De um telegrama da agência oficiosa de Vichy — a “HTM”— extraímos o seguinte tópico de um discurso
que o General Franco pronunciou no dia 4
p. p., no Palácio do Escorial:
“Não condenamos o marxismo nem o
comunismo no que eles contém de aspirações sociais – pois todas essas
aspirações sociais nós partilhamos e ultrapassamos - mas pelo que eles contem
de anti-nacional, de materialista, de falso”,
“declarou o general Franco, num discurso pronunciado ontem no Escorial, ao examinar a obra social que deverá ser cumprida
pelos jovens falangistas”.
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A mesma agência telegráfica, muito
insuspeita no que diz respeito ao III Reich, porque ninguém ignora que Vichy é hoje uma sucursal dócil de Berlim, emitiu um
telegrama de Estocolmo, em que comunica que o "Supremo Tribunal alemão
decidiu que o desejo expresso por uma mulher de ver seu marido enviado para a
frente de combate, constitui motivo de divórcio e que será decretado por culpa
da mulher". A este propósito, o "Hamburguer
Fremdenblatt" comentou que tem ocorrido várias
vezes o fato de mulheres correrem à polícia, pedindo que seus maridos fossem
enviados à frente de combate, "porque isto lhes faria bem".
O fato tem, evidentemente um aspecto
jocoso, estas megeras domésticas, que preferem ver os maridos ceifados pelas
metralhadoras soviéticas, a suportar as pequenas agruras das discussões
conjugais, dariam certamente a algum literato de fibra os elementos para a
produção de uma comédia de primeira ordem.
Entretanto, o espírito católico é
naturalmente infenso a esta frivolidade de vistas, que julga que um determinado
episódio já está inteiramente analisado quando se aproveitou nele tudo quanto
tem de cômico e até de risível.
A família é, para nós católicos, uma
instituição por demais sagrada para que a consideremos sob o simples aspecto de
um cenário como outro qualquer, em que os homens fazem coisas ridículas para
desopilar seus semelhantes.
Assim, temos que descer mais a fundo, e
considerar as coisas sob outro aspecto.
O dever de patriotismo exige,
evidentemente, que a mulher sacrifique de boa vontade seu marido, seus filhos
ou seus irmãos, em holocausto à defesa nacional. Na Alemanha, esta obrigação
não existe. Com efeito, o inimigo n.º 1 da Alemanha não se encontra na frente
de combate, do outro lado das trincheiras, mas instalado nos postos do governo.
O inimigo n.º 1 da Alemanha é o próprio Sr. Adolph
Hitler. Um alemão deveria certamente sacrificar sua vida para destituir o Sr.
Hitler. Mas ele não teria a
menor obrigação de seguir para a linha de combate, a fim de manter no governo
um dos mais monstruosos tiranos que a História conhece.
Assim pois, a mulher que tenha
conhecimento desta situação comete um crime enviando seu marido para a frente
de batalha.
Se, porventura, esta situação não se
delineou claramente a seus olhos, nem nisto seu gesto é nobre. Com efeito,
generosa em prestar os sacrifícios que a Pátria dela reclame, é simplesmente
vil, entretanto, que ela encaminhe o marido para a linha de frente, não para
cumprir um dever patriótico, mas para se desembaraçar de um esposo importuno.
Ainda aí, pois, a ação é censurável.
* * *
A freqüência com que este fato tem
ocorrido mostra claramente a que grau de desorganização está chegando, na
Alemanha, o instituto da família. O nazismo é, por essência, uma doutrina
corrupta. O III Reich tem feito todo o possível para destruir inteiramente a
família, desenvolvendo neste como em todos os outros sentidos uma política
social absolutamente idêntica à do comunismo. Apenas os caminhos que o
comunismo escolheu, cheios de violência e imediatismo,
o III Reich os substituiu por um itinerário mais sábio, através do qual,
entretanto, o ponto de chegada é o mesmo: a subversão completa da civilização
católica, até mesmo em seus últimos vestígios ou fundamentos.
* * *
Não caiamos no grave erro de supor que
há nisto um defeito congênito deste ou daquele povo. Todos os povos foram
concebidos em pecado original, e todos eles tem tendências muito graves para o
mal que só podem vencer com o livre arbítrio fortificado e orientado pela graça
de Deus.
Assim, todos os povos contemporâneos que se
deixarem empolgar pela ideologia nazista ou comunista chegarão a excessos mais
ou menos tão graves. O grande problema consiste em tornar mais firme do que
nunca a frente ideológica contra o nazismo e todas as suas variantes
ideológicas, e sósias doutrinárias de toda a natureza. Mas uma frente
ideológica não é suficiente contra uma ideologia que põe as armas a seu serviço.
Na situação a que chegamos, a frente ideológica só será impermeável quando
garantida pelas baionetas. É no esmagamento do nazismo que o mundo encontrará o
grande passo preliminar para, vencidos também outros adversários, emergir
finalmente da tenebrosa crise em que se encontra.