Não desejamos, na atual desgraça da França, quando a confusão e a desolação parecem ter chegado ao
mais alto grau naquele país ao qual se podiam aplicar ao menos em parte as
palavras da Escritura sobre Jerusalém, aquele país que era como "uma
cidade de uma beleza perfeita, alegria e consolação do mundo inteiro", não
desejamos, precisamente neste momento, revolver feridas que sangram, avivar
dores pungentes e conturbar corações que o infortúnio traz amargurados. A linha
do "Legionário" já é bem conhecida de todos a respeito da
"questão Pétain", e os últimos
acontecimentos vieram tornar cada vez mais clara a aprovação que nossa atitude anti-Vichy recebe da parte da verdadeira França, que é a
França combatente. Limitemo-nos, pois, a dizer que desejamos de todo o coração,
e pedimos com insistência a Deus Onipotente a restauração da independência
francesa, condoendo-nos ao mesmo tempo, e sinceramente, com toda a infelicidade
que a França está sofrendo.
* * *
Disse certa vez o Papa Pio X que a França é um país amadíssimo
por Deus, do qual se pode dizer que hauriu na Igreja toda a sua glória e todo o
seu esplendor. E por isto, acrescentava o Santo Padre, a França seria sempre,
tanto mais gloriosa quanto mais unida à Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo.
É inútil dizer-se, depois disto, que
toda a presente desventura francesa é um fruto remoto do Enciclopedismo, da
Revolução e de seus múltiplos efeitos doutrinários e políticos, entre os quais
não será o menos nocivo nem o último a expansão das "quintas colunas"
na França.
Por isto, nossos votos em prol de uma
restauração francesa não são simplesmente no sentido de uma restauração da
independência política. É preciso que nesse dilúvio de dores a França se
purifique da Revolução, e volte a ser plenamente, inteiramente, exclusivamente,
a França de Santa Joana d'Arc, São Luís e Carlos X. Essa França
verdadeira não morreu. Ela continua a viver e a palpitar em Veuillot, em Santa Terezinha do Menino Jesus, em Maria Eustela, e em tantos outros batalhadores da boa causa. Mas ela coexistia com a França
de Gambeta, de Combes, de Waldeck-Rousseau. Uma das
duas Franças deveria forçosamente destruir a outra. Praza
a Deus que, assim como firme e inabalavelmente esperamos, a França de Waldeck-Rousseau, de Gambetta [...]
acabe de morrer. São nesse sentido nossos mais ardentes e melhores votos.
* * *
Neste sentido, temos mais uma
observação a fazer. Estando o Brasil em guerra, e em guerra justíssima
declarada contra um bando de malfeitores públicos como os chefes dos governos
totalitários, é obvio que desejamos com todas as fibras de nossa energia a
vitória de nossa Pátria. Seríamos os últimos dentre os homens se estas não
fossem nossas intenções.
Mas nós católicos temos a obrigação de
viver este sentimento nobre e viril dentro do espírito da Igreja, profundamente
impregnado em nossas melhores tradições. Nossa atitude é de brio, de altivez,
de combatividade levada ao extremo mais absoluto, em defesa de nossos
interesses e direitos. Mas nada tem de comum com o jacobinismo estúpido e
tacanho dos governos totalitários. Não odiamos nossos adversários como os
odeiam os nazistas, mas como os deve combater um país verdadeiramente católico.
Golpeando-os rudemente, golpeando-os furiosamente, golpeando-os de todos os
modos possíveis e empenhando na guerra a totalidade de nossos recursos, não
devemos perder aquele alto equilíbrio de virtude que, na guerra contra o
Paraguai, fez de nossos
exércitos vencedores, não tanto o flagelo e o terror das populações vencidas
como seu verdadeiro libertador de um abominável tirano.
Por isto, também, em relação a França com a qual
não estamos em guerra, mas evidentemente, nossas relações no momento são pelo
menos muito complexas e confusas, desejando antes de tudo a grandeza e o bem do
Brasil, devemos desejar que ela se liberte dos tiranos contra os quais
desembainhamos a espada. Não somos indiferentes a que os outros povos afundem
no vórtice da desgraça.