Quando estudamos a triste história da queda do Império do Ocidente, custa-nos compreender a curteza de vistas, a
displicência e a tranqüilidade dos romanos diante do perigo que se avolumava. Roma sofria, a
agravar-lhe os outros males, de um inveterado hábito de vencer. A seus pés estavam as
mais gloriosas nações da antigüidade, o Egito, a Grécia, toda a Ásia. A ferocidade dos celtas estava definitivamente
abrandada. O Reno e o Danúbio constituíam para o Império uma esplêndida defesa
natural. Como recear que os bárbaros, que vagueavam nas selvas virgens da
Europa central, pudessem expor a risco sério tão imenso edifício político?
Habituados a esta visão, os romanos não tiveram flexibilidade de espírito para compreender a
situação nova que aos poucos se ia criando. Os bárbaros transpuseram o
Reno, começaram suas invasões, diante deles a resistência das legiões era
fraca, indecisa, insuficiente. Mas os romanos continuaram a ignorar o perigo, obcecados de um lado pela sede absorvente dos prazeres, e
iludidos de outro lado pelo que se chamaria na detestável terminologia
freudiana um "complexo" de
superioridade. É o que explica a tranqüilidade mortal em que se conservaram até
o fim.
Ainda mesmo que consideremos dentro deste conjunto
o mistério da inércia romana, o quadro nos parece singular e quiçá algum tanto
forçado. Compreendê-lo-emos muito mais
ao vivo, se considerarmos outro grande mistério que se passa diante de nossos
olhos, do qual somos de certo modo participantes: a grande inércia do Ocidente cristão diante da ressurreição da gentilidade afro-asiática. O tema é por demais vasto
para ser tratado em bloco. Bastará, para que o compreendamos bem, que
consideremos apenas um dos aspectos do fenômeno: a renovação do mundo
muçulmano.
É um tema que o "Legionário", já
habituado a não ser compreendido, tem abordado com uma insistência que pareceu
por vezes importuna. Mas a questão merece ser examinada mais uma vez, com uma
extensão maior do que a das pequenas notas dos "Sete dias em Revista"
nas quais a tratamos anteriormente.
Lembremos rapidamente alguns dados gerais do problema. Como
se sabe, o mundo maometano abrange uma faixa territorial que começa na Índia, passa pela Arábia e Ásia Menor, atinge o Egito e vai terminar no
Oceano Atlântico. A zona de influencia
do Islão é imensa de todos os pontos de vista: território, população,
riquezas naturais. Mas até há algum tempo atrás certos fatores inutilizavam de
modo quase completo todo este poderio. O vínculo que poderia unir os maometanos
de todo o mundo seria, evidentemente, a religião do Profeta. Mas esta se
apresentava dividida, fraca, e totalmente desprovida de homens notáveis na
esfera do pensamento, do mando ou da ação. O maometanismo
vegetava, e isto parecia bastar perfeitamente ao zelo dos altos dignitários do
Islão. O mesmo gosto pela estagnação e pela vida meramente vegetativa
era um mal de que também estava atingida a vida econômica e política dos povos
maometanos da Ásia e da África. Nenhum homem de valor, nenhuma idéia nova, nenhum
empreendimento verdadeiramente grande podia afirmar-se nesta atmosfera. As nações maometanas fechavam-se cada qual
sobre si mesma, indiferente a tudo que não fosse o deleite tranqüilo e miúdo da
vida quotidiana. Assim, vivia cada qual em um mundo próprio, diversificada
das outras por suas tradições históricas profundamente diversas, separadas
todas por sua recíproca indiferença, incapazes de compreender, desejar e
realizar uma obra comum. Neste quadro religioso e político tão deprimido, o
aproveitamento das riquezas naturais do mundo maometano, riquezas que consideradas
em seu conjunto constituem um dos maiores potenciais do globo, era
manifestamente impossível. Tudo,
pois, não era senão ruína, desagregação
e torpor.
Arrastava assim os seus dias o Oriente, enquanto o
Ocidente chegava ao zênite
de sua prosperidade. Desde a era vitoriana, uma atmosfera de juventude, de
entusiasmo e de esperança soprava pela Europa e pela América. Os progressos da ciência haviam renovado os aspectos
materiais da vida ocidental. As promessas da Revolução encontravam crédito, e
nos últimos anos do século XIX havia
quem esperasse o século XX como a era de ouro da humanidade.
É claro que um ocidental colocado neste ambiente se
capacitava a fundo, da inércia e da impotência do Oriente. Falar-lhe na possibilidade da ressurreição do mundo maometano lhe
pareceria algo de tão irrealizável e anacrônico, quanto o retorno aos trajes,
aos métodos de guerra e ao mapa político da Idade Média.
Desta
ilusão, vivemos ainda hoje. E, como os romanos, fiados no Mediterrâneo que nos
separa do mundo islâmico, não percebemos
que fenômenos novos e extremamente graves se passam nas terras do Corão.
