Em memorável Encíclica, que
alcançou repercussão universal, o Santo Padre Pio XII incitou a piedade dos fiéis para a doutrina do
Corpo Místico de Cristo. Com a situação
penosa criada para a Santa Sé pela evolução político-ideológica
da República Italiana, parece chegada,
para todo o orbe cristão, a ocasião de viver com particular intensidade as
verdades sobrenaturais que a "Mystici Corporis" ensina.
Com efeito, uma campanha anticlerical violenta se desencadeou em toda a península,
com o objetivo de suscitar o ódio popular contra a Igreja, seu magistério, sua
disciplina, sua hierarquia. Tal campanha se utiliza de linguagem fortemente
demagógica e, em lugar de articular argumentos claros, suscetíveis de uma
refutação lógica, maneja somente a injúria grosseira, a facecia
de taverna e a calúnia sem propósito. Ao mesmo tempo a Itália está sendo inundada por uma verdadeira onda de
publicações pornográficas e imorais, vendidas a custo baixo, e quiçá, uma ou
outra vez com prejuízo financeiro para seus editores.
É impossível não perceber para onde conduz tudo isto. Os
promotores desta campanha empregam argumentos e processos capazes de
impressionar e mover exclusivamente as camadas incultas, os espíritos fracos e
crédulos, os temperamentos revoltados e variáveis. A exacerbação das paixões sensuais atirando o povo ao botequim, ao
lupanar, à casa de tavolagem prepara os desordeiros capazes amanhã de
todos excessos. Foi com estratagemas destes, que se preparou Paris para os anos macabros de 1789,1790 e 1791. A
tragédia russa de 1917 e a da Espanha em 1936 não teve outro ponto de partida.
Sem querer exagerar a gravidade da situação italiana, é necessário reconhecer
contudo, que o rumo, a intensidade e a
amplitude desta campanha justifica a fundo a apreensão. É manifesto que
um grupo oculto procura despertar os instintos mais baixos e nas camadas mais
desabonadas da população um ódio vivaz contra a Igreja e o Papa. Para chegar a
isto, certas forças ocultas não estão poupando nem caudais de ouro nem esforços
ingentes. A que fim quererão chegar? Qualquer que seja este fim, uma coisa é
certa: tudo isto só pode conduzir ao mal.
Da gravidade da situação,
assim criada, dá bem uma idéia o procedimento do Vaticano. A atuação do Papa
durante o conflito mundial atraiu para ele o reconhecimento de todos italianos
honestos e sensatos, de qualquer posição
ideológica. Entre os homens limpos, dignos e cultos que nos momentos de sanidade
mental e social dirigem a opinião, a campanha ignóbil da pornografia e do anticlericalismo não poderia ter qualquer efeito.
Condescendendo em tomar conhecimento desta campanha, e em lutar contra ela, o
Vaticano nada tinha a ganhar junto à elite da nação, pois que conta com uma
solidariedade dela. Se, pois a Santa Sé, cujo critério e circunspecção todos
louvam, entrou por assim dizer na liça contra adversários em si mesmos indignos
de sua atenção, é porque a massa está na iminência de ser envenenada e
arrastada por uma ação de efeitos profundos e imediatos.
Uma investida dirigida por
mãos ocultas, com meios torpes, para fins ainda indefinidos, mas
necessariamente maus; uma campanha altamente perigosa para a salvação das almas
simples, e para a segurança da Santa Sé: são estes os elementos que compõem o
quadro, se considerarmos esta campanha
somente em si mesma.
* * *
Como se não bastasse tudo
isto, o desenvolvimento dos fatos veio dar gravidade maior a situação, que vai
degenerando para uma crise entre a República Italiana e o Vaticano, crise esta
que ameaça o próprio Tratado de Latrão.
Segundo este pacto,
estipulado entre Pio XI e Vítor Emanuel, o Papa era
soberano do Estado do Vaticano, com o qual a Itália estabeleceu relações de
amizade dentro das normas do Direito Internacional. Por outro lado, o Tratado Lateranense reconhece a Religião Católica como oficial, do
que decorre que o Papa faz jus às honras devidas
especialmente ao Supremo Hierarca da Igreja.
Assim, o Estado Italiano
assumiu a obrigação de proteger e garantir a segurança, honra e decoro da Santa
Sé em toda a Itália.
