Legionário, N.o 320, 30 de outubro de 1938

7 DIAS EM REVISTA

Na 2ª feira pp., foi projetada no Cine Odeon uma película referente à fundação da cidade de Goiânia e, por essa película, tivemos o prazer de verificar que o ato inaugural constou da celebração do Santo Sacrifício da Missa.

Magnífico exemplo da continuidade de nosso espírito religioso! Há 400 anos, uma Missa celebrada na selva litorânea da Bahia indicava a fundação da civilização no Brasil. Hoje, no fundo de Goiás, os descendentes dos mesmos conquistadores de 1500 inauguram com outra Missa um novo marco de sua ação apostólica e civilizadora no hinterland da América.

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Nos trágicos acontecimentos que assinalaram ultimamente a guerra chinesa, o heroísmo dos missionários católicos se patenteou admiravelmente.

Especialmente na queda de Hankeu, o Pe. Jaquinot, mundialmente famoso por sua perícia e bravura, teve marcadíssima atuação assumindo o cargo de Prefeito da cidade incendiada, e salvando a população estrangeira.

Neste mês consagrado às Missões, é muito conveniente que acentuemos o fato, mostrando o quanto merecem de nós em orações, ações e sacrifícios, as Missões Católicas.

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Apesar de todos os ensinamentos da história, os ditadores ainda não se convenceram da inutilidade de atacar a Igreja e persegui-la. E o mais interessante é que sempre usam dos mesmos métodos e das mesmas ameaças e profecias.

Ainda agora, o Sr. Goebbels, evocando os acontecimentos de Viena, vaticina que “daqui a 500 anos ninguém terá curiosidade de saber se o Cristianismo era de essência católica ou protestante no espírito de seu fundador, ou se a Comunhão deve ser feita sob duas espécies ou sob uma espécie”.

Entusiasmado pela sua imaginação afirmou logo depois que os dirigentes da oposição católica no Reich serão esquecidos, não dentro de 50 anos, mas dentro de 5 anos.

Repete-se sempre a história. Quantos e quantos já não viram em sua imaginação doentia a Igreja desaparecer do mundo? No entanto, eles desapareceram, a influência de que gozavam ruiu como um castelo de baralho, e a Igreja continua como continuará para sempre a ensinar todas as nações.

O Sr. Goebbels devia ler uma História Universal, o que lhe faria ótimo bem e evitaria esse ridículo a que se expõe com seus discursos.

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Todo o mundo supunha que o nazismo fosse contra a democracia por ele cognominada bolchevizante. No entanto, no mesmo discurso em que se manifestou profeta, o Sr. Goebbels afirma:

“Temos uma verdadeira democracia”.

No entanto, para se julgar da coerência do nazismo reproduzimos mais este tópico do mesmo discurso:

“O povo se conduz por si mesmo, e seu orgulho é marchar atrás do füehrer fielmente e de maneira obediente”.

Em outras palavras, regime de pura tapeação.

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Cada vez mais se nota o trabalho do Sr. Hitler em captar adeptos nos outros países. Em todos os países do mundo o Sr. Hitler conseguiu preciosos amigos que facilitam os seus gestos teatrais de valentia, impedindo de toda a forma a reação.

O Sr. Archibald Sinclair referindo-se a sir Samuel Hoore, um dos crentes de boa fé do Sr. Hitler, acusou-o de se deixar enganar voluntariamente, e lançou um apelo aos ministros para que respondam com clareza se se deixam enganar facilmente ou se são cúmplices dos ditadores.

Donde se vê que os próprios ingleses começam a ver a infiltração nazista na Inglaterra e a necessidade de evitar que a Inglaterra seja entregue ao nacional-socialismo.

Se até um país com as tradições imemoriais da Inglaterra se deixa contaminar, o que se dirá do Brasil? Abramos os olhos...

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Apesar de tudo isso, e da revolta nazista do Peru, ainda há muita gente que não acredita nessa infiltração, principalmente quando se trata das Américas.

Pois em Cuba, o governo rejeitou o apelo que lhe foi dirigido contra a recente legalização do Partido Nazista Cubano.

São esses os processos do Sr. Hitler. Quando impedido por um governo realmente patriota, ele infiltra-se, consegue bons amigos e faz correr boatos de que essa infiltração é absurda.

Quando esses amigos vencem e tomam conta do governo, então tudo se faz às claras, pois não é mais preciso agir nas sombras.

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Os jornais noticiaram uma alocução que Sua Santidade o Papa teria pronunciado, comparando os tempos de hoje aos tempos de Nero, e que os atuais acontecimentos, principalmente na Áustria e Alemanha, relembram as perseguições do Imperador Juliano Apóstata e a traição de Judas.

O Legionário está à espera do “Osservatore Romano” para poder informar os seus leitores sobre o que há de positivo sobre esse discurso tão oportuno no momento.

No entanto, desde já ele pode afirmar não ser verdadeira a versão das agências telegráficas de que os altos funcionários do Vaticano teriam impedido a sua publicação antes de o reverem.

Isso seria passar um atestado de inepto à Sua Santidade o Papa, e isso não é possível acontecer no Vaticano, tanto mais que o discurso de Sua Santidade é perfeitamente oportuno.