O curso da guerra vai justificando inteiramente as
afirmações que fizemos não há muito. O Sr. Adolph Hitler, cada vez menos senhor da vitória, continua senhor de a
dar [a] quem quiser. Vencer, não o conseguirá mais. Resta-lhe desenvolver de
tal maneira as operações, que em última análise, lhe caiba decidir quem será de
fato o vencedor.
Ele ainda tem forças suficientes ou para conter os
russos na frente oriental, ou para retardar a invasão dos aliados na frente
ocidental. Contra os dois perigos não poderá resistir. Se ele retardar a
invasão dos Aliados, a vitória favorecerá mais os russos. Se desviar suas
tropas do Ocidente e as atirar contra os russos, favorecerá mais os aliados.
Com efeito, o melhor quinhão da vitória caberá a quem se cobrir de maiores
louros no campo de batalha, a quem, sobretudo, ocupar maior espaço territorial.
Ninguém poderá forçar os russos abandonar as zonas que tiveram invadido.
Ninguém lhes dará zonas que não tiverem conquistado. Em última análise, a
Rússia terá o que agora conseguir. Depois, será
tarde. O Sr. Adolph Hitler
sabe disso. E o que faz esse "cruzado", esse "campeão
anticomunista", esse "defensor da civilização européia e cristã contra
a barbárie Mongólica"? Mobiliza na frente
ocidental tantos recursos, que até agora a invasão não foi possível. E
lentamente vai cedendo o terreno aos russos. Ser-lhe-ia fácil atirar contra os
russos algumas das divisões que tem mobilizadas no ocidente, e defender-se
assim contra um adversário cada vez mais próximo, cada vez mais insolente,
cujas vitórias cada vez mais o desprestigiam aos olhos de seus amigos e de seus
inimigos. Ele aceita o risco, sofre a humilhação, sujeita-se a tudo; mas não
quer um desembarque aliado no Continente Europeu.
A Frente Italiana, ele a defende palmo a palmo com
uma pertinácia sem precedentes. E, para conservar alguns quilômetros na Itália, entrega províncias inteiras na Europa Oriental. Não vê
ele que, com isto, dá a alma da vitória aos russos? Evidentemente. Mas se ele
vê isto, e faz isto, ele quer isto. Logo, Hitler
prefere que vençam os russos a que vençam os aliados. Como sempre sustentamos,
os nazistas e comunistas são irmãos gêmeos que estão brigando. Inimigos um do
outro são-no ainda mais dos estranhos, que tenham a insolência de se meter em
suas brigas. E, por isto, o nazismo está cometendo a suprema traição de
entregar a Europa lentamente aos
bolchevistas. Hitler não pode lançar o mundo inteiro
no nazismo, isto é, no comunismo
pardo? Lança-o então no comunismo, isto é o nazismo vermelho.
E o mais curioso é que, a esta altura dos
acontecimentos, o Sr. Stalin parece não ter
muita pressa de derrotar a Alemanha. Em lugar de prosseguir no seu "putch" contra o Reich, atira
suas divisões sobre os Balcãs. A Alemanha satisfeita deixa-o
estrangular os seus pequenos aliados. A proximidade das tropas russas da
fronteira germânica seria provavelmente o sinal de uma formidável insurreição
contra o Sr. Hitler. Mas o "camarada" Stalin não tem pressa de que isto aconteça. É que se ele
derrubar agora o Sr. Hitler, não poderá ocupar depois
a Hungria e os Balcãs. Mas se ocupar os Balcãs e a
Hungria agora, poderá não libertar mais esses países depois da guerra. E, por
isto, num tácito acordo, Stalin deixa prolongar-se a
agonia de Hitler.
Hitler imobiliza no Ocidente
a segunda frente que os aliados querem abrir, e deixa Stalin
ir tomando conta da Europa Oriental e Central. Os dois totalitarismos,
brigando, ainda colaboram. Se colaborassem em regime de paz já seria
extraordinário. Mas que continuem a colaborar até em regime de guerra, nada
prova mais que no fundo eles são irmãos, e que ambos estão muito consciente
desta realidade. Só irmãos que se querem muito, podem continuar a se prestar
esses bons serviços, mesmo em plena briga.
Mais uma vez, a tese do "LEGIONÁRIO" se
confirma, o comunismo e o nazismo são irmãos siameses.
Evidentemente, para a civilização cristã, o
contrário é o que conviria. Seria excelente que os aliados invadissem o
continente, que o Sr. Hitler se entregasse logo, que
a massa da opinião pública reconhecesse que as vitórias russas são no fundo conquistadas
pela imobilização de inúmeras divisões germânicas no Ocidente e que o exército
russo luta inteiro contra um toco de exército teutônico: que assim o prestigio
bolchevista diminuísse. Os escombros do nazismo se dissolveriam. O comunismo
ficaria relativamente contido nos limites territoriais ainda possíveis. E a
civilização cristã poderia cuidar, tranqüila, de preparar o extermínio do
bolchevismo da face da terra.
Nada disto está sucedendo. Nosso "inimigo no
1", o nazismo moribundo, constitui o comunismo, que é nosso "inimigo
no 2", seu herdeiro universal. Os comunistas conquistam todo o
seu poder à custa de um ato de simpatia quase póstumo, do Sr. Adolph Hitler. E, em última
análise, o perigo comunista assoma agora nos horizontes políticos como um verdadeiro
espantalho.
Espantalho sim, e espantalho tanto mais perigoso
quanto só pode ser discernido pelos argutos. Certa política procura alcançar,
até entre os católicos (terribile dictum), simpatia para o regime de Moscou. É uma raça
de católicos invertebrados - de católicos sem espírito católico portanto, que
precisam sempre apoiar-se nos poderosos do dia. Pensam que a Igreja é uma
trepadeira à procura de uma árvore a qual se agarrar para subir. Não
compreendem que a Igreja é, pelo contrário, a coluna do Céu e a rainha do
mundo, e que Ela não precisa de apoio de seus adversários. Ontem, esses
invertebrados namoriscavam com o totalitarismo, e por meio de toda uma técnica
de subtilezas e de bizantinismos arranjavam pretexto
para pactuar com ele. Hoje, pelo contrário, com a mesma técnica, procuram
arranjar meios de pactuar com o comunismo. Ventoinhas sem constância nem
espírito de Fé, precisam lembrar-se de que o Santo Padre Pio XI condenou a "politique de la main tendue", e que,
portanto, entre comunistas e católicos não há acordo possível. Ontem ainda,
eles estavam aterrorizados com o perigo comunista e apregoavam uma entrega ao
nazismo, com armas e bagagens. Hoje, tem terror do nazismo já esmagado e apregoam
uma reconciliação com o comunismo.
Se Deus quiser, a política do
"LEGIONÁRIO" continuará sempre a mesma: confiar na Igreja, e em Deus,
fazendo pactos só com Deus, seus Anjos e seus Santos, desprezando pois,
inteiramente, todos os sofismas que o levariam a macular a pureza imaculada da
doutrina católica.