Saudação dos Marianos ao Prefeito da Capital

“O Legionário”, N.º 176, 21 de julho de 1935

 

Foi o seguinte discurso pronunciado pelo nosso diretor saudando o Prefeito da Capital, em nome dos Congregados, na Concentração:

 

Excelentíssimo Senhor Prefeito Municipal.

 

Incumbiu-me a mocidade que aqui se congrega, de homenagear, na pessoa de Vossa Excelência, a gloriosa Capital Paulista. Nada de mais grato para nossos corações do que celebrar, na festiva data de hoje, a grandeza e a gloria da nossa Paulicéia, tão digna de todas as homenagens, pela sólida catolicidade que a distingue e pelo valor de sua atuação na vida nacional.

Consagrando ao apóstolo das Gentes a Cidade que acabava de fundar, Anchieta implorou e obteve, para [o povo] que dela brotasse, o idealismo abrasador, a energia inexaurível, a combatividade invencível, a audácia viril e realizadora, que Paulo de Tarso soube pôr ao serviço da maior das causas, a causa de Cristo e da sua Igreja.

É ao menos o que parece, quando relemos a história da grande cidade a cujos destinos preside Vossa Excelência.

Nunca se viu que os filhos desta Cidade se portassem com tibieza em qualquer das numerosas vicissitudes de sua História, já quatro vezes secular.

Todos os grandes problemas do passado encontraram aqui o impulso vigoroso que os haveria de encaminhar à solução definitiva.

É possível que, na defesa de seus pontos de vista, em lutas travadas em séculos que já se foram, tenham alguma vez errado - pois que é esta a triste contingência da natureza humana. É certo que, mais de uma vez, se atiraram uns contra os outros em lutas fratricidas. Mas ainda mesmo nos mais dolorosos momentos de sua História, nenhum vulto aparece que possa ser filiado àquela categoria de tíbios que, segundo a enérgica expressão dos Santos Evangelhos, o Cristo justiceiro vomitaria de sua boca divina.

Não é apenas no idealismo candente e no vigor da ação que os filhos desta Cidade se têm mostrado dignos do Orago que lhes deu Anchieta. É também pela universalidade de sua ação.

O Apóstolo das Gentes não concebia limites para a sua doutrinação. O mundo inteiro era pequeno para a grandeza de seu ardor apostólico. Nem a distância dos lugares, nem a dificuldade dos empreendimentos, nem a diversidade dos povos, lhe poderia conter o passo vigoroso e a palavra de fogo. Exclusão feita de São Pedro, colocado por desígnio divino à testa da Igreja Católica, todos os Apóstolos tiveram um campo delimitado a evangelizar. Exceção entre eles, porém, foi São Paulo, que teve como ovelhas todos os povos, e como campo o mundo inteiro.

Assim também a ação vigorosa e fecunda dos paulistanos se destaca pela sua universalidade. Nem a distância dos lugares, nem a dificuldade das comunicações foram diques capazes de conter a ação da gente bandeirante que se tem derramado em influxos benéficos sobre o Brasil inteiro. E desde as bandeiras até à reconstitucionalização do País, todos os episódios de nossa História têm sido um transbordamento do coração e da energia de São Paulo, para além de nossas fronteiras em benefício de nosso grande Brasil.

É esta mocidade católica e batalhadora da gloriosa Piratininga, tão digna de seu glorioso trono que vem aqui para uma manifestação que ficará definitivamente inscrita nos fastos de nossa História.

Ela vem iniciar uma bandeira decisiva para os destinos do País. Nossos avós partiram desta Cidade em busca de ouro e de esmeraldas. Nós vamos buscar um ouro que as vicissitudes da vida não nos podem roubar, e esmeraldas mais preciosas do que aquelas que, em sonho, fascinaram Fernão Dias.

Nossos pais partiram desta Cidade para desbravar o nosso interior e semear o café em todo o Estado, fundando assim a riqueza que haveria de tornar São Paulo grande e poderoso. Nós vamos semear uma semente mais preciosa do que o café, nós vamos semear a Verdade Eterna, que torna grandes os povos e felizes as almas que dela se alimentam.

Do marco zero cravado por mãos de V. Ex.a no solo de Piratininga, automóveis partem a devorar estradas, em corridas vertiginosas. Do Coração de Jesus, que é o marco zero de toda a ação católica, a mocidade católica de São Paulo partirá a esmagar dificuldades, a vencer obstáculos, a contornar precipícios, em corrida desabalada, à procura de almas, antes que delas se apossem os sedutores que querem erigir o ódio das classes em princípio de organização social e a irreligião em nova filosofia do Estado e da vida.

