Evoluíram no sentido que havíamos previsto, as
negociações entabuladas entre a Santa Sé e o governo nipônico para a designação
de representantes respectivamente em Tóquio e no Vaticano. O Santo Padre,
fazendo uso da soberania que lhe confere sua missão divina, não deu ouvidos às
reclamações de vozes interessadas, e, no maior interesse da expansão da Igreja
no Extremo-Oriente, decidiu aceitar as sugestões de
Tóquio no sentido de um contato diplomático normal dessa capital e o governo
pontifício.
* * *
Ao mesmo tempo, é extremamente digno de nota que tenha
a Santa Sé também estabelecido relações diplomáticas com o governo chinês, de
sorte que se firma, de modo claríssimo, a indiferença da Igreja diante de todos
os conflitos que envolvem interesses meramente temporais – é este o caso da
luta nipo-chinesa – e a absoluta imparcialidade do
Santo Padre que só se liga às potências da terra na medida que o exige o
interesse da religião.
* * *
Desta indiferença a tudo quanto é temporal, não se
pode, evidentemente, deduzir uma indiferença com relação ao que é espiritual,
nem ao que, sendo temporal, afeta, interessa, põe em jogo de qualquer maneira o
que é espiritual.
É este o caso do conflito mundial. O Japão é uma potência
pagã, e a China é outra: claro está que, abstração feita de
conseqüências mais remotas, não pode a Santa Sé interessar-se pela vitória de
uma ou de outra.
Já não é este o caso quando uma grande potência ou
antes um grande partido político – o nazista – escraviza um país, tenta
paganizá-lo de todos os modos, e, finalmente, atira sobre o mundo inteiro suas
formações de combate, levando, na mochila de seus soldados, os princípios do
neopaganismo.
Isto posto, seria um erro procurar-se inferir, do
gesto do Santo Padre, uma indiferença sistemática para com todos os conflitos
internacionais, quaisquer que eles sejam.
* * *
Com efeito, era um conflito internacional de cunho
acentuadamente temporal, a luta entre o Império Romano do Oriente e o Islã. Não há dúvida de que os maometanos tinham o desígnio de
impor ao mundo inteiro as convicções religiosas que professavam, e,
ilicitamente de destruir a Igreja. Entretanto, a esse desígnio se ligava de
modo evidente o propósito de conquistar uma supremacia política em todo o
Mediterrâneo, que colocasse o domínio do mundo nas mãos do povo árabe.
Eram cismáticos os bizantinos; eram nitidamente
inimigos do Cristianismo os maometanos. Entretanto, a Igreja se colocou
claramente ao lado dos bizantinos, e convocou oficialmente o movimento das
cruzadas a fim de defender as cristandades do
Oriente, gravemente ameaçadas. Não se contentou ela com a inação diante do
frágil pretexto de que a luta tinha também
um caráter temporal, e que em suma o Império do Oriente não era
católico. Optou corajosamente pelo mal menor contra o mal maior, interveio
resolutamente no que era temporal pois que aí havia algo de espiritual
envolvido, e quebrou, depois de lances heróicos, o ímpeto dos muçulmanos. Por que
não haveremos de raciocinar assim também nós, católicos do século XX?