Há uma afirmação que desejamos peremptoriamente
fazer, antes mesmo de se terem jogado nas urnas os destinos de tantos partidos,
de tantas combinações, de tantas ambições. Estamos no desacordo mais formal com
uma tese sustentada por toda, ou quase toda a nossa imprensa. Não é verdade que
a opinião paulista, a opinião brasileira se vai manifestar nas urnas. Sem
dúvida, nosso nível cívico tem baixado assustadoramente, e nem poderia deixar
de ser assim. A chamada moral cívica outra coisa não é senão um capítulo da
Moral. Ora, quando em todos os domínios a moralidade está baixando a olhos
vistos, não haveria motivo algum para esperar que ela não baixasse no terreno
cívico. Mas, a despeito de tudo isso, a ninguém é lícito afirmar que o carnaval
eleitoral que temos diante dos olhos corresponde aos ideais cívicos e políticos
dos paulistas, dos brasileiros.
A expressão "carnaval eleitoral" pode
parecer forte. Mas de que outro modo qualificar o que temos diante dos olhos?
De um lado, a orientação dos partidos é quase sempre lamentável. Na sua
propaganda, o programa não desempenha em geral o menor papel. Ninguém procura
agrupar eleitores em torno de idéias. A luta tomou um caráter personalista
verdadeiramente revoltante. Não se tenta convencer o eleitor com argumentos. A
inteligência nada tem que fazer nesta técnica eleitoral cujo único processo
consiste em tomar de assalto a sensibilidade e a imaginação do leitor,
pular-lhe olhos a dentro, ou ouvidos a dentro, até a memória e procurar com
esta gazua psicológica arrastar irracionalmente seu livre arbítrio para este ou
aquele campo político. Daí o fato de ter sido principalmente berrada esta
campanha. Por todos os altos falantes, os locutores tonitroam, cantam, ou
soletram dengosamente os nomes dos candidatos que para isto lhes deram alguma
gratificação. As fotografias enchem as paredes, como se caras (e que caras por
vezes!) fossem argumentos. Os nomes pendem dos postes, das árvores, dos balcões
dos edifícios. Mil nomes, sírios, italianos, árabes, portugueses, japoneses,
tantos nomes que não se retém nenhum. Nomes profundamente diferentes, que
parecem ser em todas as línguas sempre o mesmo: "Votem em Dr. João
Ninguém". De tal maneira a generalidade dos candidatos se esqueceu de que
o eleitor é um ente racional que se determina por argumentos e não por
fotografias e berreiro, que, segundo nos consta, um deles chegou ao extremo de
fazer desfilar pelas ruas um elefante com propaganda de seu nome. Daí para um
carnaval, que distância resta?
Mas, dir-se-á, não deixa de haver nestas afirmações
um tal ou qual exagero. Não seria difícil, percorrendo as listas, encontrar
mais de um candidato digno. Por que não tomar estes candidatos em consideração,
ao compor o quadro do pleito de hoje?
Pela simples razão de que os candidatos dignos -
que realmente existem - não fazem parte do quadro. A razão, a decência, a
dignidade, estão como que ofuscadas ou eclipsadas pela fosforescência do
charlatanismo. Não há oportunidade nem ambiente para que os nomes conhecidos,
as figuras dignas, os programas sensatos, sejam percebidos, apreciados e
preferidos, precisamente como não há ambiente para se fazer qualquer coisa de
probo e de grave numa feira de diversões. O homem que come vidro, a mulher com
cabelos de fogo, o menino com cauda de cobra abafam tudo, dominam tudo, e não
há talento sério nem dignidade real que possa sobressair e impressionar ao lado
dos demiurgos de feira. Não censuro nem desprezo os homens dignos que se
meteram nesta companhia. Admiro-os, pelo contrário, e deles tenho uma sincera
compaixão, porque me fazem a impressão de vítimas que caminham para uma
verdadeira imolação política. Nesta atmosfera de entrudo [carnaval], é muito
pouco provável que sejam eleitos, e, se o forem, o Brasil poderá gabar-se de
ter resistido a uma das mais agudas crises de delírio político de que nossa
História guarda memória.
Estas impressões não são apenas minhas, pois que
andam em todas as bocas, e se exprimem em todos os suspiros e em todos os sarcasmos.