É difícil abranger em uma discriminação sintética
fenômenos tão vastos e ricos como este. Mas de um modo muito geral pode-se
dizer que, depois da grande guerra, todo
o Oriente - e entendemos esta expressão num sentido muito lato abrangendo
em sua totalidade as zonas de civilização não cristã da Ásia e da África - começou a passar por um fenômeno de reação anti-Europa e muito pronunciado. Esta reação comportava
dois aspectos algum tanto contraditórios, mas ambos muito perigosos para o
Ocidente. De um lado, as nações
orientais começavam a sofrer com impaciência o jugo econômico e militar do
Ocidente, manifestando uma aspiração cada vez mais pronunciada pela
soberania plena, pela formação de um potencial econômico independente e de
grandes exércitos próprios. Esta aspiração comportava, é claro, uma certa
"ocidentalização", ou seja a adaptação da técnica militar, industrial
e agrícola moderna, do sistema financeiro e bancário euro-americano,
à Ásia, etc. De outro lado porém, este surto patriótico provocava um renouveau de
entusiasmo pelas tradições nacionais, costumes nacionais, culto nacional,
historia nacional. É supérfluo acrescentar que o espetáculo degradante da corrupção e das divisões a que estava
exposto o mundo ocidental concorria para estimular o ódio ao Ocidente. De onde a formação, em todo o Oriente,
de novo interesse pelos velhos ídolos, de
um "neo-paganismo" mil vezes mais
combativo, resoluto e dinâmico do que o paganismo antigo. O Japão é bem um exemplo
típico, ultra-típico talvez, de todo este processus que
tentamos descrever. O grupo ideológico e político que o elevou à categoria de
grande potência e que ambicionou para ele o domínio do mundo, foi precisamente
um destes grupos neo-pagãos obstinadamente apegados
aos velhos conceitos de divindade do Imperador, etc.
Ora, um fenômeno mais lento, porém não menos
vigoroso que o do Japão, se deu em todo o mundo oriental. A Índia está na iminência
de conquistar, em virtude deste fenômeno, a sua independência, o Egito e a Pérsia ocupam hoje em dia
uma situação avantajada, na vida internacional, e progridem a passos rápidos.
Bem antes disto, Mustafá Kemal renovara a Turquia. Todas estas
nações, estas potências podemos dizer, se
sentem orgulhosas de seu passado, de suas tradições, de sua cultura, e desejam
conservá-las com afinco, ao mesmo tempo, mostram-se ufanas de suas riquezas
naturais, de suas possibilidades políticas e militares, e do progresso
financeiro que estão alcançando. Dia a dia elas se enriquecem, constróem
cidades dotadas de um aparelho governamental eficaz, de uma polícia bem
adestrada, de universidades estritamente pagãs mas muito desenvolvidas, de
escolas, hospitais, museus, tudo enfim que para nós significa de algum modo
poder e progresso material. Nas suas
arcas, o ouro se vai acumulando. Ouro significa possibilidade de comprar
armamentos. E armamentos significam prestígio mundial.
É interessante notar que o exemplo nazista impressionou fortemente o Oriente. Se um grande
país como a Alemanha tem um governo que
abandona o Cristianismo e não cora de voltar aos antigos ídolos, o que há de
vergonhoso em que um chinês ou um árabe permaneçam em suas religiões
tradicionais?
Tudo isto
transformou o mundo islâmico e determinou em todos os povos maometanos, da Índia ao Marrocos, um estremecimento
que significa que o sono milenar acabou. O Paquistão - estado muçulmano
hindu em vésperas de independência - o Irã, Irak, a Turquia, o Egito são os pontos altos do movimento de
ressurreição islâmica. Mas na Algéria, no Marrocos, na Tripolitânia, na Tunísia, a agitação também vai intensa. O nervo vital do islamismo revive em todos
estes povos, fazendo renascer neles o senso da unidade, a noção dos interesses
comuns, a preocupação da solidariedade, e o gosto pela vitória.
Nada disto ficou no ar. A Liga árabe, uma confederação vastíssima de povos muçulmanos, une
hoje todo o mundo maometano. E’, às
avessas, o que foi na Idade Média a Cristandade. A Liga Árabe age como um vasto bloco perante as
nações não árabes, e fomenta por todo o norte da África a insurreição. A evasão
do grão mufti foi uma clara manifestação da força
dessa Liga. A soltura de Abd-el-Krim é mais do que isto, uma afirmação do propósito deliberado em
que está a Liga de intervir nos assuntos da África Setentrional, promovendo
a independência da Argélia, Tunísia, Tripolitânia e
Marrocos. É o que demonstramos nos "Sete Dias em Revista" do ultimo
número.
Será preciso ter muito talento, muita perspicácia,
informações excepcionalmente boas, para perceber o que significa este perigo?