação das almas?
-, são grandes por certo no quadro de nossas responsabilidades particulares. Um
exame de consciência pressupõe a noção clara de um dever a cumprir, e a análise
de uma conduta para ver se nela se cumpriu o dever. O exame de consciência
confere um ideal com uma vida, para ver se a vida está à altura do ideal. É o
que procuraremos fazer publicamente.
* * *
Qual o ideal inicial do LEGIONÁRIO? Qual a direção
em que se movia a reação espiritual que começava a clarear os horizontes
ideológicos do Brasil de 1927?
Estávamos na liquidação final do regime liberal.
Saturados de ceticismo, de latitudinarismo, de
materialismo, deformados pelo linguajar baixo e deprimente da imprensa, pelo
espírito dissoluto do teatro e do cinema, pelo ambiente de crassa trivialidade
em que se desenvolvia a juventude, aspirávamos todos por um ideal mais alto.
Não tínhamos dúvida sobre esse ideal. Era o Catolicismo, plenitude de todos os ideais verdadeiros e nobres. Na
atmosfera que respirávamos, duas circunstâncias nos afastavam desse ideal. De
um lado, os inimigos declarados da Religião [...]. De outro lado, os barateadores do espírito cristão: semi-católicos,
muito resadores e... muito pecadores; gente que cria
mas não praticava; gente que cria neste dogma mas que não cria naquele; gente
que conservava, com um rótulo cristão, todos os sintomas de comodismo,
displicência, indiferentismo do espírito do século. Católicos, enfim, para os
quais a Igreja era um fardo que carregavam sem entusiasmo, um ideal com o qual
procuravam sofismar, um espírito que procuravam de todos os modos acomodar com
o da época, a fim de terem também a sua parte, lauta e confortável, no grande
festim de Baltazar, que foram os últimos anos da democracia liberal.
Os [inimigos da Religião] desprezavam a fundo o
católico de tipo corrente. Sabiam que ele era, de antemão, o grande derrotado,
pois que, no momento oportuno, deixaria a carga de catolicismo ir a pique, para
salvar assim o prazer de viver. Nesta gente que acendia dois círios, um a Deus
e outro ao demônio, o círio de Deus minguava, se consumia, bruxuleava. O círio
do demônio era novo, alvo, rijo, sua chama gorda e cintilante. No dia em que o
círio de Deus começasse a queimar os dedos do burguês, [nenhum dos adversários
da Igreja] tinham dúvidas sobre o que faria desse pavio incômodo o burguês comodista. Estávamos no último lusco-fusco de um ocaso da
Cristandade. Na reação que clareou os horizontes, havia implícitas duas reações.
Uma, contra os adversários da Fé, que deveriam aprender pela rijeza dos golpes
que recebessem, que o campo não estava mais aberto sem reservas, à sua
insolência, sua afoiteza, seu cínico desprezo do Catolicismo. Outra, contra os
católicos de meias medidas ‑ "católicos café com leite", era o
termo da época ‑ que com o escândalo de sua tibieza insinuavam por toda a
parte a idéia de que o catolicismo morria de inanição. Todo o espírito da época
se resumia nesta frase de nosso primeiro diretor: "quem não é apostolo, é
apóstata". Acabou-se o falso Catolicismo de mangas largas, em que qualquer
batedor de peito era tido como católico. A simples inércia já era uma
apostasia. Poucos, mas bons. Era esse o nosso ideal. Esse ideal tinha nas
atitudes, na linguagem, na direção viva, nervosa, inteligente de Jackson de Figueiredo a sua concretização
contemporânea. E em Dom Vital, [...] o seu herói histórico.
* * *:
Dessas atitudes iniciais, deduziam-se outras.
Disciplina entusiástica à Santa Sé. Amor intensíssimo
a todas as Ordens Religiosas, e especialmente à Companhia de Jesus. Nítido espírito de contra‑revolução: o padre acima
e muito acima do leigo, mais acima ainda o bispo e acima do próprio bispo, o
Papa. A palavra de um leigo devia levantar-se sempre para sustentar a autoridade
do sacerdote. Era o sacerdote quem acima de tudo devia dirigir as iniciativas
leigas. A palavra do sacerdote era sempre respeitada como a expressão autêntica
do pensamento do bispo, doutor e pastor em sua diocese. A palavra do Papa era a
palavra do próprio Deus, fonte de toda a autoridade e de toda a verdade, coluna
na qual se deviam firmar todos os magistérios, para serem legítimos e válidos.
