Resumamos rapidamente o quadro da igreja cismática,
que deixamos esboçado em nosso último artigo. Separada de Roma, separada depois
das outras comunidades cismáticas que se fragmentaram na Rumânia, na Sérvia, em outros lugares ainda, em novas igrejas nacionais, a
igreja oficial russa lutava internamente com os mais terríveis problemas. De um
lado, estava acéfala. Proclamara-se "autocefala".
Seu castigo foi este: tornou-se acéfala. O cargo de patriarca da Rússia foi
extinto, os czares assumiram a plenipotência no domínio religioso, e nomearam
para as várias dioceses titulares geralmente sem zelo, nem valor. A
indisciplina se introduziu de todos os modos, nesse corpo em decomposição.
Indisciplina de idéias: os Bispos já não criam mais nos artigos de fé da igreja
cismática, e tendiam a passos rápidos para o protestantismo. Indisciplina de
costumes: nos seminários, revoluções à mão armada, no clero uma tal desordem de
vida que os sacerdotes de extração popular vagueavam em geral pelas aldeias,
inteiramente ébrios, nas horas de intervalo dos ofícios religiosos, praticavam
tropelias e desordens, e eram espancados sem cerimônia pelos civis ou pelos
policiais com que entravam em conflito. Dentro do cisma já corroído pela
heresia, novos "sub-cismas" se delineavam.
Havia igrejas que se separaram por sua vez dos cismáticos na própria Rússia, e
eram por sua vez corroídas pelos iluministas,
mágicos, teosofistas, etc. que nelas se haviam
esgueirado. Nas altas classes da sociedade, o cepticismo ocidental, frívolo e
ímpio campeava. Nas classes baixas, uns restos de cristianismo fortemente
diluídos em superstições e práticas iluminadas de toda ordem.
Essa a ganga. No meio de tanta ganga havia uns
filetes de ouro.
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Seja como for, de que modo for, porque for, a
utilização dos sacramentos, fontes sobrenaturais da graça, sempre constitui
para um povo um bem inestimável. Se até entre os gentios que nunca ouviram
falar na Santa Igreja de Deus pode haver uma ou outra raríssima
alma que saiba preservar-se das superstições idolátricas, praticar a moral
natural e viver na graça de Deus, claro está que entre os russos, muitos dos
quais jamais tinham ouvido falar na Igreja Católica e não tinham culpa,
portanto, de estarem no cisma, tais almas também podiam existir. Ora, a essas
almas a frequentação dos sacramentos não poderia deixar de aproveitar, embora
menos do que se os recebessem na Santa Igreja de Deus.
É a conservação dos sacramentos, e de muitos restos
de doutrina católica, que explica a existência na Rússia de não poucas pessoas
verdadeiramente virtuosas e amantes de Deus, de casos pessoais e concretos de
uma piedade sincera e por vezes até tocante, que levou Leão XIII a escrever que a
Rússia era "um bloco de ouro destacado da
verdadeira Igreja".
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Preservada da corrupção ocidental, fundamentalmente
crente, a população russa, desde que fosse novamente vivificada pelas torrentes
da graça que brotam do catolicismo, poderia produzir para a Igreja os frutos
mais admiráveis. Para isto, bastaria que a hierarquia cismática aceitasse a
obediência ao Romano Pontífice, e professasse os dogmas definidos
posteriormente a separação. Ali estava, à espera dessa hora da providência,
aquela imensa multidão de almas piedosas e crentes, ali estavam as catedrais
magníficas, os mosteiros em que se acumulavam as imagens expressivas e de
inestimável valor artístico e religioso; ali estavam os templos inumeráveis em
cujo interior se desenrolava com sua pompa magnífica a liturgia oriental que a
Igreja católica tão ciosamente conserva e estimula. Com aquela sabedoria tão
paternal e tão industriosa da Igreja, aos poucos se iriam substituindo os
bispos maus por outros, e dentro de algum tempo a Rússia floriria como um dos
mais admiráveis canteiros no jardim da Santa Igreja.
Nesse dia de gáudio, a posição dos protestantes
seria singularíssima. Reconciliada com a Igreja seus
filhos cismáticos, só eles ficariam de fora da unidade cristã. Só eles
continuariam a manter dilacerada a Cristandade. É bem de ver que o exemplo dos
cismáticos concorreria, mais do que qualquer outra coisa, para a conversão dos
protestantes, e especialmente dos anglicanos, entre os quais as tendências para
Roma são por vezes tão acentuadas.
Seria necessário um Pastor para escrever toda
a história das tentativas de conciliação que os Papas tem renovado
incessantemente, de modo a reconduzir para o grêmio da Igreja os Orientais.
Nenhuma delas produziu entretanto resultados muito apreciáveis. Era este o
panorama geral, quando se deu uma formidável explosão, que de norte a sul
sacudiu todos os templos russos, de todas as religiões: era a revolução
comunista.
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A igreja cismática, de embate com a perseguição, se
esfarelou. Alguns de seus dignitários morreram com linha. Outros fugiram e
formaram no exterior o famoso Sínodo de Carlovac, de tendências monarquistas e ulteriormente nazistas, de
que já conversamos. Outros ficaram na Rússia, cumprindo um dever penoso e
arriscado, ora às ocultas, ora sob as vistas algum tanto desanimadas dos
agentes comunistas.
