Publicou-se
recentemente um livro que serve de cruel e luminosa lição aos que, sob o
pretexto da caridade, vivem a criticar a linguagem franca e categórica do Legionário.
É a história de
um soldado inglês que, conduzindo-se como verdadeiro herói durante a batalha de
Dunkerque, apanhou ali uma pneumonia que o forçou a se recolher a um
hospital. Depois de ter recobrado a saúde, o horror ao combate levou-o a
desertar, não mais se apresentando às fileiras do exército de sua pátria. Um
companheiro, entretanto, faz passar ante seus olhos o espectro da "Casa de
Vidro", enorme estabelecimento de tortura, estabelecido na Inglaterra contra os desertores. Ali o
trânsfuga é injuriado em seus sentimentos mais íntimos, até que reaja, e,
depois, é punido pela reação. As vítimas são obrigadas a exercícios duplicados,
com os aprestos todos, sem descanso. Exaustos, não lhes adianta clamar
misericórdia nem cair de cansaço ou sono, dão-lhes golpes de correia,
batem-lhes com a coronha nos dedos dos pés, picam-lhes as carnes com a
baioneta, não os deixam parar, repousar, dormir um minuto, dia e noite, até que
capitulem ou morram. Enfim, algo de vagamente parecido com os campos de concentração
nazistas que, seja dito de passagem, não se limitam a isto, mas praticam
torturas mais drásticas e mais cruéis, a perder de vista, como foi o caso dos
sacerdotes polacos enterrados ainda com vida.
Não é nosso
intuito fazer aqui uma apreciação da "Casa de Vidro" que mostra, entretanto, o risco que correm os países
democráticos de, assimilando por necessidade de guerra os métodos totalitários,
acabarem, no dia da vitória, por estar inteiramente totalitarizados.
Mas, o que precedeu é indispensável para a compreensão do resto.
* * *
O autor do
livro relata um diálogo entre Clive e certa moça. Ela procura, fazendo valer as
razões da honra e do patriotismo, levar Clive novamente às fileiras militares.
Ele, entretanto, revoltado contra o governo inglês, assim se exprime quanto ao
fracasso de Dunkerque:
"Nós
estávamos na França com espingardas e
baionetas, metralhadoras e artilharia. Mas Hitler estava com tanques aos
milhares. Com milhares de aviões, com divisões motorizadas. E ainda mais, com
técnica nova para o emprego dessas armas superiores. Por que nos puseram em
circunstâncias tão desiguais? Os nossos mandões não sabiam disso? Podem as
almas dos moribundos, dos feridos, perdoar ignorância tão culposa?"
E acrescenta:
"Os nossos
próprios feridos foram triturados em massa informe e irreconhecível sob as
engrenagens dos tanques, antes quase de as inúteis espingardas lhe caírem das
mãos, diante dos meus olhos, que os viram. E quem fez isso? Quem mandou os nossos
corpos arremeterem contra o aço? Quem nos despachou com armas e técnicas tão
fora de uso como os uniformes vermelhos da guerra dos boers?
Quem ignorou as lições da guerra polonesa, tão fáceis de aprender?"
Evidentemente,
a traição é sempre uma traição, a deserção é sempre uma deserção, a infâmia é
sempre uma infâmia. A Inglaterra de hoje já não é a
Inglaterra de Chamberlain e dos guarda-chuvas, e nada
poderia justificar que Clive retornasse ao Exército inglês logo depois de Dunkerque, aliás, em fase de franca reconstituição
e reerguimento. Mas, tudo isto posto, quem não
sentiria confranger-se o coração ante tão dramática narração, evidentemente
pintada com as cores do mais veraz realismo?
* * *
Mas, se nosso
coração se confrange, nossa inteligência é forçada a formular uma pergunta.
Quem foi o culpado de tão grande catástrofe que afetou milhares de vidas? Algum
feitor de chibata em punho? Algum indivíduo cheio de perfídia e de crueldade?
Não, não foram nem a perfídia nem a crueldade as autoras destas ruínas. Foi a
bondade! Não a bondade como a define e descreve a Santa Igreja, mas aquela
bondade sentimental, romântica, puramente natural e carnal que intoxica hoje os
meios católicos e não católicos, a bondade (...) dos pacifismos
imoderados, a bondade criminosamente estúpida, abominavelmente imprevidente de
um Chamberlaim e de todos aqueles
que aplaudiram as proezas do herói do guarda-chuva.
Conta-se que
certa vítima da Revolução Francesa, passando por perto da estátua da Liberdade
quando os republicanos a levavam à guilhotina, exclamou: "Oh, liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome!"
Se se fizesse hoje o balanço dos crimes e dos males
que ocorrem, ver-se-ia que muito mais numerosas são as pessoas responsáveis por
uma bondade sentimental do que as responsáveis por maldade diabólica.
Homens
"bons", contemplai o mundo de hoje com suas ruínas e suas misérias:
tudo isto em grande parte é obra vossa. Não soubestes ser bons como Cristo, que
tanto sabia curar quanto ferir com o azorrague os vendilhões. Fechastes
criminosamente os olhos às perfeições da Justiça
divina. Regozijai-vos com o fruto desta apostasia, mas, pelo amor de Deus, não
digais que é por vossa palavra desbotada e mole que se pode anunciar ao mundo a
verdadeira caridade de Cristo, a verdadeira doutrina de Sua Igreja.
* * *
O Sr. Hori, porta-voz do Ministério do Exterior do Japão,
fez declarações segundo as quais continuam inalteradas as relações entre o
Império nipônico e a Rússia, acrescentando em seguida, textualmente, que "se a Rússia
participar da coalisão contra os países signatários
do pacto anti-komintern, nossas relações com ela
serão bem diferentes".
Curioso! Há um
pacto anti-komintern, e o único país que não se
filiou claramente à coalisão das potências
signatárias de tal pacto é a própria Rússia!
* * *
Certo jornal
desta capital publicou na seção de "a pedidos", um oportuníssimo artigo contra as manobras da quinta-coluna no Brasil.
Com muita perspicácia acentuou o autor de tal artigo que os elementos filiados
à quinta-coluna procuram, agora, aderir
precipitadamente à política seguida pelos países americanos, com o propósito
deliberado de, assim vacinadas contra qualquer suspeita, mais facilmente
poderem sabotar a política que tenha sentido efetivamente anti-totalitário.
Devemos, pois,
ter nossa atenção vigilante contra tais manobras, mostrando sempre e sempre com
clareza que não são os "convertidos" de ontem e de hoje que nos
merecem confiança, quando ainda ontem eram partidários militantes e ostensivos
do eixo.