Os recentes acontecimentos políticos da Europa e da
América têm evidenciado bem claramente que não é mais possível, nos dias que
correm, fazer a clássica distinção entre a política externa e a política
interna dos povos contemporâneos.
Na Europa, as grandes potências tendem a
agrupar-se, no terreno internacional, segundo suas preferências em matéria de
política interna. De um lado, a Itália, a Alemanha, a Hungria e Portugal que
são ditatoriais; de outro lado, a França, a Inglaterra e a Rússia, que são
antifascistas. Na América, o Presidente Roosevelt procura estabelecer
uma frente única continental, baseada na comunhão de sentimentos democráticos
das nossas repúblicas. Política interna e política externa são, hoje, coisas
inseparáveis.
À luz desta verdade, como considerar a questão da
sucessão presidencial no Brasil? Que relação terá o problema com os grandes
movimentos internacionais do mundo contemporâneo?
* * *
Não é fácil responder.
Em tese, a situação é a seguinte: há duas correntes
internacionais, nitidamente delineadas, e que
se colocam reciprocamente em uma situação de antagonismo dia a dia mais
profundo.
Evidentemente, estas correntes estão empenhadas em
obter para si o apoio do maior número de países. Mas este apoio depende da
orientação política dos governos que estão à testa destes países. Nasce, daí, o
empenho dos dois grandes grupos internacionais em intervir na política interna
de cada país, para conseguir a formação de um governo constituído segundo os
seus interesses.
O que se passa na Espanha é, até certo ponto,
uma prova claríssima do que estamos afirmando.
Para qualquer observador insuspeito, é
incontestável que tanto a Alemanha, quanto a Itália, a França e a Rússia estão servindo na
guerra civil espanhola. Qual a razão? É que se vencerem os nacionalistas, a
Espanha atuará provavelmente, no tabuleiro europeu, como potência anticomunista,
anti-francesa e anti-inglesa. Enquanto se vencer o governo, a Espanha será uma
potência russófila, que auxiliará a França e
procurará arrancar Portugal da aliança com o grupo fascista, para atirá-lo na
anarquia comunista.
É provável, pois, que também no Brasil as duas grandes
correntes internacionais procurem exercer sua influência. O Brasil não é mais,
hoje em dia, a potência de 5ª categoria que era em 1914. Por todos os
economistas do mundo, ele é agora considerado como detentor de uma poderosa
reserva de víveres e de meios de abastecimento, capaz de pesar seriamente na
balança de uma guerra mundial. A aliança do Brasil é, pois, um importante fator
de êxito. E é natural que todas as potências interessadas procurem alinhar mais
este fator, entre os outros muitos com que contam para obter a vitória.
* * *
Já há, entre nós, quem vislumbre alguma coisa
relacionada com o que estamos dizendo. E, em mais de um círculo, já se discute
à boca pequena se o Brasil deve filiar-se ao grupo de potências democráticas ou
ao grupo de potências ditatoriais.
De um lado e de outro, os argumentos se vão
tornando cada vez mais complexos e mais delicados.
A presença da Rússia no bloco das nações
liberal-democráticas é como a presença de um doente de peste bubônica, de cujo
convívio fogem todos os homens que não
se querem suicidar.
Mas a presença da Alemanha no bloco das nações
ditatoriais não inspira preocupações muito menores.
Considerado o hitlerismo tal qual ele atualmente
dirige a Alemanha, é certo que, por maiores que sejam seus desatinos, ele é
muito preferível ao comunismo. Só um insensato poderia duvidar disto.
Mas é preciso não olhar só para isto.
Qualquer observador sagaz perceberá facilmente que
o hitlerismo ainda não caminhou até o fim na sua política anti-religiosa.
Enfrentando inimigos externos de todas as categorias, Hitler não tem duvidado,
no entanto, em suscitar na Alemanha a formidável cisão religiosa que sua
política provocou. Mas enquanto os inimigos externos ameaçarem as fronteiras
alemãs, ele não poderá desenvolver sua atividade anticatólica
com todo o rigor e toda a energia que lhe são peculiares. Há, no entanto, na
ideologia hitlerista, abundantes premissas que justificarão futuramente um
esforço governamental para extinguir cabalmente o Cristianismo na Alemanha.
Basta ler os livros de Rosenberg e de sua seqüela,
para convencer-se disto qualquer pessoa. Se algum dia a Alemanha conseguir
vencer os seus adversários, não será muito de se recear que Hitler procure arvorar o
Reich em campeão da irreligião no mundo inteiro?
Para aqueles dentre os católicos a quem a admiração
por Hitler não toldou o senso dos interesses da Igreja, esta questão é de
grande peso.
* * *
Mas pergunta-se agora: não terá o Brasil outro
remédio senão optar entre a liderança hitlerista e a liderança comunista? Não
haverá para ele uma solução melhor?
Se os católicos estivessem devidamente organizados,
afirmaríamos que sim.
Cabe aos católicos serem o fiel da balança no
Brasil. Por seu número, por sua influência, pelo ardor da mocidade mariana,
eles constituem uma força irresistível que só não atua eficientemente nas altas
questões da política nacional, porque esta força ignora seus próprios recursos.
Se os católicos tivessem um grande jornal - um
único, ao menos - eles poderiam impor ao Brasil a linha de conduta que ele deve
seguir.
Não devemos afreguesar o
Brasil na clientela de qualquer outra grande potência. Independente de fato e
não apenas “de jure”, o Brasil
deveria reservar sua influência não para favorecer ao Sr. Hitler ou ao
“Camarada Stalin”, mas para amparar os verdadeiros interesses da civilização
católica. Inimigo feroz, tenaz, ardoroso, intransigente, irredutível, vigilante
do comunismo, nem por isso ele seria forçado a se colocar sob a tutela de
qualquer outra corrente pagã.
É esta a boa política para a Terra da Santa Cruz,
em cujo firmamento a Providência não desenhou, nem a cruz suástica, e nem o
miserável emblema comunista, mas o Signo da Redenção.
Mas, dirá alguém, a Igreja nada tem a ver com
política. A afirmação é equívoca.
Em todo o caso, não é a Igreja que estamos querendo
arrastar a este terreno. Onde a Igreja, como tal, pode não querer intervir por
medida de prudência ou por reserva doutrinária, os católicos nem por isto estão
isentos de agir como católicos. É Ela mesma quem no-lo ensina.
Isto é o que deveriam pensar e querer os católicos
brasileiros.
Mas o que fazem nas trevas dos conciliábulos
os nossos políticos? Não será, porventura, coisa muito diversa do que
aconselhamos?
Só o futuro poderá dize-lo.