Na semana passada, fez bastante barulho pela
imprensa um “Padre Dmitrio Tkactchenco”
intitulado ora “representante da Igreja Ortodoxa Patriarcal de Moscou”, ora,
mais vistosamente, “Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa em toda a América do
Sul”. Mais particularmente, devem destacar-se, sobre o assunto, uma extensiva
entrevista telegráfica publicada pelo “Estado” do dia 15 pp. Em lugar de
destaque, e a reportagem organizada pelos “Diários Associados” sobre um
encontro que esse “bispo”, “padre” ou “patriarca” teria tido em certo lugar no
Rio com alguém. A reportagem dos “Diários Associados” foi publicada nesta
Capital pelo “Diário da Noite” do dia 16 próximo passado.
Antes de resumir os ditos e feitos do rumoroso
personagem, convém dizer sobre ele duas palavras.
Antes da grande crise religiosa que culminou com Fócio e Miguel Cerulário, todos
os países da Cristandade professavam a mesma doutrina, obedecendo ao mesmo
Pastor, isto é ao Papa, vivendo dos mesmos Sacramentos, e constituindo um só
rebanho; era a Igreja Católica. Se em todas as coisas essenciais a união era
completa, a Igreja, amiga de uma sábia variedade dentro de uma forte unidade,
permitia a existência de consideráveis diferenças nas coisas acidentais. A
legislação canônica, os paramentos, os trajes eclesiásticos, a liturgia dos
católicos do Oriente – Balcãs, Rússia, Ásia Menor, etc., - eram diferentes em
muitos pontos, da legislação canônica, dos paramentos, dos trajes eclesiásticos
e da liturgia em uso no Ocidente. Essas diferenças, repetimos, versavam sobre
coisas meramente acidentais. Mas, segundo elas, se dividia a Cristandade em
dois grandes blocos harmônicos e irmãos; os gregos e os latinos, ambos
igualmente integrados na Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana.
Infelizmente, a vaidade teológica e patrioteira dos
Bispos do Oriente, açulada pelos pruridos regalistas
dos imperadores de Bizâncio, os mantinha em estado de
perpétua desconfiança para com o Vigário de Cristo na terra. Aos poucos, as
relações entre os Bispos do Oriente, chefiados pelo Patriarca de
Constantinopla, e a Santa Sé, se tornaram tensas. A tensão cresceu cada vez
mais. E, por fim, culminou, com Fócio e Miguel Cerulário, em uma verdadeira separação. Os Bispos do
Oriente, em sua grande maioria, se revoltaram contra o Papa, e arrastaram atrás
de si os respectivos rebanhos.
* * *
Apareceu, então, neste cenário tormentoso, um
primeiro elemento de confusão. Como a grande maioria dos Orientais se separou
da Igreja, constituindo uma igreja independente, a opinião pública, que se
impressiona muito mais com as aparências que com as realidades, identificou aos
poucos as diferenças externas de liturgia e indumentária do Clero do Oriente,
com as diferenças de doutrina. E, aos poucos, chegou a ver nas diferenças
exteriores não só a expressão tangível do dissídio, mas a própria causa e
substância dele. Ora, nada mais falso. Não é pela diferença dos paramentos,
ritos e idioma litúrgicos, nem por algumas diferenças
secundárias do Direito Canônico, que a separação se deu. Nem é por isto que ela
se mantém. A separação se originou do fato de não quererem os Orientais
reconhecer o primado do Romano Pontífice, sua universal e plena jurisdição
sobre toda a Igreja. E daí uma conseqüência muito importante: os poucos Bispos
Orientais que, com os respectivos diocesanos, ficaram fiéis a Roma, unidos a
ela tanto quanto qualquer Bispo brasileiro, espanhol ou francês, se parecem
muito mais, pela indumentária e liturgia, com os Bispos separados de Roma, que
com os Bispos católicos do Ocidente. É fácil de compreender que, para o povo,
que tende sempre a ver nas aparências a própria substância das coisas, esta
situação cria um imbroglio
difícil de esclarecer. Dos Bispos e Padres que não se trajam como os demais,
que usam idioma e ritos litúrgicos diversos dos
demais do Ocidente, alguns são católicos, outros não. Como explicar o fato? O
modo mais simples consiste em apontar desde logo o nó originário da questão:
uns aceitam o Papa e são portanto católicos; outros não aceitam o Papa e não
são católicos...
