É fora de dúvida que o acordo PSP-PCB veio por
em foco, de modo sensacional, o
problema da colaboração com o comunismo. Até há pouco, não faltava quem julgasse tal problema
livresco, teórico, e por isso mesmo indigno de ser discutido com o interesse e
a amplitude das questões que têm importância concreta. Assim pelo menos
raciocinavam os que se gabam de “espírito prático”. Os fatos acabam de confirmar que nada há menos prático do que certo
gênero de "espírito prático". Repetiu-se agora o que já tantas vezes tem sucedido na
História da humanidade: com surpresa para os homens "práticos", os
problemas doutrinários saltaram, rugindo, dos livros para a arena da vida concreta. E o que, até ontem, era
ou parecia simples discussão acadêmica,
é agora o tema de que todos se ocupam, o tema nº 1
dos jornalistas, locutores, políticos, banqueiros, etc., etc.
Para a
opinião católica, a questão se
tornou particularmente aguda. O Sr. Ademar de Barros, quando Interventor Federal, compareceu assiduamente às
assembléias e solenidades católicas, e prestou por
vezes cooperação útil para várias iniciativas religiosas. Apegado ao poder,
continuou na mesma conduta, dentro das possibilidades mais restritas de um
simples particular, já se vê.
Todos se lembram, por exemplo, de sua participação
ostensiva no IV Congresso Eucarístico Nacional, em que se aproximou da Sagrada
Mesa, rodeado de um numeroso estado maior de amigos, o que atraiu sobre ele o
olhar dos presentes. Daí adveio para S. S. uma popularidade que ele cultivou
com esmero, quer auxiliando obras católicas, quer aceitando convites e
paraninfar atos católicos, etc. Os partidários de S. S. não deixaram de alegar
tudo isto em benefício da propaganda do PSP, que auferiu com tal argumentação vantagens eleitorais
não pequenas. Inopinadamente, porém, eis que esse político que se apresenta tão
insistentemente ao público como
católico... entra em combinação com os comunistas. Entre essa atitude e
a anterior linha de conduta favorável à Igreja, há contradição? Esta questão
não poderia deixar de se formular com insistência. E, assim, o problema da
colaboração entre católicos e comunistas acabou por se apresentar do modo mais
incisivo. É legítima a politique de la main tendue, da mão
estendida entre católicos e comunistas?
A esta pergunta, só podemos responder, remontando aos princípios doutrinários.
I
Lembremos, antes de tudo, que, dos vários
candidatos a governador do Estado, o Sr. Ademar de Barros
era sem dúvida um dos mais fracos. Os Srs. Mário Tavares e Hugo Borghi teriam
possivelmente eleitorado vigoroso. O Sr. Almeida Prado bem menos. O Sr.
Ademar de Barros - para aceitarmos uma estimativa nem
muito otimista nem muito pessimista - seria um candidato mais ou menos tão
forte quanto o Sr. Almeida Prado. Ainda assim notemos que a UDN revelou mais força
eleitoral no último pleito, do que o PSP. Para colocarmos o Sr. Ademar de Barros na plana eleitoral do Sr. Almeida Prado,
precisaríamos, pois, admitir que a propaganda eleitoral omnímoda do primeiro
haja realmente conseguido influenciar as camadas populares dentro de certa
medida reforçando o prestigio eleitoral do PSP. Como se vê, raciocinamos com moderação, e até com
certa largueza no que diz respeito à corrente do Sr. Ademar de Barros.
II
Tudo isto deixa bem claro que o ex-interventor não
poderia, de modo nenhum, obter a vitória no próximo pleito, simplesmente com as
forças de seu Partido. É possível que, aliado ao comunismo, chegue a vencer.
Neste caso, o resultado concreto é dos mais claros: é ao comunismo que ele
deverá o poder.
III
Não o ignora o Partido Comunista. Que preço terá ele exigido pela sua colaboração? Se
tomarmos em consideração o que é o comunismo, a ganância, sofreguidão e astúcia
de seus altos dirigentes ([,,,] dos de Moscou, que certamente meteram os dedos
em todo este caso, por detrás do paravento
translúcido do PC brasileiro), o ímpeto invariável e veemente com que tende
para a vitória de suas teses e de sua política... é admissível que as vantagens
objetivadas pelos vermelhos fossem módicas?