A luta comunista contra todos os cultos, inclusive
o católico romano, teve dois aspectos nitidamente diversos.
O primeiro foi terrivelmente sangrento, foi talvez
a primeira etapa. Matou-se, queimou-se, incendiou-se, dispersou-se, profanou-se
tanto quanto se pode, tudo que se pode queimar, incendiar, dispersar ou
profanar. Depois que tudo estava reduzido a escombros, e o terror tinha
dizimado os elementos mais perseverantes e fiéis, tinha dispersado os mais
tímidos e pusilânimes, uma formidável campanha de ateísmo se desencadeou sobre
toda a Rússia. Durante anos e anos
inteiros, disse-se, sussurrou-se, afirmou-se, vociferou-se, nos lares, nas
cátedras, nos rádios, que Deus não existe. O comunismo fez todo o possível para
arrancar da massa do povo russo seu espírito religioso deixando os fiéis
reduzidos a grupinhos de párias, freqüentando as
igrejas com o risco da própria vida. Tudo se tentou neste sentido. E, de fato,
no sentido da paganização, isto é, da extirpação de
toda e qualquer Fé nos corações, muito se conseguiu. Mas não se conseguiu tudo.
E nisto se encontra o segredo da atual política religiosa do comunismo.
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Não sou dos que pensam que a reação religiosa na
Rússia tenha sido muito extraordinária. Certos indícios que se costumam
mencionar em sentido contrário não querem, no fundo, dizer muita coisa.
Lembro-me, por exemplo, de um telegrama datado de
Moscou que há mais de um ano contava que na noite do Natal os comunistas
permitiram que se realizasse um ofício solene numa antiga igreja cismática,
reaberta ao público, e que a igreja ficou de tal maneira cheia, que o povo se
aglomerava até na praça fronteiriça. Este pequeno fato - citam-se muitos outros
ainda - prova muito, e muito pouco. Muito, porque é admirável que tanta gente,
ainda se conservasse fiel depois de tanta perseguição. Muito pouco, se
considerarmos que Moscou foi uma cidade cheia de igrejas outrora, e que essas
mal bastavam para conter a população piedosíssima que nelas se acumulava nas
grandes festas. Agora, tudo isto cabe em uma igreja só e em parte da praça
fronteira. Dir-se-á que as outras igrejas se teriam enchido, se tivessem sido
abertas. Sim? Que algumas pessoas lá fossem ter, é provável. Enchido? Enchido
como antes do bolchevismo? Sejamos reais: isto é pura e simplesmente uma
quimera. De fato, o ateísmo, o indiferentismo, o anti-clericalismo
semeado pelos comunistas arrancou massas inumeráveis ao império de qualquer fé,
ou seja, plenamente cristã como a Fé Católica, ou vaga e mescladamente
cristã como a fé dos cismáticos.
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E então? Quando o comunismo cessasse, o que seria
do futuro religioso da Rússia? A Igreja cismática vivia do czarismo
e morreria sem ele. No exterior, muitos de seus membros se converteram ao
catolicismo. Se a Igreja tivesse, numa Rússia post-comunista,
grande liberdade de ação, ela seria herdeira universal do cisma defunto,
recolheria amorosamente nessas ruínas os restos de verdade e de bem que ainda
fumegam e reconstruiria a Rússia católica, com que tanto sonharam os Papas e
todos os homens afeiçoados aos interesses da Igreja e à glória de Deus.
Foi isto que se deu? Ou é isto que parece que se
dará depois da guerra? Não.
Os comunistas são inteligentes. Perceberam que já
conseguiram muito, mas que muito lhes resta conseguir. Por isto, abrandaram
lentamente a perseguição, esgueiraram nas fileiras cismáticas agentes seus, já
procuram entabular relações simpáticas com os padres católicos ali existentes.
Aos poucos, continuando embora a favorecer por todos os modos a impiedade,
darão liberdade a todos os cultos, e tirarão disto imensas vantagens.
Exemplifiquemo-nos. Para a descristianização da
Rússia, tudo quanto a violência, ou campanha direta contra a Religião, poderiam
conseguir, já se conseguiu. Restaram núcleos de resistências que nenhuma força
dissolverá, que nenhuma blasfêmia fará recuar. Como dissolver estes restos de
recalcitrantes?
Organizando-se, dando-lhes chefes tíbios,
indiferentes, escandalosos, chefes traidores que lentamente afeiçoem sua
mentalidade a do comunismo, e que façam com suas mãos de pastores o mal que por
outros meios o inferno não conseguiu. É terrível. E ao mesmo tempo é muito
simples.
Veremos no outro número que isto se tentará, e que
com isto, ao mesmo tempo que a Fé dos católicos correrá terrível risco, o
governo soviético evitará o total desaparecimento da igreja cismática e a fusão
dos remanescentes desta com o Catolicismo. Em outros termos, para evitar que a
Igreja herde os escombros da Rússia cristã, o próprio comunismo os tomará
"amorosamente" em mãos, e os reorganizará.
É assim a luta de Satanás.