Jamais a
política nacional esteve tão insípida, tão vazia de homens e de ideais, quanto neste momento. Não que nos faltem, nos quadros da
política militante, homens dos mais
representativos da inteligência e cultura nacional, mas a pobreza de nossa vida
política é tal que esses homens, salvas algumas exceções, ou fazem papel
apagado e secundário, e deixam a direção dos acontecimentos às figuras de
segundo plano, ou são obrigados a condescender com as fraquezas do ambiente, e
a se associar às questiúnculas pessoais e picuinhas partidárias, para
conservar alguma ingerência nos
acontecimentos.
Foi o que pudemos sentir claramente por ocasião do fechamento do Partido Comunista. A
questão não deixa de ter certa grandeza. Nela se empenham princípios dos mais
altos e interessantes. Haveria, pois, matéria prima para debates parlamentares
de grande estilo, em que as várias correntes ideológicas do país vissem
expressos no Parlamento com eloqüência, cultura e elevação, seus próprios
sentimentos. Mas, além de dois ou três discursos bons, nada tivemos. A
impressão desoladora que preponderou foi de que a maior parte de nossos
políticos tomou posição pró ou contra, exclusivamente segundo os critérios das
vantagens da oposição ou da situação, o que eqüivale a ver o assunto pelo lado
errado do binóculo. No fim, a questão se resolveu bem. Mas é preciso reconhecer
que com ela não se enriqueceram os anais políticos do país.
Este é um exemplo. Poderíamos apresentar muitos outros.
Mas preferimos considerar esta inocuidade da vida
cívica do país através de outro aspecto.
* * *
Faltam-nos
problemas importantes para tratar? Manifestamente não. Por que, então, este
vazio em nossa imprensa política?
Para considerar somente as questões econômico-administrativas, lembremos as seguintes:
1- Toda população está atenta à solução do caso da antiga São Paulo Railway.
Teme-se que a estrada, confiada à administração federal, se transforme em outra
Central do Brasil. Todos desejam a entrega da estrada à iniciativa particular,
cuja eficácia excede de muito a de todos serviços federais. Há algum estudo
nesse assunto? O que pretende fazer a União? Há negociações entabuladas com
alguma entidade oficial do Estado, ou com alguma entidade privada, sobre o
caso?
2- a crise
de habitações prossegue mais aguda de que nunca. É sabido que uma de suas
causas foi o afluxo de elementos do interior para a
capital. Quais os motivos deste afluxo? Cessou ele?
Em caso negativo, como fazer que ele cesse? Por exemplo, está estudado qualquer
plano para impedir a localização, na capital, de industrias que poderiam
funcionar igualmente bem, ou até melhor no interior?
3- outra causa da crise de habitações foi a carência de material de construção. A
crise só cessará quando essa carência cessar. Há providências para facilitar a
importação ou produção de tal material? Que providencias? O desafogo está
previsto para quando?
4- Por fim, fora de dúvida que, com a legislação inepta que possuímos em matéria de aluguel, os capitalistas
hesitam em aplicar dinheiro neste campo. Amanhã virá alguma lei que lhes
congele o patrimônio, e eles nada poderão fazer. Há providências no sentido de
acautelar os direitos dos proprietários, e estimular assim a aplicação de
dinheiro na propriedade imobiliária e especialmente em construções?
5- a carestia da vida depende, em grande parte, da
falta de braços na lavoura. Há providências para canalizar para o Brasil
pequenos contigentes de imigrantes aqui e acolá. Contudo precisamos deles às
centenas de milhares. Que providências foram tomadas para tal efeito?
Assim os problemas poderiam ser enumerados e
discriminados em imensas listas. Deles cuida um ou outro estadista mas sob o
olhar indiferente e até mal humorado da massa dos políticos de carreira. Estes,
em geral, só pensam nos casos pessoais. E como só estes casos figuram na lista
dos acontecimentos por que todos se interessam, a imprensa é levada a lhes dar
uma preponderância muito grande em seu noticiário.
E daí a impressão
de insipidez, de vazio, de mediocridade, que nossa vida política oferece em
quase todos os seus aspectos.
* * *
Vejo nisto um círculo vicioso. Se os verdadeiros
problemas nacionais tivessem mais entrada em nossa vida cívica, se a capacidade
para lhes dar solução fosse um elemento importante para a carreira política, os homens mais capazes sentiriam em si
forças e meios para tentarem a escalada, e a ele se atirariam com prazer. Mas
como tal não se dá, como a ascensão na
política depende preponderantemente de
habilidades táticas de ante-sala, estes homens se mantém ausentes. De outro
lado, como estes homens de mérito se mantém ausentes, o ambiente não melhora.
E, neste círculo vicioso a vida do país vai rolando indefinidamente.
Não se pense que esta crítica tem um alcance negativo.
À força de dizer e repetir coisas tais, quem sabe se algum dia se poderá
esperar que os elementos verdadeiramente responsáveis se unam para fazer
circular ar fresco e sangue novo em nossa política?
Só há um
meio de decidir os homens a grandes sacrifícios para eliminar um mal: é
mostrar-lhes que este mal é bastante grave para justificar os sacrifícios que
lhes pedem.
Esperemos o dia em que tal se dê. Este dia marcará
uma era nova para a História do Brasil.