Muita, muita, muitíssima devoção a Nossa Senhora. Espírito Eucarístico ardente.
Uma especial delicadeza em tudo que se refere à pureza e aos bons costumes. Em
suma, como sempre se deu na Santa Igreja, os fiéis de escol deveriam amar com
especial ardor tudo aquilo que de modo especial se atacava na Religião.
* * *
Os atuais dirigentes do LEGIONÁRIO, em sua quase
totalidade, não pertenceram aos primeiros dias do jornal. Pessoalmente, só
ingressei na Congregação Mariana de Santa Cecília, à
qual então o LEGIONÁRIO pertencia, em 1928, como tímido e distante noviço.
Lembrando-me, entretanto, daqueles tempos saudosos, dos mais saudosos de toda a
minha vida, lembrando-me de toda a atmosfera intensamente católica que se
oferecia ao meu espírito ávido de adolescente, e que respirei com a sofreguidão
de quem sai de um porão sombrio para o mais puro dos píncaros de Campos do
Jordão, revivo cheio de reconhecimento e de saudades uma quadra
que me parece um Tabor. E voltando daí para os dias
que correm, tão cheios de angústias, de apreensões, de problemas, os meus
olhares, não posso deixar de dizer que, graças a Deus, o LEGIONÁRIO de hoje é
bem o de ontem, e que o pendão que ele ostenta não perdeu nenhum de seus
florões.
Toda a obra humana tem defeitos, lacunas, misérias.
Perdoe-nos Deus as nossas. Dentro de poucos dias, festejar-se-á a Universal
Mediação da Rainha do Céu. Pedir-Lhe-emos muito
especialmente que nos alcance, com o conhecimento exato de todas as nossas
faltas, um desejo ardente de as emendar, e as graças necessárias para tal. Mas,
ao mesmo tempo, podemos dizer com humilde reconhecimento que, a despeito de
todas as lacunas, o LEGIONÁRIO é sempre o mesmo LEGIONÁRIO de seus primeiros
dias.
* * *
Antes de tudo, amamos sempre o Pontífice Romano.
Não houve uma palavra do Papa que não publicássemos, que não explicitássemos,
que não defendêssemos. Não houve um interesse da Santa Sé, que não
reivindicássemos com o maior ardor de que uma criatura humana seja capaz. Em
nossas palavras, graças a Deus, nenhum conceito, nenhum matiz que destoasse do
Magistério de Pedro em uma só virgula, em uma só linha sequer. Fomos em toda a
linha os homens da Hierarquia, cujas prerrogativas defendemos com ardor
estrênuo, contra as doutrinas que pretendem arrancar ao episcopado e ao clero a
direção do laicato católico. Não houve equívocos, nem
confusões, nem tempestades que conseguissem deixar em nosso estandarte a mais
leve mácula neste ponto. Defendemos em toda linha o espírito de seleção, de
formação interior, de mortificação e de ruptura com as ignominias do século.
Lutamos pela doutrina da Igreja contra os excessos torvos do nacionalismo estatolátrico que dominou a Europa; contra o nazismo, o fascismo e todas as suas
variantes; contra o liberalismo, o socialismo, o comunismo, e a famosa "politique de la main tendue". Ninguém se
ergueu em nenhuma parte do mundo contra a Igreja de Deus, [sem] que o
LEGIONÁRIO ‑ dentro do âmbito
evidentemente limitado de suas possibilidades ‑ não protestasse. Ao mesmo
tempo, nunca perdemos de vista a obrigação de alimentar de todos os modos a
devoção a Nossa Senhora, e ao Santíssimo Sacramento. Não houve uma só
iniciativa católica genuína, que não tivesse todo o nosso entusiástico apoio.
Nunca a estas portas bateu quem tivesse em mira apenas a maior glória de Deus,
sem encontrar colunas amigas e acolhedoras. Há nessa vida um bom combate a
combater. Estamos extenuados, sangramos por todos os membros. Foi nesse combate
que nos cansamos, que nos ferimos. Em compensação, não ousamos pedir como
prêmio senão o perdão de tudo quanto inevitavelmente tenha havido de falível e
de humano nesta obra que deveria ser toda para Deus, só para Deus.