Entre estes que não aceitam à autoridade, nem
doutrinária nem jurisdicional do Papa, está o “padre”, “bispo”, ou “patriarca” Tkactchenco, que pura e simplesmente não é católico. Esse
“padre”, “bispo”, ou “patriarca”, não sendo católico, não estando em união e
comunhão como Papa, tem na Igreja de Deus tão pouca autoridade doutrinária ou governativa, quanto o “Father Divine”, famoso medium espírita
dos Estados Unidos; quanto o Dalai Lama [...].
* * *
Então, qual sua posição exata perante a Igreja
Católica? A de algum “pastor” protestante, luterano digamos?
Sim e não. Sim, no sentido de que nem um nem outro
tem a menor autoridade para ensinar aos fiéis da Igreja Católica, a doutrina
verdadeira. Sim, no sentido de que nem um nem outro tem o direito de impor ou
proibir qualquer católico algum ato com ordem à salvação eterna. Sim, no
sentido de que o católico não pode nem deve participar dos atos de culto
realizados por um ou outro nas respectivas igrejas. Não - e entra aí mais um
fator de confusão para as pessoas ignorantes – em outro sentido; um “pastor”
luterano não tem do Padre senão a indumentária e o vão título. O “bispo”
cismático pode ser verdadeiramente um Bispo; um “padre” cismático pode ser um
verdadeiro Padre. Bispo rebelde, sem nenhum poder de ensinar nem governar;
Padre rebelde, sem nenhum poder de ensinar nem governar. Isto não obstante,
verdadeiro Bispo, verdadeiro Padre. Como? O que lhe resta de verdadeiramente
“episcopal”, de verdadeiramente “sacerdotal”, se não pode nem ensinar os fiéis,
nem governá-los espiritualmente, nem mesmo associá-los a si nos atos de culto?
Para maior clareza do assunto, deixemos de lado
este problema e consideremos outro. Na Igreja Católica, a validade de quase todos
os Sacramentos só existe quando ministrados pelo Bispo ou pelo Padre. Assim, se
um leigo absolver outro de seus pecados, essa absolvição será nula. Se um leigo
tomar paramentos sacerdotais, e celebrar uma Missa, não haverá Consagração, não
haverá Sacrifício nem haverá Comunhão; em suma, não haverá Missa. Se um Padre
crismar sem delegação do Bispo, o crisma será nulo, inexistente. Se um Padre
ordenar Sacerdote a outro Padre, a ordenação será nula, inexistente. Imagine-se
agora um Sacerdote católico, apostólico, romano, que tire a batina, apostata,
abandona o exercício de seu Ministério sagrado. Imagine-se que ele viaja de
bonde, no momento em que se dá um desastre e um passageiro católico é
gravemente ferido, ficando desde logo em iminente risco de vida. Se o Sacerdote
apóstata lhe der a absolvição, ele morrerá com esse augusto Sacramento. Se não,
morrerá sem ele, porque não há tempo de trazer um Padre em situação regular
perante a Igreja. O Sacerdote apóstata pode e deve dar a absolvição ao fiel.
Este a pode e deve receber sem inquietude de consciência. O Sacerdote apóstata,
embora apóstata, continua Sacerdote, porque o Sacerdócio imprime caráter e
continua até nos excomungados vitandos, a pior classe
de excomungados. E, por isto, embora apóstata, esse Sacerdote pode dar uma
absolvição válida in articulo mortis,
o que o mais santo e virtuoso dos leigos não pode fazer. O mesmo se dá em
relação à Sagrada Eucaristia. Se um Sacerdote apóstata celebrar Missa, comete
pecado mortal de gravíssimo sacrilégio. Seu ato é, pois, profundamente ilícito.