É fácil perceber que a
observância desta cláusula é fundamental para a manutenção do regime de
cooperação inaugurado em Latrão. Se no território
italiano é possível conspirar abertamente contra a segurança da Santa Sé, e se
as autoridades civis cruzam os braços a isto, o Supremo Governo da Igreja de
Deus fica exposto a tudo.
Compreender-se-á melhor esta
afirmação, imaginando que fosse possível mover-se, em um Estado nosso vizinho
uma campanha de injúrias soezes contra o Brasil e seu governo, e incitar a vasa
da população a atacar nossas fronteiras. Seria possível afirmar que tal Estado
é sinceramente amigo e aliado honesto do Brasil?
Pois foi o que sucedeu. Mons.
Borgongani Duca, Núncio Apostólico junto à Nova República,
protestou em nome da Santa Sé contra
os ataques de um pasquim anticlerical, "Dom Basílio", e
pediu que fosse fechado. O Sr. Pietro Nenni, chanceler italiano, redargüiu que a Itália
é uma democracia em que todas as opiniões são livres, pelo que não poderia
fechar este jornal. Simplesmente, poderia mandar apreender nas bancas os
exemplares mais danosos.
Ora, isto agradaria os
redatores do "Dom Basílio", que vivem do
escândalo. Por exemplo, tendo o jornal sido excomungado pela Santa Sé, os
jornaleiros o apregoam "eis o excomungado 'Dom Basílio'".
Seu "prestígio" se realçaria muito, nas tavernas e sarjetas, com uma
proibição policial. O jornal seria livremente redigido, impresso, posto no
Correio. Por este meio, poderia alcançar uma saída particular imensa.
Apreendidos nas bancas os seus números, ele seria vendido numa espécie de
"câmbio negro", por preço 4 ou 5 vezes maior. Que êxito! Que
propaganda!
Assim, a resposta do Sr. Pietro Nenni eqüivale a um
escárnio, e é o próprio Tratado de Latrão que ele
fere na letra e no espírito! Mais que o Tratado de Latrão,
as normas comuns do Direito Internacional. Se se
movesse na Itália uma campanha contra a Rússia, injuriando
seus chefes e favorecendo um ataque contra ela, o comunista Pietro
Nenni, por certo não responderia a um protesto russo
como respondeu a Monsenhor Borgongini Duca.
Enquanto isto, a situação se agrava, e outro
periódico surgiu na Itália, êmulo do "Dom Basilio":
e correndo todo o país, "O Pollo". Os frutos de tudo vão aparecendo: em Bologna, um capuchinho foi agredido por jovens que se declararam
leitores do "Dom Basilio".
* * *
Bem sabemos, repitamo-lo, que não é a verdadeira Itália que promove ou aplaude movimentos como este.
Quando o povo hebraico se manifestou contra Cristo e Lhe preferiu Barrabás, contam os Evangelhos que circulara ouro do sinédrio nas
mãos dos agitadores, os quais se incumbiram de desvairar a multidão. Ainda
agora é o ouro [...] que explica estas coisas. É impossível não perceber que não nasce do seio da Itália mas de Moscou a palavra de ordem,
os meios materiais, e a proteção política que tornam possíveis coisas como
estas.
A verdadeira Itália não é representada pela turba
multa de agitadores, de petroleiros, de homens sem fé nem lei, que se associam
a campanhas como estas. A verdadeira Itália é a que ainda tem profundamente
gravada no espírito a recordação dos dias amargos da ocupação e da guerra, e,
no coração o reconhecimento por tudo quanto o Vigário de Cristo fez em prol
dela naquelas ocasiões críticas. A
verdadeira Itália é aquela multidão inumerável que encheu a Praça de São Pedro
no dia feliz em que a guerra cessou e que, instintivamente, sem ser convidada
por ninguém, acudiu aos pés do Papa para festejar com ele a cessação das dores
que Ele tanto fizera para minorar. Esta sim, é a verdadeira Itália porque
Itália verdadeiramente cristã.
Há de doer ao coração paternal do Sumo Pontífice,
ver a verdadeira Itália assim amordaçada, e notar que os únicos brados que tem
ressonância na praça pública são os da impiedade! Ver que esses brados
encontram da parte das autoridades uma impunidade que vale concretamente
por uma garantia e um incitamento. Assistir com o coração dilacerado as
devastações morais que esta liberdade dada a criminosos pode ocasionar, e
certamente estará ocasionando entre as ovelhas daquele rebanho tão grato a
todos os Papas, que é a ínclita nação italiana.