É sumamente improvável. O homem prudente, sensato,
cauteloso, não pode deixar de pensar assim. Em outros termos, é tão provável
que o comunismo, em troca de apoio valioso, espere também compensações
valiosas, que qualquer eleitor prudente, simplesmente por essa altíssima
probabilidade, deveria deixar de votar no Sr. Ademar de Barros.
IV
É verdade que o Sr. Ademar de Barros
asseverou, em carta aberta que os jornais publicaram, que as compensações que
os comunistas exigiram foram só estas:
a) manutenção do regime constitucional;
b) liberdade de propaganda para os comunistas;
c) cessação da carestia, filas, etc.
Estamos
na época dos pactos políticos secretos. Nada mais comum nos hábitos
contemporâneos. As maiores potências, os estadistas mais importantes, servem-se de
pactos tais. E, evidentemente, estes
pactos só se mantêm secretos se interrogadas as partes pela imprensa, elas
afirmam que o pacto não existe. A simples afirmativa do chefe do PSP não
logra tranqüilizar-nos inteiramente. E isto tanto mais quanto há um fato
público, básico, importantíssimo, que colide com ela. O PSP fez "chapa
única" com os comunistas, no que diz respeito ao Legislativo federal. É ou
não é isto uma combinação que excede de muito os três itens acima? Todos os
elementos do PSP, por esse acordo, ficarão obrigados a votar em alguns
candidatos comunistas a deputado. Assim, pois, para sermos sempre moderados,
devemos ter pelo menos muito receio, votando no Sr. Ademar de Barros para governador.
V
Imaginemos, porém, que as três únicas obrigações assumidas
pelo Sr. Ademar de Barros seja as que ele mesmo
publicou. Isto é pouco? O espetáculo que
nossos partidos políticos nos estão dando é francamente desedificante.
Ambições pessoais, questiúnculas internas, picuinhas, é quase só o que se vê na
política nacional. O povo está enfarado disto, e anseia por qualquer outra
coisa. Que coisa? É esta a grande questão. Todos
procuram desinteresse, amor à causa pública, zelo verdadeiro pelos direitos dos
que sofrem. E é o que não se encontra, nem de vela na mão.
Mas aparece de repente o comunismo em cena e,
simplesmente para assegurar a democracia e o bem estar público, sem outra
vantagem dos cargos para seus membros, de posição para seus leaders no Executivo - os apetecidíssimos cargos do Executivo! - desinteressadamente,
magnificamente, sufraga um candidato ao governo do Estado, dá-lhe a vitória,
para conseguir a sobrevivência da democracia e a extinção das filas!
Há "cartaz" melhor, para o homem aflito
das ruas? Quantos incautos se embairão pelo comunismo, só por isto! E
simplesmente em dar aos comunistas oportunidade de fazer este
"cartaz", que esplêndida colaboração lhes prestou o Sr. Ademar de Barros!
Mais. Admitamos que S. S. vença. Se ele não
extinguir as filas, a culpa será dele. Já que tem as rédeas nas mãos. Se as
extinguir, o mérito será dos comunistas, sem os quais não terá ido ao poder.
Além de toda esta popularidade, que prestigio
ganhará o PC pelo simples fato de que, publicamente, notoriamente, foi ele que
"fez" o Chefe do Estado!
Tudo isto
é tão nocivo e tão funesto, que a aliança PSP-PCB não pode deixar de ser
censurada por todos os católicos.
VI
A todas essas razões, acrescentamos uma última. O brio, o pundonor de um católico leva-o a
se sentir mal ao lado de inimigos capitais da Igreja, no terreno da
política em que uns procuram conservar, e outros procuram arrasar a civilização cristã. Nós e os comunistas devemos
sentir-nos como os membros de duas famílias brigadas entre si pelas mais graves
questões de honra. Toda a colaboração
entre nós será impossível, pelo próprio fato dos deveres de honra, decorrentes
da posição em que nos encontramos. Claro está que, se nos encontrarmos juntos, em uma barca naufraga, poderemos
momentaneamente lutar lado a lado para salvar a barca. Mas daí a fazer uma
combinação para obter vantagens políticas nas quais a Igreja só tem que perder,
a distância é bem grande...