Houve mesmo um anônimo que distribuiu e afixou um cartaz com a fotografia de um
palhaço e estes dizeres: "Partido da Alegria - Votem em Piolim para Varredor". Este anônimo, em poucas
palavras, disse mais e disse melhor do que todos os jornais. Se eu fosse
Diretor do Museu do Ipiranga, do Instituto Histórico
ou do Arquivo do Estado mandaria guardar cuidadosamente alguns destes cartazes.
A posteridade verá neles a única expressão do que pensa de tudo isto o Brasil
autêntico, o São Paulo brasileiro e cristão.
* * *
Não costumamos intervir senão muito sóbria e
discretamente na política nacional.
Entretanto, não podemos deixar de acrescentar que
esta impressão de feira política, tão
evidente no que toca à eleição de vereadores, se generaliza por toda a vida
pública do país. Os partidos estão a bem dizer desfeitos. Cada um deles – ou
quase tanto – tem uma ala dissidente que obedece aos chefes de outro partido.
Isto quando não se dá outro fenômeno ainda mais curioso: o partido inteiro se
deixa tragar pelos chefes de outro partido, e os dissidentes são no fundo os
únicos que continuam fiéis. Os inimigos de ontem se apertam as mãos. Hoje se entredegladiam os que ontem se abraçavam. Um partido
fechado por ordem do Poder Judiciário chega ao cúmulo de disputar cadeiras nas
Câmaras Municipais. O que mais?
É esta nossa política. Mas será este o nosso
Brasil? Quem não vê, não sente, não palpa a indignação, o enfado, a extenuação
do Brasil verdadeiro? E quem pode imaginar que, forçados
a escolher entre partidos que não nos agradam, entre legendas em que ao lado de
um ou outro nome conhecido e probo há tantos aventureiros e arrivistas
evidentes, o voto que atirarmos às urnas será realmente a expressão de nossos
anseios e de nossos ideais?
Haverá algo de mais monstruoso, do que afirmar que
estas eleições exprimirão as verdadeiras tendências da opinião brasileira?
* * *
Isto não quer dizer que consideremos nosso povo
isento de qualquer culpa pelo que se passa. Um tal carnaval não se faz com
nosso aplauso. Mas ele não se está fazendo sem nosso consentimento, ou pelo
menos nossa tolerância. O brasileiro de há 50 ou 70 anos atrás não teria
suportado isto. Nós toleramos. E nossa tolerância cheia de suspiros estéreis e
de protestos indolentes, constitui em si mesmo um grave pecado.
Com efeito, os homens decentes teriam ambiente para
resistir mais, resistir melhor, e para ganhar a partida para nós, se os
apoiássemos com vigor. Mas onde está o nosso vigor?
Contudo, ainda é tempo. Qualquer que seja o
resultado destas eleições, haverá depois oportunidade para que as tendências
sãs da opinião se organizem e prevaleçam nas urnas quando da próxima luta, que
será em torno da presidência da República.
A hora é de reflexão. É preciso que os homens
responsáveis se articulem e entrem em ação. Se assim não fizerem, se não
expiarem por uma ação corajosa e desinteressada os erros e as tolerâncias
criminosas do presente, onde iremos parar?
* * *
Falamos da expiação, falamos de um Brasil honesto e
autêntico, que não se conforma com nada disto, e que quer continuar a ser
honestamente brasileiro e cristão.
Este Brasil talvez não fale nas urnas, mas ele se
manifestará todo inteiro na atitude varonil e austera de um punhado de filhos
de escol. No meio de todo esse carnaval político, um grupo de irmãos nossos na
Fé, aliás sem o menor ou mais longínquo pensamento político, se prepara para
fazer algo de realmente digno e grave. Por iniciativa de seu zeloso Vigário,
Pe. Carmelo Putorti, os paroquianos de Achiropita
farão no dia 15 de novembro, as 16 horas uma procissão expiatória
impressionante para pedir perdão a Deus pelos pecados privados e públicos que
hoje se cometem. Essa procissão carregará catorze grandes cruzes, representando
as catorze estações da Via Sacra, e partirá da Matriz de Achiropita em demanda do
Santuário de Nossa Senhora de Fátima, onde se dissolverá. Eu gostaria de ver todo o povo de
São Paulo nesta grande procissão. Seria
o modo de proclamarmos diante de Deus e dos homens, que detestamos nossa
moleza, nossa inconseqüência, os desmandos de nossa vida privada e pública, e
de tudo isto desejamos seriamente emendar-se.
Expiação, expiação, é bem disto que precisa o mundo
contemporâneo. Há quem reze, há quem trabalhe, mas tudo isto seria muito pouco
se também não houver quem expie, e expie muito!