A numerosa “clique” de aventureiros burgueses e
proletários que o Soviet
sustenta no Brasil está novamente
empenhada no restabelecimento das relações comerciais russo-brasileiras. Para
isto, desenrola ela aos olhos míopes da cupidez burguesa as miragens já cediças
de negócios vultosos, a realizar com a gélida pátria de Lenin.
Há, implícito, nesta manobra um profundo
conhecimento e um desprezo imenso da mentalidade burguesa.
Realmente, nada é mais tipicamente burguês do que o
desejo de auferir lucros imediatos por meio da colocação de importantes
partidas de café na Rússia, sem o menor receio da campanha comunista que
imediatamente passará a grassar no Brasil. Nada, também, é mais imprevidente, e
mais míope do que esta inteira indiferença pelo incêndio que amanhã devorará
nossa casa, contanto que possamos, hoje, ornar com mais luxo nossa sala de
visitas.
Espanto que ainda se possa falar de relações
comerciais russo-brasileiras.
Já no tempo dos Czares, em que as relações entre os
dois países se exerciam com a máxima liberdade, era baixíssimo o seu
intercâmbio comercial. E Eduardo Prado, examinando em
memorável artigo no “Jornal do Comércio” um plano já então existente de
propaganda do café na Rússia, mostrou o absurdo da idéia, pois que a Rússia, um
dos maiores consumidores de chá, é por isto mesmo rival do Brasil, ao qual
nunca compraria café.
Acresce que o café tem, sobre o sistema nervoso, um
efeito estimulante, que o tornam incontestavelmente inferior ao chá, em países
de clima frio. Na Rússia o consumo de chá
quente diversas vezes ao dia constitui uma verdadeira necessidade, para
restituir ao organismo o calor que lhe é subtraído pela temperatura ambiente.
Como supor que, impunemente, a população inteira possa substituir o chá pelo
café, passando a servir-se com grande abundância, todos os dias, de uma bebida
incontestavelmente nociva ao sistema nervoso?
A falta de espaço que nos habilite a aduzir outras
considerações, parecem suficientes os dois argumentos citados, para mostrar que
o comércio russo-brasileiro é antinatural, pois que vem estabelecer relações
entre dois povos que, quer do ponto de vista financeiro, quer do moral, nunca
tiveram o menor ponto de contato.
Se faltam motivos naturais, deve haver causas
políticas em jogo, pois que elas, e só elas explicam a insistência com que
certa imprensa trabalha pelo reatamento das relações comerciais com os Soviets.
Será necessário mencionar estas causas? Penso que
não. Nenhum leitor inteligente poderá ignorá-las.
A todos nós que temos, dadas as idéias que
professamos, uma responsabilidade muito pesada, incumbe o dever de ser em todas
as palestras, em todos os círculos, em todos os ambientes, os pontos de
resistência da opinião pública contra a manobra ardilosa que os comunistas
encapotados ou não, vêm de empreender mais uma vez.