Esta nova bandeira - eu ia dizer, sem impropriedade de expressão, esta nova cruzada - não terá apenas como teatro terras remotas: abrangerá certamente toda a extensão que nosso raio de ação posa atingir, mas principiará no campo que nos está mais próximo. É uma bandeira de filhos amantíssimos da Igreja que têm por tarefa primeira a evangelização de São Paulo e de sua Capital, para atingir depois mais largo campo de ação, irmanada com os esforços generosos da mocidade católica que se está levantando e arregimentando por todo este imenso Brasil.

Diminuiria singularmente a magnitude das funções de que V. Ex.a está investido quem lhes quisesse restringir o âmbito às questões de mera estética ou higiene urbana.

Não basta a uma cidade que sejam belas as suas praças, largos os horizontes oferecidos aos seus habitantes por um urbanismo sábio, longas as suas avenidas, e decorosamente limpos os seus mais modestos recantos.

Era formosa Babilônia, cujas ruas, como as das modernas cidades, se cortavam em ângulos retos, formando longas avenidas, interrompidas de quando em quando por parques verdejantes ou praças bordadas de edifícios imponentes. Esta beleza, porém, não a salvou da ruína. Antes pelo contrário apressou sua queda, atraindo sobre ela a cobiça dos conquistadores.

São Paulo não é grande por ser rica. Mas São Paulo é rica porque o paulista é grande. Nossa riqueza foi arrancada ao solo virgem de nossa terra depois de uma luta titânica contra a natureza bravia. Nossa Capital não se construiu em fértil e luminosa planície, embelezada por todas as graças da natureza. Foi edificada em terreno montanhoso e sob um céu cheio de brumas, em que tudo no ambiente nos lembra, constantemente, a vocação do paulista; porque a bruma nos diz “lutar” e o solo acidentado nos brada “subir”.

Se nosso Estado é próspero e nossa Capital é bela, não o devemos, nós, portanto, senão à mercê de Deus e à fibra de nossa gente. Porque foram sempre a mercê de Deus e o valor de nossa fibra, a maior riqueza com que contamos.

É também este o dever imperioso que pesa sobre todos os que militam sob as bandeiras da Igreja Católica: defender a pureza e a rijeza desta fibra moral, temperando-a ao contato da vida da graça, e lhe dando a suave e sobrenatural fortaleza d'Aquele que as Escrituras não chamam apenas o Cordeiro de Deus, mas o Leão de Judá. E não é outro o grande ideal da mocidade mariana que aqui vedes.

Se a São Paulo de hoje tivesse de ser a Cápua lasciva em cuja beleza capitosa se houvesse de corromper a pureza de nossa moral ou o vigor de nossa Fé - oh! -, nós marianos preferiríamos mil vezes que o solo se abrisse para devorar todos os monumentos de nossa grandeza e opulência, e que dos escombros ressurgisse a pequena cidade colonial, em que, longe das seduções das grandes metrópoles, se trabalhava com afinco pelo Brasil e se amava piedosamente a Deus.

Mas tal não se dará. O Paulista saberá vencer os perigos da opulência como soube esmagar a resistência que, a seus cometimentos, opunha a hostilidade da selva bravia.

Para guiar a Cidade na realização deste alto feito, ninguém mais indicado do que aquele que foi colocado por Deus - omnis potestas a Deo - à testa dos seus destinos.

Para esta nobre tarefa, Excelentíssimo Senhor Prefeito, conte com a nossa solidariedade.

Alheios a partidos e a dissenções, colocamos acima de tudo os supremos interesses da Igreja. Por isso, nunca faltarão às autoridades bem intencionadas o apoio e a dedicação dos católicos, sempre que queiram exercer contra o vício a ação repressiva que os interesses nacionais reclamam. Nesta solidariedade, vai um preito de nosso amor à Cidade. Aí, há, às suas vistas, 15 mil almas, 15 mil corações marianos. Senhor Prefeito: posso assegurar a V. Ex.a em quem, no momento, vejo o representante da Cidade, todo o amor apaixonado, desinteressado, dedicado até o sacrifício supremo, com que 15 mil moços católicos amam a gloriosa Piratininga.