A mocidade católica de São Paulo assumiu, no dia 16
de julho, perante o Brasil, uma responsabilidade que não poderá mais declinar,
sob pena de felonia e traição. Em um momento de
dúvidas e de apreensões, não vale a pena fechar os olhos à verdade: nosso país
está desabando. Tudo, desde os alicerces até à cumieira,
está sendo agitado por movimentos telúricos que, dia mais dia menos, poderão
prostrar em terra todo o edifício. Gritam os políticos de todos os matizes,
afirmando em altas vozes, que detêm a panacéia capaz de salvar o País. Os
políticos novos lançam a culpa aos políticos velhos, responsabilizando-os pela
situação. Os políticos velhos, por sua vez, denunciam a turbulência dos
políticos novos como a causa única da agitação. E, nesta recíproca difamação,
nestas discussões estéreis, nestas competições de correntes e de partidos, em
que quase sempre o interesse e a vaidade individual levam de vencida os interesses coletivos, se
consome um tempo precioso, que deveria ser empregado em introduzir no organismo
social os remédios indispensáveis para que não venha, de um momento a outro, a
perder completamente o pulso.
Neste ambiente de angústia e de terror, quando todo
o Brasil sensato - pois que ainda existe um Brasil sensato, que sofre calado
enquanto vociferam os políticos e discutem os economistas - procura alguma
coisa que lhe sirva de tábua de salvação, surge uma esplêndida manifestação
como a de 16 de julho, que vem autorizar inesperadamente, no meio de tantas
decepções, as mais ousadas esperanças.
Até este momento, as esperanças nacionais se tem
voltado, alternativamente, para os homens ou para leis.
Era crença geral de que a salvação pública só
poderia provir de um grande homem ou de um regime salutar.
E eis que surge a mocidade mariana a afirmar que
não é no prestígio de um único homem, nem na mera eficiência de regime algum
que se pode encontrar o bom caminho. Que, mais do que de um grande homem ou de
um bom regime, o Brasil precisa de uma doutrina, e que esta doutrina não pode
ser encontrada senão na Verdade por excelência, que é o Catolicismo.
O Brasil não pode ser salvo apenas por um grande
homem, porque é mister que, na obra de salvação, colaborem todos os
brasileiros. Efetivamente, é indispensável que a salvação do Brasil comece pela
salvação de cada brasileiro, e que, do esforço de todos nós, no sentido de nos
tornarmos maiores e melhores, nasça efetivamente um Brasil maior e melhor.
O Brasil não pode ser salvo apenas por um regime,
pois que, assim como a um bolo não basta ser colocado dentro de uma bela fôrma
para ser saboroso, mas é necessário que sua massa seja boa, assim também a uma
nação não basta uma disposição engenhosa das diversas partes do organismo
social, mas importa principalmente que estas partes sejam sãs.
Exatamente, por isto, o artigo primeiro do programa
que proclamamos no pátio do Liceu Coração de Jesus, se refere à nossa própria santificação. A legião mariana
não se levanta, apenas, com palavras e programas, para salvar o Brasil. Ela se
levanta com uma obra já realizada, que é a da nossa moralização individual, que
faz de cada um de nós um elemento perfeitamente são, na vida social. É pela
reforma interior, pois, que iniciamos a reforma política e social.
O grande traço característico, pelo qual a mocidade
católica se diferencia portanto de todas as correntes que desejam salvar o
Brasil é a impersonalidade de seu movimento, que não
nasceu e nem se apoia no prestígio de nenhum grande
homem, e não espera da mera ação de algum regime-panacéia, mas que se estriba
na força de uma grande idéia, espera tudo do esforço geral dos brasileiros,
coadjuvados pela onipotente graça de Deus.
É este o esplêndido programa que levamos na cruzada
a que nos chama a Providência.
* * *
Porém, não é em vão que a Providência confia a uma
falange de moços uma tão sublime missão. Conhecer a verdade e propagá-la é uma
tarefa que exige uma vida de sacrifício e de abnegação.
Conhecer a verdade e propagá-la! O que de mais venturoso
e de mais nobre, em um mundo em que tantos ignoram a verdade e gemem no erro!
Em um mundo em que tantos combatem a verdade e vibram de ódio!
Um escritor francês, Claudel se não nos enganamos,
conta de um cego que, postado a um canto de uma rua movimentada, a todos os
transeuntes perguntava: “Ó vós, que
conheceis a verdade, o que fazeis dela?”.
A mesma pergunta fará o Brasil de amanhã à nossa
mocidade católica: “Ó vós, legião de
moços ardentes e fortes, ó vós que conheceis a verdade que tantos procuravam
sem lograr encontrá-la, o que fizestes dela?”. E a resposta que nos ditar
nossa consciência será a sentença que sobre nossa ação terá proferido a
História.