Não é a qualquer pessoa que é dado exercer o duro
ofício de pescador de pérolas. As compleições fortes são capazes de resistir à
pressão da água e às agressões dos polvos, para descer até o fundo do Oceano e
colher lá a pérola alvíssima que procuram. Mas os organismos débeis se sentem
asfixiados desde que se aprofundem um pouco nas águas verdes do Oceano, e são
forçados a retroceder com as mãos vazias, para respirar a brisa amena e retornar
à pressão fraca longe das quais são incapazes de viver.
É o que se dá também no mundo do espírito. Há
certas almas capazes de descer à profundeza das mais sérias cogitações onde vão
buscar a pérola inestimável da verdade. Outras, porém, se sentem asfixiadas
desde que as idéias se tornam um pouco mais densas, e retrocedem imediatamente,
de mãos vazias, àquela banalidade estéril que é o único ambiente que conseguem
suportar.
* * *
O grande sentido da
vocação da geração que atualmente atingiu a mocidade é o sacrifício.
Ou esta geração
enfrentará a dureza de sua vocação com a generosidade do martírio, ou ela será
inevitavelmente devorada pelas tempestades que as gerações anteriores
acumularam por seus erros, e que estão prestes a desabar sobre o mundo contemporâneo.
Mas o sacrifício que se requer não é o do sangue.
Não é a morte, que a graça impõe ao moço de hoje como perigo supremo a
enfrentar, mas a própria vida. Não é mais o tempo de atestarem os crentes a sua
fé, pelo testemunho sangrento do martírio. O que hoje a Igreja pede aos seus
fiéis é o testemunho de uma vida exemplar, e o sacrifício generoso de toda a
nossa personalidade à grande causa porque é mister lutar.
Mas sobretudo este sacrifício é o da alma que se
purifica pela prática da virtude, que se imola no sofrimento interior, que sobe
espontaneamente ao altar das mais dolorosas provas espirituais, com aquela
resolução magnânima com que caminhavam para o martírio os primeiros cristãos.
Porque o mundo atual foi perdido pelo pecado, e só pela virtude se há de
resgatar. Porque de nada vale a mais útil das obras de apostolado aos olhos de
Deus, quando o apóstolo leva na alma
aquele mesmo espírito do mundo que combate por suas ações.
É precisamente isto que o mundo não quer
compreender, e é a esta incompreensão que atribuo o pequeno número de vocações
entre nós.
A vocação sacerdotal é, por excelência, a vocação
para o sacrifício. Em primeiro lugar, é toda a ambição humana que se sacrifica,
pela humildade voluntariamente abraçada, e que é inseparável do estado
sacerdotal.
Em segundo lugar, é a santidade que se tem em
vista. E quem diz santidade diz o sacrifício completo de toda a felicidade que
o mundo pode dar, através de sua sistemática bajulação dos sentidos, através de
sua louca exaltação da concupiscência e do orgulho da vida.
E, em terceiro lugar, vem o sacrifício supremo, em
que o sacerdote já não imola à justiça de Deus apenas a sua própria pessoa, mas
o próprio Filho de Deus, feito Homem para resgatar os pecados do mundo.
* * *
Vejo às vezes passar pelas ruas algum seminarista,
trazendo na gravidade do traje e na humildade do porte a afirmação de todos os
princípios de renúncia que o mundo detesta.
Muitos seguem-no com o olhar. Ora são alvejados
pelo ódio, ora pelo escárnio.
Em torno de mim, o mundo se agita febrilmente. O
jornal que tenho em mãos me dá notícia de que grandes estadistas querem salvar
o Brasil, reerguendo seu câmbio, saneando suas finanças ou reformando sua administração.
E, em meu coração, eu me rio por minha vez da
loucura do mundo. Não é o grande estadista, nem o grande cientista, nem o
grande jornalista que todos aplaudem, que salvará o Brasil.
Seminarista humilde de que todos se riem, tu serás
santo, e serás tu o verdadeiro salvador do Brasil.