Mas é válido. O pão e o vinho que ele consagrar se transubstanciarão
de fato no Corpo e no Sangue Precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo. Seu ato
será pecaminoso porque injuria mortalmente a Deus Nosso Senhor quem celebra os
santos mistérios estando em estado de pecado mortal. Mas nem por isto o ato
deixa de ser válido. Ora, se o mais virtuoso dos leigos celebrasse Missa, o ato
seria nulo. Através desses exemplos concretos, pode-se notar a diferença que
existe entre o Sacerdote, mesmo apóstata, e o leigo. E se pode ver a realidade
do Sacerdócio, mesmo nos Sacerdotes apóstatas.
Ora do ponto de vista estritamente jurídico, todos
os "Bispos" e "padres" cismáticos são verdadeiros Bispos,
verdadeiros Padres, mas Bispos e Padres excomungados, apóstatas e revoltados. A
situação do fiel católico perante eles é absolutamente a mesma que a de um fiel
católico que esteja diante de uma Padre que tire a batina, ou de um Bispo que,
com ou sem batina, se revolte em termos claros, explícitos e diretos contra a
Santa Sé, escrevendo por exemplo, em alguma revista por ele editada, que
"as Encíclicas de Leão XIII em matéria social precisam ser arquivadas em
nossos dias" e outras coisas desde jaez. Não há nenhuma, nenhuma,
absolutamente nenhuma diferença.
Com isto, o "Bispo", "padre" ou
"Patriarca" Tkactchenco está fichado,
marcado e apresentado.
* * *
Digamos apenas algumas palavras para encerrar o
assunto.
Porque chamamos a esses Padres orientais separados
de Roma de cismáticos, e chamamos um “pastor” protestante de herege? Cismáticos
são os que estão em desobediência à autoridade Eclesiástica, mas aceitam sua
doutrina. Assim, um leigo que aceite a doutrina Católica mas esteja em revolta
contra seu Bispo. Herege é o que nega um ponto da doutrina católica definido em
virtude da infalível autoridade da igreja. Assim, como a Igreja, fazendo uso de
seu infalível magistério, declarou que Nossa Senhora foi concebida sem mancha
do pecado original desde o primeiro instante de seu ser, e declarou ainda que
quem discorde disso é herege, será herege quem disto discordar. Tanto o herege
quanto o cismático não pertencem a Igreja. Mas por títulos diferentes.
De fato, os orientais começaram pelo cisma:
aceitavam toda a doutrina mas se recusavam a obedecer. Mas caíram na heresia,
negando tudo quanto a Igreja definiu depois de sua separação, e que eles não
aceitaram.
Qual a diferença substancial entre hereges e
protestantes, e cismáticos russos? É simples. No fundo, hoje são hereges tanto
uns quanto outros. Mas os "cismáticos" que se chamam assim por
impropriedade e só por tradição, possuem Bispos e Sacerdotes autênticos se bem
que rebeldes. Os protestantes possuem Bispos e Sacerdotes que são rebeldes e
não são autênticos.
Porque isto? Porque os Bispos cismáticos
continuaram a se fazer sagrar de modo a que verdadeiramente recebessem dos
outros cismáticos, seus antecessores, o Sacramento da Ordem, e ordenaram também
válida se bem que ilicitamente Padres. Pelo contrário, os protestantes
introduziram na própria substância da sagração e da ordenação, tais
modificações, que essas cerimônias são nulas. Isto, quando não suprimiram pura
e simplesmente até a forma exterior de Sacramento.
Apresentando, não apenas o "cismático" Tkactchenco mas o cisma, veremos algo no próximo número,
sobre o gesto, feitos e ditos desse rumoroso, intrincado... e insignificante
personagem.