* * *
Podemos imaginar de que sentimento de amargura
estará saturado com tudo isto o coração do Papa. E, neste momento, nós, que
somos seus filhos, devemos viver a nossa união com ele, segundo a doutrina do
Corpo Místico.
Esta metáfora, através da qual São Paulo nos descreve a vida
sobrenatural e interior da Igreja de Deus, é admiravelmente adequada a afervorar todos os fiéis na devoção ao Papa,
Cabeça visível do Corpo Místico. Se toda a Igreja forma em Cristo Jesus, um só
Corpo, a cabeça visível deste Corpo é sem dúvida o Santo Padre, representante
indefectível e infalivelmente autêntico da Cabeça invisível, que é o Divino
Redentor. A vida de todos os membros do
corpo humano resulta do fato de estarem ligados à cabeça. Assim, a vida
espiritual de todos os fiéis, resulta de sua união com Roma. Ubi Petrus, Ubi Ecclesia, ubi
Eclesia, ubi Christus. Só se encontra Nosso Senhor Jesus Cristo
na Igreja Católica, e a Igreja Católica só existe autenticamente onde se vive
em união com o Pontífice Romano. De onde se segue que Cristo não está onde não está Pedro, onde não está o Papa.
Sendo o Papa a cabeça visível da Igreja, todo o
Corpo Místico deve ter, em relação a ele, a união, a sensibilidade que o corpo
humano tem quanto à cabeça. Na defesa da
cabeça, todos os membros se esforçam e se agitam. É esta a parte de nosso
corpo que, mesmo instintivamente, defendemos com mais energia contra qualquer
ataque ou risco. E, atingida a cabeça,
sofre cada parte do corpo como se tivesse sido atingida em si mesma. Não pode
ser outra a atitude dos verdadeiros membros do Corpo Místico em relação ao Papa.
Nada no mundo devem eles defender com mais energia, amar com mais desvelo,
respeitar com mais fina sensibilidade, do que a pessoa sagrada, as atribuições
e o decoro do Sumo Pontífice. Mede-se o
valor do católico pela intensidade de sua devoção ao Papa. Atacado o Papa, cada
membro da Igreja deve sentir-se ferido no mais profundo de si mesmo. No que
concerne ao Papa, tudo é importante, tudo é augusto, tudo é grave, e
não é possível praticar qualquer lesão,
ainda mesmo a mais leve em seus sagrados direitos, sem que estremeça
dolorosamente todo o orbe cristão.
São incontáveis no momento
presente os fatos que enchem de amargura o coração paternal do Vigário de
Cristo. Com este senso divinatório que o
amor filial dá, sentimos daqui que o
Pontífice sofre de um isolamento mortal, parecido com o de Nosso Senhor no
Jardim das Oliveiras. Dormem os bons, enquanto os maus se mancomunam para um
grande crime. Como seria intensa
nossa satisfação, se pudéssemos acercar-nos do oratório do Santo Padre em
um desses momentos de solidão e de dor, e genuflexos
de alma e de coração, mais ainda do que de corpo, dizer-lhe que, mesmo muito longe, neste Brasil, possui ele filhos que o
amam de todo o coração, que fazem da fidelidade a suas diretrizes, a sua
autoridade, a sua pessoa, o seu mais alto ideal, que a esse ideal dedicam todos
os instantes de sua vida e que querem gastar esta vida, minuto por minuto, gota
de sangue por gota de sangue, conscientemente, deliberadamente, irrestritamente,
no serviço da Santa Sé.
Temos a certeza de que, por mais desvalidos que sejam estes filhos, sob todos os pontos de
vista, o Santo Padre receberia de bom
grado a expressão destes seus sentimentos, e nisto encontraria algum lenitivo.
Não se contentaria, porém, só com tal,
nosso zelo. Seria preciso, é preciso que toda a nação brasileira
se movimente, que todas
as entidades do laicato católico porfiem em manifestar ao
Sumo Pontífice o ato reparador de sua solidariedade e
de sua veneração neste momento tão doloroso.
Não nos esqueçamos de que só temos o direito de nos dizer um país católico, na medida em que
formos filhos fiéis do Papa. E o filho verdadeiramente fiel timbra em estar ao
lado de seu pai no momento da perseguição e da dor.